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Anselmo Heidrich

Defendo uma sociedade livre baseada no governo limitado e estado mínimo.

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Globalismo

O Nosso Alvo

Quando digo que sou professor de geografia, muitos deduzem que eu pertença ou faça coro com determinada corrente política, notadamente marxista. Isso é um grande equívoco, assim como seria dizer que há uma “geografia liberal” por oposição. Não, em absoluto. Geografia é geografia, se me permitem a tautologia. Há um saber específico em coordenar os fenômenos que se inter-relacionam na superfície terrestre em uma síntese e a geografia é, simplesmente, isto. Não tem que se ter uma carteirinha de sindicato de esquerda ou milícia de direita para fazer geografia. Em primeiro lugar, a pesquisa, as hipóteses que resultarão em teorias e, a partir daí, só então, é que cada indivíduo, de posse de um conhecimento fundado na objetividade, vai utilizá-lo da forma como achar melhor adequando-o a sua visão de sociedade e projeto político. Essa separação entre “o que eu vejo a partir de um método de estudo” e “o que eu desejo a partir de premissas filosóficas por mim endossadas” é de suma importância.

A síntese que gosto de caracterizar como sendo típica da geografia é um complemento às diversas especialidades prévias, das quais depende esta tradição de conhecimento. Pré-requisitos, como a distribuição das formas de vida na superfície de acordo com o zoneamento climático, a biogeografia; a distribuição de províncias geológicas e as várias formas de relevo resultantes da interação entre fatores climáticos e a estrutura da crosta; as diversas bacias hidrográficas que conectam grandes áreas sendo afetadas pela expansão das manchas urbanas e suas regiões funcionais, com uma hierarquia de cidades operando como um sistema circulatório que, drena recursos em uma via e irriga capitais em outra.

Também é possível fragmentar o objeto de estudo e focalizar em setores, como o agrário, o industrial, o urbano etc., mas não se pode perder a perspectiva geral sob o risco de não entender causas de certos fenômenos. Até aí, nada de mais, pois se eu for me debruçar, p.ex., sobre certos efeitos climáticos em escala urbana vou ter que, necessariamente, entender o fenômeno das “ilhas de calor”. Ocorre que neste exato ponto da narrativa surge o discurso político-ideológico que tornou a geografia mais um campo de estudos totalmente poluído e sem objetividade científica. No exemplo que acabei de dar, a crítica sobre a atividade industrial adquire um tom moral, ao invés de técnico, enfatizando a indústria como exploradora e, essencialmente, predatória, sem propor avanços tecnológicos ou dar o devido destaque às melhorias com igual peso.

Uma dessas subáreas muito conhecida de nome, a geopolítica surge aqui e ali, na mídia, na internet, nos materiais didáticos, como uma descrição exaustiva do “conflito norte-sul”, entre países ricos e pobres (o que não passa de uma grotesca generalização), em oposição à outra bipolaridade, a leste-oeste, vigente durante a Guerra Fria, entre países capitalistas e comunistas de 1945 a 1990. Por ironia da história, hoje, com o surgimento de uma nova direita, o discurso aparentemente mudou, mas sua estrutura de raciocínio permanece exatamente a mesma: substituíram-se os velhos capitalistas-imperialistas, no linguajar leninista, pelo dito cujo “globalismo” que grassa nos discursos de ideólogos como Olavo de Carvalho e seu seguidor, o chanceler brasileiro, Ernesto Araújo. Na perspectiva de ambos, o globalismo é um sistema em expansão que trabalha em várias frentes para desintegrar a autonomia dos estados-nação do mundo.

Seja em uma perspectiva de esquerda, Capital vs. Trabalho, ou seja, em uma perspectiva de direita, Organismos Supranacionais vs. Estados-Nação, o método simplista de entender a realidade funciona como um resumo esquemático em detrimento dos interesses locais e regionais, suas particularidades históricas e culturais que têm muito mais peso para as sociedades que qualquer efeito de grupos de interesse internacional com seus poderes superestimados.

Pois então… Nessa nossa trajetória de todas as terças-feiras[*], as Terças Realmente Livres, em oposição ao produtor de Fake News chamado, inapropriadamente, de “Terça Livre”, iremos confrontar estas visões maniqueístas do mundo com exemplos concretos, fatos e dados. As teorias que funcionam como narrativas de uma falsa consciência e sedimentam ilusões ideológicas desses grupos que ora compactuam com governos populistas serão nosso principal alvo.

