Anselmo Heidrich
10 dez. 19

Começou o jornal do Olavo, Brasil Sem Medo, e aqui temos uma matéria defendendo o Felipe G. Martins (https://pages.brasilsemmedo.com/o-chefe-do-odio/). Então vamos lá aos contrapontos…

Martins, apesar da pouca idade, se consagrou entre os anos de 2015 e 2018 fazendo as mais acertadas análises sobre as corridas eleitorais nos EUA e Brasil. Enquanto o mainstream das projeções de cenários, os institutos de pesquisa e a mídia inteira considerava Trump e Bolsonaro meros azarões – quando não nulidades inelegíveis – o jovem Filipe, partindo de outros pressupostos e olhando a realidade sem lupas ideológicas, cravava, com certeza vática, suas vitórias. Dito e feito.

Estas “análises acertadas” foram assim consideradas pelo próprio grupo de simpatizantes, o que fica fácil, para não previsível de se ter. Quanto à Trump ter vencido as eleições (2016) já era algo alardeado por toda mídia conservadora americana e simpatizantes continentais e mundiais, não há nada de novidade nisso. E o fenômeno no Brasil já era bastante previsível ao justificado e crescente sentimento anti-petista.

Note que no excerto acima, há um subtexto interessante: “enquanto o mainstream das projeções de cenários”, como se todos endinheirados e poderosos não quisessem Trump ou Bolsonaro no poder. Aqui no Brasil, o setor bancário foi o mais beneficiado nos anos Lula-Dilma, mas boa parte do empresariado amargou perdas chegando a ter uma fuga de capitais para outros países, dentre os quais, o Paraguai foi o mais beneficiado. Portanto, insinuar que houvesse uma divisão (até classista) entre quem pensa favoravelmente aos outsiders políticos de Trump e Bolsonaro como “ligado aos interesses do povo” e quem não, ao mainstream, é uma manipulação. Diferentemente, do que diz o jornal Brasil Sem Medo não descola a verdade da ideologia, muito pelo contrário, apenas de modo manipulador te induz a pensar que eles estão te esclarecendo. Não, não estão.

E essa capacidade de previdência chamou a atenção da família Bolsonaro. Hoje, corrido o primeiro ano de governo, Filipe, depois de rodar o mundo e travar negociações nas mesas mais importantes ao lado de Bolsonaro, parece bastante à vontade no cargo. Há até quem diga que ele é o mentor secreto por detrás do presidente, seu conselheiro-mor – especulação que, na entrevista, Filipe negou taxativamente.”

Em governos anteriores, intelectuais se tornaram presidentes (FHC), outros intelectuais ruins (Chauí) se integraram aos governos, mas o atual governo de Bolsonaro era carente desse tipo de quadro. De onde veio a suprir esse déficit? Como quem fala é chefe, se buscou alguém com muita influência na internet através de teóricos conspiracionistas e alarmistas, daí a eminência parda de Olavo de Carvalho. Mas como faltava alguém de carne e osso e como tal não se encontrava na academia, aliás, quase ninguém, se foi em busca de alunos do filósofo. Teóricos de conspirações e teses mal acabadas sobre uma arquitetura de dominação global ascenderam como porta-vozes desse movimento. Aí que entra o jovem, como se juventude fosse virtude para esse caso. Enquanto na verdade é nada, apenas algo indiferente, na retórica serve como uma espécie de deslumbre perante o novo e o revolucionário na forma de um espírito juvenil.

Até o momento, o artigo tem uma introdução que serve como cortina de fumaça para esconder o principal tema: o “gabinete do ódio”, que seria gerido por Filipe para atacar adversários políticos com recursos públicos, ou seja, o teu e o meu dinheiro.

Vejam que, em um primeiro momento, se desdenha o peso e relevância do tal ‘gabinete’:

“Gabinete. Por falar em gabinete, e esse foi um dos temas da conversa, Filipe é apontado pela velha e a nova esquerda, unidos em torno da malfadada CPMI das Fake News, como o chefe do Gabinete do Ódio, o seu real cargo, sendo aquele carimbado no Diário Oficial mera cortina de fumaça. Gabinete do Ódio.”

“Por falar em gabinete…” Eh eh, péssima estratégia para fazer pouco caso, sobretudo, para depois assumir que existem ‘intermediários’, ora intermediários entre quem e quem?

“Segundo Martins, esta designação é nada mais que uma pecha infamante cujo fim é calar os novos intermediários na opinião pública que ganharam relevância após as manifestações de junho de 2013.”

E continua a deturpação das narrativas. Segundo Filipe, 2013 serviu como ruptura a “esse estado de coisas”, mas esquece de dizer que a manifestação original era contra um aumento de passagem de ônibus, pautada pela própria esquerda. Mas, como toda manifestação que toma vulto, não há uma só voz, uma só direção, mas sim uma pluralidade de manifestações que se somam. Isso, por si só, já desconstrói a tônica do discurso de Filipe que vê um processo uniforme com início, meio e fim em torno da candidatura e vitória (apertada) de Jair Messias Bolsonaro, mesmo porque um dos principais protagonistas dos movimentos que se seguiram, o Movimento Brasil Livre (MBL) é, atualmente, um dos grandes desafetos do atual governo e, em particular, desde antes, do olavismo.

Veja aqui como deturpam o processo inteiro:

“Dessa maneira, conforme avalia o assessor – ou chefe do Gabinete do Ódio, vai ao gosto de quem lê – os eventos de 2013 serviram como uma ruptura a esse estado de coisas, e, desde lá, esse povo esnobado elegeu, sem o auxílio dos universitários, os seus novos interlocutores – concentrados nas redes sociais. A síntese desse processo foi a vitória de Bolsonaro.”