#TeoriaDaConspiração
#Globalismo
#Geopolítica

[*] Texto publicado, originalmente, na página “Biologia Política”, dia 19 de maio, uma terça-feira.

Imagem (fonte): https://pxhere.com/en/photo/740029

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Anselmo Heidrich

Fas est et ab hoste doceri
– Ovídio

O Brasil da Pós-Verdade #1

Anselmo Heidrich
10 dez. 19

Começou o jornal do Olavo, Brasil Sem Medo, e aqui temos uma matéria defendendo o Felipe G. Martins (https://pages.brasilsemmedo.com/o-chefe-do-odio/). Então vamos lá aos contrapontos…

Martins, apesar da pouca idade, se consagrou entre os anos de 2015 e 2018 fazendo as mais acertadas análises sobre as corridas eleitorais nos EUA e Brasil. Enquanto o mainstream das projeções de cenários, os institutos de pesquisa e a mídia inteira considerava Trump e Bolsonaro meros azarões – quando não nulidades inelegíveis – o jovem Filipe, partindo de outros pressupostos e olhando a realidade sem lupas ideológicas, cravava, com certeza vática, suas vitórias. Dito e feito.

Estas “análises acertadas” foram assim consideradas pelo próprio grupo de simpatizantes, o que fica fácil, para não previsível de se ter. Quanto à Trump ter vencido as eleições (2016) já era algo alardeado por toda mídia conservadora americana e simpatizantes continentais e mundiais, não há nada de novidade nisso. E o fenômeno no Brasil já era bastante previsível ao justificado e crescente sentimento anti-petista.

Note que no excerto acima, há um subtexto interessante: “enquanto o mainstream das projeções de cenários”, como se todos endinheirados e poderosos não quisessem Trump ou Bolsonaro no poder. Aqui no Brasil, o setor bancário foi o mais beneficiado nos anos Lula-Dilma, mas boa parte do empresariado amargou perdas chegando a ter uma fuga de capitais para outros países, dentre os quais, o Paraguai foi o mais beneficiado. Portanto, insinuar que houvesse uma divisão (até classista) entre quem pensa favoravelmente aos outsiders políticos de Trump e Bolsonaro como “ligado aos interesses do povo” e quem não, ao mainstream, é uma manipulação. Diferentemente, do que diz o jornal Brasil Sem Medo não descola a verdade da ideologia, muito pelo contrário, apenas de modo manipulador te induz a pensar que eles estão te esclarecendo. Não, não estão.

E essa capacidade de previdência chamou a atenção da família Bolsonaro. Hoje, corrido o primeiro ano de governo, Filipe, depois de rodar o mundo e travar negociações nas mesas mais importantes ao lado de Bolsonaro, parece bastante à vontade no cargo. Há até quem diga que ele é o mentor secreto por detrás do presidente, seu conselheiro-mor – especulação que, na entrevista, Filipe negou taxativamente.”

Em governos anteriores, intelectuais se tornaram presidentes (FHC), outros intelectuais ruins (Chauí) se integraram aos governos, mas o atual governo de Bolsonaro era carente desse tipo de quadro. De onde veio a suprir esse déficit? Como quem fala é chefe, se buscou alguém com muita influência na internet através de teóricos conspiracionistas e alarmistas, daí a eminência parda de Olavo de Carvalho. Mas como faltava alguém de carne e osso e como tal não se encontrava na academia, aliás, quase ninguém, se foi em busca de alunos do filósofo. Teóricos de conspirações e teses mal acabadas sobre uma arquitetura de dominação global ascenderam como porta-vozes desse movimento. Aí que entra o jovem, como se juventude fosse virtude para esse caso. Enquanto na verdade é nada, apenas algo indiferente, na retórica serve como uma espécie de deslumbre perante o novo e o revolucionário na forma de um espírito juvenil.

Até o momento, o artigo tem uma introdução que serve como cortina de fumaça para esconder o principal tema: o “gabinete do ódio”, que seria gerido por Filipe para atacar adversários políticos com recursos públicos, ou seja, o teu e o meu dinheiro.

Vejam que, em um primeiro momento, se desdenha o peso e relevância do tal ‘gabinete’:

“Gabinete. Por falar em gabinete, e esse foi um dos temas da conversa, Filipe é apontado pela velha e a nova esquerda, unidos em torno da malfadada CPMI das Fake News, como o chefe do Gabinete do Ódio, o seu real cargo, sendo aquele carimbado no Diário Oficial mera cortina de fumaça. Gabinete do Ódio.”

“Por falar em gabinete…” Eh eh, péssima estratégia para fazer pouco caso, sobretudo, para depois assumir que existem ‘intermediários’, ora intermediários entre quem e quem?

“Segundo Martins, esta designação é nada mais que uma pecha infamante cujo fim é calar os novos intermediários na opinião pública que ganharam relevância após as manifestações de junho de 2013.”

E continua a deturpação das narrativas. Segundo Filipe, 2013 serviu como ruptura a “esse estado de coisas”, mas esquece de dizer que a manifestação original era contra um aumento de passagem de ônibus, pautada pela própria esquerda. Mas, como toda manifestação que toma vulto, não há uma só voz, uma só direção, mas sim uma pluralidade de manifestações que se somam. Isso, por si só, já desconstrói a tônica do discurso de Filipe que vê um processo uniforme com início, meio e fim em torno da candidatura e vitória (apertada) de Jair Messias Bolsonaro, mesmo porque um dos principais protagonistas dos movimentos que se seguiram, o Movimento Brasil Livre (MBL) é, atualmente, um dos grandes desafetos do atual governo e, em particular, desde antes, do olavismo.

Veja aqui como deturpam o processo inteiro:

“Dessa maneira, conforme avalia o assessor – ou chefe do Gabinete do Ódio, vai ao gosto de quem lê – os eventos de 2013 serviram como uma ruptura a esse estado de coisas, e, desde lá, esse povo esnobado elegeu, sem o auxílio dos universitários, os seus novos interlocutores – concentrados nas redes sociais. A síntese desse processo foi a vitória de Bolsonaro.”

E claro que o problema não é, nem nunca foi “a torcida de cidadãos privados” por quem quer que seja, mas o modo como isso é feito, na base da difamação e calúnia, ou seja, o Brasil Sem Medo já inicia defendendo o método da mentira para vencer. Um mau agouro:

“Por isso, segundo entende Martins, todo esse esforço para condenar como discurso de ódio a defesa e a torcida de cidadãos privados ao presidente é nada mais que a velhíssima censura, agora empreendida pelo establishment derrotado. Só que é uma censura travestida de defesa da ordem democrática, do decoro nas discussões, da transparência, da ética, da paz, do amor – o oposto do ódio. Enfim, o diabo metido numa fardinha de escoteiro.”

Agora a principal mensagem do artigo para quem sabe ler nas entrelinhas, uma defesa de Filipe G. Martins e seus ilícitos, a coordenação de uma milícia virtual, cuja cobertura do bolo é a mesma cantilena teórica de sempre, a defesa de uma teoria do globalismo, puro conspiracionismo como se instituições supranacionais dirigissem países, mesmo que a realidade mostre o contrário, repetidamente:

“Esclarecida essa questão, e negando peremptoriamente que haja qualquer ação coordenada de servidores públicos para defender o governo nas redes sociais – o tal gabinete –, Filipe ainda teve tempo de dar uma aula sobre globalismo, fenômeno que Chacras, Pontuais, Leitões e Camarottis continuam a confundir, em pleno 2019, com a globalização.”

Vejamos como evoluiu o argumento:

“Martins explicou ao Emílio Surita e seus ouvintes, que há dois movimentos no cenário mais amplo das relações internacionais: os territorialistas, também chamados de nacionalistas ou soberanistas; e os funcionalistas.”

O primeiro grupo, ele explicou, é o de que fazem parte Trump, Bolsonaro, Boris Johnson, Matteo Salvini, entre outros, cujo o elo que os unem é a defesa de que as decisões políticas e a determinação dos rumos de seus povos, sejam feitas nos limites jurídicos do território tradicional, segundo as leis ali discutidas, segundo os costumes antigos por eles cultivados.”