E claro que o problema não é, nem nunca foi “a torcida de cidadãos privados” por quem quer que seja, mas o modo como isso é feito, na base da difamação e calúnia, ou seja, o Brasil Sem Medo já inicia defendendo o método da mentira para vencer. Um mau agouro:

“Por isso, segundo entende Martins, todo esse esforço para condenar como discurso de ódio a defesa e a torcida de cidadãos privados ao presidente é nada mais que a velhíssima censura, agora empreendida pelo establishment derrotado. Só que é uma censura travestida de defesa da ordem democrática, do decoro nas discussões, da transparência, da ética, da paz, do amor – o oposto do ódio. Enfim, o diabo metido numa fardinha de escoteiro.”

Agora a principal mensagem do artigo para quem sabe ler nas entrelinhas, uma defesa de Filipe G. Martins e seus ilícitos, a coordenação de uma milícia virtual, cuja cobertura do bolo é a mesma cantilena teórica de sempre, a defesa de uma teoria do globalismo, puro conspiracionismo como se instituições supranacionais dirigissem países, mesmo que a realidade mostre o contrário, repetidamente:

“Esclarecida essa questão, e negando peremptoriamente que haja qualquer ação coordenada de servidores públicos para defender o governo nas redes sociais – o tal gabinete –, Filipe ainda teve tempo de dar uma aula sobre globalismo, fenômeno que Chacras, Pontuais, Leitões e Camarottis continuam a confundir, em pleno 2019, com a globalização.”

Vejamos como evoluiu o argumento:

“Martins explicou ao Emílio Surita e seus ouvintes, que há dois movimentos no cenário mais amplo das relações internacionais: os territorialistas, também chamados de nacionalistas ou soberanistas; e os funcionalistas.”

O primeiro grupo, ele explicou, é o de que fazem parte Trump, Bolsonaro, Boris Johnson, Matteo Salvini, entre outros, cujo o elo que os unem é a defesa de que as decisões políticas e a determinação dos rumos de seus povos, sejam feitas nos limites jurídicos do território tradicional, segundo as leis ali discutidas, segundo os costumes antigos por eles cultivados.”

Mais comentários agora: esta direita europeia tem sido acusada de receber apoio de Putin, o que faz todo o sentido, pois ela vai contra a União Europeia, o que é extremamente útil para a Rússia. Quem compra o principal produto de exportação russa – e que mantém sua economia em pé, inclusive em pé de guerra –, os hidrocarbonetos em bloco, através de diretivas da União Europeia tem força como comprador. Ao contrário, quanto mais fragmentados, divididos e competindo entre si estiverem os importadores europeus, mais fáceis serão como alvos da pressão russa. Aliás, não faz muito tempo em que a economia russa sofria sanções devido a invasão da Crimeia e a guerra do Donbass na Ucrânia, a partir de 2014. Não é a atoa que a Ucrânia tenha um forte movimento nacionalista, anti-russo que também é pró união europeia. Como isso se explica na teoria de Filipe? Não se explica porque o mesmo jovem parte de uma classificação rígida, Funcionalistas vs. Globalistas e, que não explica o mundo e não serve para nada além de iludir.

Vejamos mais:

“Por outro lado, os funcionalistas – ou globalistas – apelam para uma reconfiguração da ordem social e política de forma que as diretrizes econômicas, de segurança, de saúde, de educação, de clima, etc., sejam tomadas por agências internacionais criadas exclusivamente àquela função, sob a promessa de que isso nos traria a paz e a prosperidade pelos séculos. ONU, Unesco, OMC, OMS, seriam prenúncios desse novo modelo.”

“Há nisto, de acordo com Filipe, uma tensão entre os valores tradicionais dos povos e interesses duvidosos de magnatas que o povão jamais viu as fuças. E seria este o pano de fundo que explica o Make America Great Again de Trump, e o nosso Brasil Acima de Tudo (de caráter nacionalista, soberanista, territorialista), Deus Acima de Todos (simbolizando a defesa dos valores antigos que, no Brasil, se assentam em torno da fé cristã).”

Isso é parcialmente verdade, mas não adianta contar verdades fragmentadas e descontextualizadas para criar uma grande mentira. Os valores tradicionais dos povos não são os valores de uma maioria religiosa que, verdade seja dita, está cada vez mais dinâmica. Em parte devido à migração, em parte devido à disseminação da informação, as crenças historicamente tradicionais se mesclam, seus significados são alterados e reinterpretados. Portanto, esses valores a que o Filipe se refere precisam ser explicitados e melhor, contabilizados em um estudo estatístico criterioso, coisa que a trupe olavista não tem por prática fazer.

Outro detalhe é que não há essa suposta harmonia total entre os funcionalistas como querem nos fazer crer, basta ver casos como a da Polônia, entusiasta da permanência na União Europeia, mas que não apoia a ingerência em sua politica doméstica. Outros países, na Europa Central seguem rumo parecido que, na pratica, é a velha ordem realista em que países e estados tentam impor suas agendas políticas aos demais, caso da Alemanha e da França, particularmente.

Em suma, o delírio desse assessor e seus acólitos de achar que existe um territorialismo-nacionalista contra um globalismo-funcionalista esquece o mais importante, a busca pela verdade que pode ser alcançada com uma perspectiva realista e nada mais.

Imagem: Por Kuebi = Armin Kübelbeck – Obra do próprio, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=61856977