Mais comentários agora: esta direita europeia tem sido acusada de receber apoio de Putin, o que faz todo o sentido, pois ela vai contra a União Europeia, o que é extremamente útil para a Rússia. Quem compra o principal produto de exportação russa – e que mantém sua economia em pé, inclusive em pé de guerra –, os hidrocarbonetos em bloco, através de diretivas da União Europeia tem força como comprador. Ao contrário, quanto mais fragmentados, divididos e competindo entre si estiverem os importadores europeus, mais fáceis serão como alvos da pressão russa. Aliás, não faz muito tempo em que a economia russa sofria sanções devido a invasão da Crimeia e a guerra do Donbass na Ucrânia, a partir de 2014. Não é a atoa que a Ucrânia tenha um forte movimento nacionalista, anti-russo que também é pró união europeia. Como isso se explica na teoria de Filipe? Não se explica porque o mesmo jovem parte de uma classificação rígida, Funcionalistas vs. Globalistas e, que não explica o mundo e não serve para nada além de iludir.

Vejamos mais:

“Por outro lado, os funcionalistas – ou globalistas – apelam para uma reconfiguração da ordem social e política de forma que as diretrizes econômicas, de segurança, de saúde, de educação, de clima, etc., sejam tomadas por agências internacionais criadas exclusivamente àquela função, sob a promessa de que isso nos traria a paz e a prosperidade pelos séculos. ONU, Unesco, OMC, OMS, seriam prenúncios desse novo modelo.”

“Há nisto, de acordo com Filipe, uma tensão entre os valores tradicionais dos povos e interesses duvidosos de magnatas que o povão jamais viu as fuças. E seria este o pano de fundo que explica o Make America Great Again de Trump, e o nosso Brasil Acima de Tudo (de caráter nacionalista, soberanista, territorialista), Deus Acima de Todos (simbolizando a defesa dos valores antigos que, no Brasil, se assentam em torno da fé cristã).”

Isso é parcialmente verdade, mas não adianta contar verdades fragmentadas e descontextualizadas para criar uma grande mentira. Os valores tradicionais dos povos não são os valores de uma maioria religiosa que, verdade seja dita, está cada vez mais dinâmica. Em parte devido à migração, em parte devido à disseminação da informação, as crenças historicamente tradicionais se mesclam, seus significados são alterados e reinterpretados. Portanto, esses valores a que o Filipe se refere precisam ser explicitados e melhor, contabilizados em um estudo estatístico criterioso, coisa que a trupe olavista não tem por prática fazer.

Outro detalhe é que não há essa suposta harmonia total entre os funcionalistas como querem nos fazer crer, basta ver casos como a da Polônia, entusiasta da permanência na União Europeia, mas que não apoia a ingerência em sua politica doméstica. Outros países, na Europa Central seguem rumo parecido que, na pratica, é a velha ordem realista em que países e estados tentam impor suas agendas políticas aos demais, caso da Alemanha e da França, particularmente.

Em suma, o delírio desse assessor e seus acólitos de achar que existe um territorialismo-nacionalista contra um globalismo-funcionalista esquece o mais importante, a busca pela verdade que pode ser alcançada com uma perspectiva realista e nada mais.

Imagem: Por Kuebi = Armin Kübelbeck – Obra do próprio, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=61856977

Porque Eu Sou Globalista

Imagem: Artem Bali (@belart84)

“O nacionalismo é o último refúgio dos canalhas.”

Samuel Johnson, século XVIII

“Os Estados Unidos sempre vão escolher a independência e a cooperação em vez de governos globais, controle e dominação”, afirmou, Trump na 73ª Assembleia Geral da ONU. Mas o nacionalismo é utilizado para controle e manipulação de massas sem dissensos.

Falar em “globalismo” pra lá e pra cá, além de caricatural não passa de slogan político quando destituído de propostas pragmáticas e exequíveis. Normalmente temos elites usando massas com símbolos patrióticos nesse contexto.

Embora os “anti-globalistas” por assim dizer, afirmem que é “o globalismo é diferente de globalização”, na prática, suas defesas são de uma economia nacional protegida na medida que se opõem às ditas “elites globais” que dirigem o comércio externo.

Já repararam que criticar o “globalismo” tem o mesmo valor estratégico que criticar a cultura? “Cultura” é um dos termos mais vagos nas línguas do mundo inteiro. Se formos reduzir uma sociedade com milhões a uma cultura, ela tem que ser minimalista…

Isto é, aspectos mínimos em comum para muitas pessoas com pensamentos e práticas diversos sobre vários temas e atividades. Falar em “cultura nacional” é, por outro lado, algo válido para apologistas de uma “ideologia nacional” que também é algo raro e pouco funcional.

Alguns termos pegam, simplesmente, por serem chiques ou “descolados” para uma época e dito por pessoas interessantes, celebridades, intelectuais que poucos leem passam a ser copiados. Exemplos? Por que citar “soft power” ao invés de diplomacia?

A face mais incômoda do anti-globalismo é a condenação à “diversidade” que, muitas vezes esconde seu caráter claramente racista quando não especificado que se trata de uma oposição à práticas culturais específicas.

Agora, não é verdade que os anti-globalistas sejam contrários à ascensão das mulheres no mercado de trabalho e na política, mas são sim contra a criação de expedientes legais que favoreçam as mulheres de modo artificial sem uma igualdade jurídica. Conheço esse pessoal da Nova Direita e eles têm em mente que a “igualdade forçada” via “políticas públicas de inclusão” favorece uma liderança internacional, mais conhecida como uma “governança transnacional”.

O reforço contra essas “elites globais” veio com a Crise de 2008, na qual a Esquerda não teve o monopólio da oposição… Esta Nova Direita, nacionalista em termos socioculturais também era protecionista em termos econômicos. Daí sua indignação contra o projeto de #Globalização.

Embora a #NovaDireitaBrasileira faça as vezes de querer diferenciar #Globalismo de #Globalização, a origem da oposição contra o primeiro foi contra o “projeto político” contido na segunda.

Seja nos discursos de #Trump na #ONU em 2018, seja nas declarações do chanceler brasileiro #ErnestoAraújo, o anti-globalismo permanece como um sentimento ao invés de uma teoria ou programa, já que basta “amar a pátria” e ser contra as influências e elites estrangeiras. Tudo parece ser uma estratégia eleitoreira ou política permanente para desviar a atenção do público.

Desde as manifestações de Seattle em 1999, quando a Esquerda Americana se notabilizou com o discurso anti-Globalização, a Nova Direita abraçou a tese conspiracionista. O fato de que organismos mundiais, como a OMC, lideres como Tony Blair, Bill Clinton ou países como a China adotarem políticas de livre-comércio não quer dizer que “conspiraram contra algo”, apenas que tiveram bom senso.

Também vejo essa oposição ao Globalismo de líderes como Trump como mero fingimento. Eles podem não ser cosmopolitas, como seus antecessores Democratas ou de países europeus, mas são tão ou mais elitistas, especialmente quando se sabe que querem manter privilégios através de estratégias do protecionismo econômico.

Na virada do século XIX para o século XX, o termo “Globalismo” substituiu “Cosmopolitismo”, o que se tornou forte após a II Guerra Mundial, quando a noção de que valores universais como os direitos humanos e a igualdade jurídica tinham que ser universalizados. Nos anos 60, com a onda de descolonizações, o termo “globalismo” foi ainda reforçado contra o nacionalismo que servia como base para superioridade entre os povos, assim como sustentação do fascismo, do nazismo e do comunismo totalitário que já era conhecido e desmascarado.

Leio que os ataques anti-semitas aumentaram na Alemanha. Respondi que se devia ao anti-globalismo, o que nossa Nova Direita irá discordar, mas o termo “globalismo” também é associado ao judeu, como foi no passado o “cosmopolitismo” para acusar a etnia de não ter “raízes germânicas”. Não é por acaso que o maior símbolo do “globalismo” viceje na figura de #GeorgeSoros, um investidor judeu húngaro-americano de 88 anos ligado à várias causas globais.

O Brasil também adotou e assumiu o rótulo de “globalista”. No início do Seculo XX, com Barão de Rio Branco, quando mudou o eixo da política externa brasileira da Europa para os EUA chamado na época de “americanismo pragmático”. Mais tarde, na Era Vargas, que se distanciou dessa ligação surgiu o “Equidistância Pragmática” procurando outras parcerias (com uma certa simpatia pelas nações do Eixo). E durante os anos 60 veio o “Globalismo”, que significava manter relações com várias nações, bem como ser atuante internacionalmente em vários fóruns e organizações. Jânio Quadros, Juscelino Kubitschek e, notadamente, Ernesto Geisel foram “globalistas” neste sentido. Este, um verdadeiro “ecumenista nas relações internacionais” procurando ampliar parcerias e diversificar seus ganhos. E é neste sentido particular que eu endosso plenamente o “globalismo”.

Anselmo Heidrich

18 fev. 19

#GlobalismoSIM

#Interceptor — http://inter-ceptor.blogspot.com/

¬Adaptado e contemporizado de…¬

BBC News Brasil — O que é ‘globalismo’, termo usado pelo novo chanceler brasileiro e por Trump? https://www.bbc.com/portuguese/internacional-46786314

E tem mais:

“O NACIONALISMO ECONÔMICO É ANTIAMERICANO.”

EXATO! Achei isso desde o início. A adulação baba-ovo de Trump (não que Hillary fosse melhor) como um “salvador da pátria” levou muitos na conversa. Gente como Constantino, Alexandre Borges (este com um artigo ridículo “todo mundo é laranja”) e até (PASMEM!) o Instituto Liberal saiu DEFENDENDO O PROTECIONISMO ECONÔMICO.

Ainda bem que há os liberais de verdade que não nos deixam esquecer como se construiu uma economia-guia para o mundo.

(Tem áudio incluído no link.)

Why Economic Nationalism Is Un‑American https://newideal.aynrand.org/why-economic-nationalism-is-un%e2%80%91american/

O Anátema do Globalismo – I

A figura mitológica de uma hidra com várias cabeças está no imaginário popular de um monstro que com vários tentáculos ou cabeças que fazem parte de um só organismo que, na sua forma atualizada chamam de “globalismo”.

E o tal do Globalismo, hein? Recentemente pesquei esta de um tuiteiro:

“Globalismo é a ideologia que preconiza a construção de um aparato burocrático — de alcance global, centralizador e pouco transparente — capaz de controlar, gerir e guiar os fluxos espontâneos da globalização de acordo com certos projetos de poder. Não confunda uma coisa com outra.”

“Aparato burocrático” que gere “fluxos espontâneos” e dá-lhe acrobacia retórica!

E do guru dos novos cruzados tupiniquins… Conhecem também?

“Nada é mais ingênuo (ou talvez mais esperto) do que apresentar o quadro atual do mundo como se fosse o de um combate entre as grandes empresas e o Estado, ou, o que dá na mesma, como se não fosse senão uma reedição ampliada do velho conflito do princípio capitalista com o princípio socialista. Esse giro sutil que o enfoque esquerdista impõe à visão da realidade mundial reflete uma intenção de usar a salvação das nações como pretexto para salvar, isto sim, o que ainda possa restar da estratégia comunista mundial.

“É falso dizer que o neoliberalismo favorece as empresas em detrimento dos Estados; ele favorece abertamente certos Estados contra outros Estados, e favorece sobretudo a ascensão da burocracia mundial, a qual não é nem empresa privada nem Estado-nação, mas uma terceira coisa especificamente diferente dessas duas. Esta coisa, seja lá o que for, é o verdadeiro inimigo dos Estados nacionais — sobretudo dos pequenos e fracos — e, ao mesmo tempo, o verdadeiro inimigo das empresas privadas, ao menos daquelas que ainda confiam no princípio liberal e não sonham com um monopolismo à sombra da proteção do Estado global.

“É preciso, absolutamente, distinguir (…) o Estado enquanto princípio abstrato e os Estados enquanto realidades históricas concretas. O globalismo neoliberal se volta contra estes últimos, ao mesmo tempo que favorece o primeiro — sobretudo quando este se apresenta sob a forma monstruosamente inflada de Estado mundial –, mostrando, com isto, que de liberal só tem o nome. A prova é que, na mesma medida em que os neoliberais condenam as legislações nacionais de controle da economia, eles louvam a adoção de idênticos controles quando ampliados à escala mundial. Isto não é combater ‘o’ Estado: é combater ‘alguns’ Estados, sobretudo os pequenos, e favorecer outros Estados, sobretudo os maiores, sobretudo o maior de todos” [Estados e Estados, http://www.olavodecarvalho.org/estados-e-estados/]

Nesta longa nota, necessária, pois rica em contradições é que vemos quão insustentável é este esboço de teoria sobre o “globalismo”.

No primeiro parágrafo, Olavo de Carvalho (OdeC) diz que o argumento da Esquerda de opor a empresa ao estado é uma estratégia, última (até esta data) comunista para criar uma falsa oposição de liberais defensores da livre-empresa contra o princípio de existência do estado. Neste ponto, se vê uma divergência filosófica de OdeC com o libertarianismo e ele não está errado, pois o livre-comércio não prescindiu historicamente de acordos entre estados, mas continuemos…

No segundo parágrafo é que começam as incongruências. Primeiro porque não há consenso sobre o que venha a ser neoliberalismo, para liberais mesmo (ou libertários como se chamam nos EUA), não existe isso. O que existe seria um grau menor ou maior de intervenção estatal e o neoliberalismo seria um liberalismo aviltado pelo estado. Eu, particularmente, não vejo assim… Isto é tema para outro artigo, mas vejo uma diferença de conteúdo entre liberais e neoliberais, particularmente após a Grande Depressão quando estes passaram a admitir a atuação estatal para conter este tipo de crise, mas voltemos ao raciocínio de OdeC… Ele sustenta então que o que se forma através da arquitetura global proposta pela cúpula neoliberal (embora ele não tenha utilizado esta expressão, não é contraditória ao seu pensamento), uma ordem econômica se forma para benefício de grandes países — potências, dir-se-ia — em detrimento de “pequenos países”. Bem, aqui começam os problemas, o que OdeC quis, exatamente, chamar de “pequenos países” não é claro. Pelo contexto do artigo presume-se que sejam países economicamente mais fracos, mas isso é relativo, pois, na verdade, a maior parte desses países economicamente atrasados são, justamente, aqueles que não adotam princípios da economia de livre-mercado. Basta acompanhar o desempenho de países mais pobres no Índice de Liberdade Econômica (ILE) para saber do que estou falando. Inclusive, países com pequenas populações, parcos recursos naturais, não raro apresentam elevado desempenho econômico, como é o caso de Dinamarca ou Nova Zelândia por adotarem princípios liberais na economia. Portanto, esta suposição de que economias mais fracas são fracas porque são alijadas de uma “ordem econômica neoliberal” não faz o menor sentido.

Bem, o terceiro parágrafo é a conclusão de OdeC, a cereja do bolo em cima desse glacê pantanoso a guisa de teoria, o de que o neoliberalismo — segundo ele, essa série de acordos entre “grandes estados” — ajudaria a sedimentar o poder de um grande estado, o “maior de todos” e que seria um “Estado mundial” (mais tarde, a ONU virará o alvo do ataque de OdeC em outros artigos, assim como de seus seguidores olavettes). Isto, simplesmente, não tem a menor evidência empírica, mas como OdeC constrói sua justificativa? Em uma frágil argumentação de que existe uma distinção entre estados, como “realidades históricas concretas” e o estado como “princípio abstrato”, como se este ente abstrato se sobrepusesse àqueles. Este é um erro fácil de detectar com o menor esforço de pesquisa histórica… Existem diferentes estados, com diferentes origens e que por isso suas realidades não servem para explicar um ao outro. Diversas circunstâncias históricas favoreceram alguns, até mesmo situações geográficas particulares, enquanto que outros foram mais acometidos por ataques, invasões e entraram em guerras que retardaram ou dificultaram seu desenvolvimento econômico. Neste mundo competitivo internacional de realidade hobbesiana ampliada à escala global, alguns estados impõem sua força aos demais e, quando estabilizada, predominam hegemonicamente através de estratégias do Soft Power, interrompidas episodicamente por doses de força militar aplicadas “homeopaticamente”. Não há, portanto, uma articulação global, mas articulações que se impõem sobre o globo e competem entre si formando várias polaridades. Estes centros de força, não raro se engalfinham em suas “guerras por procuração” que se tornaram, particularmente frequentes da Guerra Fria até os dias de hoje.

Embora não citada neste artigo em particular, a ONU é frequentemente tratada como uma espécie de hidra mundial dominando ou exercendo influência determinante sobre os países. Para quem conhece minimamente o que a ONU através de suas agências tem sugerido aos países pode perceber que dista quase que completamente de qualquer “agenda neoliberal”, tendo esta minimamente algum compromisso com o liberalismo. Não faz o menor sentido, além de que a ONU tem como principal centro decisório, o Conselho de Segurança, constituído por um grupo seleto de países mais poderosos, como membros permanentes, EUA, Rússia, França, Reino Unido e China. E também, para quem acompanha minimamente a política internacional sabe que há mais divergências nas questões geopolíticas do que sincronia entre eles.

Acho que não preciso insistir na explicação de que o “Estado mundial” olaviano não passa de uma falácia.

(Continua…)

Anselmo Heidrich

18 nov. 18

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