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Anselmo Heidrich

Defendo uma sociedade livre baseada no governo limitado e estado mínimo.

Autor

Anselmo Heidrich

Mestre em Geografia Humana pela USP. Professor de Geografia há mais de 25 anos, pesquisador em geografia e geopolítica. Ex-Membro do Movimento Brasil Livre em Santa Catarina e do Movimento Resistência Liberal Brasil. Co-autor do livro Não Culpe o Capitalismo.

Lições de Charlottesville: quando a ideologia vira fake news

Não é desistindo de sua vontade de ação e colocando suas avaliações em suspenso, mas no confronto e no exame de si mesmo, que o homem consegue objetividade e conquista um self com referência a sua concepção de seu mundo. O critério para este auto-esclarecimento é o de que não só o objeto, mas nós mesmos entramos totalmente em nosso campo de visão.

Karl Meinheim, Ideologia e Utopia

 

Não dá para fugir desse assunto. No vídeo a seguir, vemos um livro interessante que trata da atual polarização que marca os EUA (e o mundo) entre ‘direita’ e ‘esquerda’ e a imputação de todo o mau, bad guys ao que eles chamam de right wing. Fatos, sim FATOS, como a Ku Klux Klan ter nascido no sul dos EUA, região de maior força política do Partido Democrata leva o autor, Dinesh D’Souza a trata-la como criação deste. É ler para conferir sua fundamentação, mas até aí cuidado com a disseminação desta argumentação como sendo fato consumado. “Na dúvida, não ultrapasse,” é o que se dizia, certo? Pois bem, o mesmo vale para um debate que tem como fim precípuo (ou deveria ter), a busca pela verdade. Confiram aqui:

Algumas considerações, como Mussolini ser marxista foram novidade para mim. Outra coisa para conferir. É possível, no entanto, devido à ideologia que grassa em determinada época e lugar se fazer afirmações ou manter crenças que podem ser classificadas de um determinado modo sem que o seu apologista ou crente se identifique com o conjunto da obra que é raiz daquele pensamento. Vejo isto a toda hora, gente que afirma que a desigualdade é a pior chaga social, que a violência decorre dela e que há exploração entre classes sociais, mas que nega veementemente uma utopia comunista sem que percebam que suas crenças mais recônditas surgiram atreladas àquilo que é objeto de rejeição. Enfim, mesmo que seja possível dissecar os objetos de crença fazendo recortes analíticos e distinguindo valores a cada seção desta ideologia é bom verificar sempre como aquilo que se acredita pode ser sustentado. É possível, por isso mesmo que Mussolini tenha acreditado ou proferido algo que endossasse Karl Marx sem, contudo, apostar no fim do estado como condição para criação de uma sociedade igualitária e justa. Analogamente, é possível como, aliás, foi de fato o que ocorreu, que adeptos da filosofia marxista, mas ligados à política, a sua práxis abandonassem, estrategicamente, os sonhos de uma utopia sem estado, sem nenhum tipo de ordem política hierarquicamente imposta para se dedicar ao controle do capital pelo (próprio) estado e a repressão de grupos de oposição identificados como da (ex-)classe dominante.

A percepção dos fenômenos políticos, como ele é absorvido, sobretudo pelas pessoas comuns e não necessariamente intelectuais organizados é que faz algo ser mais ou menos impactante na sociedade. Quando consideramos o longo prazo é que vemos ideias plantadas na cabeça de nossos alunos por décadas germinarem agora numa sucessão de explosões de fanatismo ideológico. Acontece que com as redes sociais, especialmente aquelas que permitem se comunicar de modo enxuto, nos trouxeram a hecatombe do raciocínio para vitória do discurso seco e raso. Como o Twitter tem mais apelo que os discursos e debates, o ritmo exponencial em que acusações crescem de ambos os lados – hoje todo mundo virou fake news – é fácil perceber que a premissa para um debate que busca objetivar resultados de que “eu também posso estar errado”, simplesmente inexiste. Por isso mesmo estudar esta percepção é fundamental. Vejamos agora um antigo militante da KKK agradecendo o incentivo de Donald J. Trump ao resgate de seu país. Obviamente que o que ele entende por ‘resgate’ não é necessariamente o que entendeu o presidente. Este não seria louco de pensar o mesmo, pois se pensou, é um louco mesmo. Vejamos aqui:

A causa próxima seria a remoção de uma estátua do general confederado, símbolo dos tradicionalistas suíços, Robert E. Lee. Claro que não seria só isso, a antinomia dos grupos é crescente e não vem de hoje, mas vamos a esta estátua da discórdia. Em que pese o fato do general confederado ter sido um militar e até após sua derrota ter sido convocado por Lincoln para liderar as forças armadas é irrelevante. Porque a questão não é a pessoa do general, mas sua figura pública que nunca se encerra em sua personalidade, histórico ou psicologia. Se ele lutou por estados, cujas elites dependiam e defendiam a escravidão basta para tirar uma estátua que é a antítese do que se discursa nos EUA, ao menos pelo discurso dominante na sociedade e em ambos os principais partidos. Se ele incentivou a união após ter sido derrotado, então, ao menos, sua estátua deveria especificar este ato, com uma placa na base. É simples de entender: mesmo que tenha havido um bom soldado alemão na II Guerra Mundial cabe manter uma estátua de um nazista em Berlim, muito embora o homenageado não tenha matado nenhum judeu? Claro que não! E qual é o problema de se retirar uma estátua? Se isto tem que ser decidido legalmente, que se faça, pois a mesma não seria retirada na marra. Agora sim é que a questão será atropelada graças à cizânia instaurada. Aliás, as estatuas de Lenin, Saddam et caterva também não foram retiradas na marra? Algum leitor aqui gostaria de rever esta atitude? E até mesmo províncias argentinas consideram retirar estátuas de Che Guevara. Como Trump disse ao defender a permanência do símbolo no campus, “não se muda a história”. Correto, mas se muda nossa reverência e leitura em relação a ela. E de mais a mais, se esta oposição entre esquerda e direita nos EUA se tornar insustentável, que se faça como querem aqui nos tribunais brasileiros: se retirem todos os símbolos que não sejam isentos ideológica e religiosamente. Sei que rumamos para um mundo mais regrado, mas ou é isto ou se discute mais de forma civilizada. O que vai ser? O que cansa o fígado é ver gente acusando a esquerda de mimimi (óbvio que ela aproveitou o episódio) porque uma direita autoritária formada por nazistas, alt-right e Ku Klux Klan querem manter uma estátua como pretexto de união das direitas. Ambos os extremistas irão aproveitar qualquer fato que sirva de discórdia para o embate, mas o poder público não pode ficar acuado simplesmente pela possibilidade e medo deste embate. Tem que se por as cartas na mesa e dizer quem é que manda no espaço público.

Acho que como post está suficiente. O assunto irá render mais, mas por ora encerro com a excelente declaração do governador da Virgínia que resumiu bem o que penso. Ah, sim! Dirão que por ser democrata, o governador esconde o passado racista de seu partido. Digamos assim, caro idiota… O sujeito não esconde nada, está tudo aí para quem quiser ver. O fato é que opiniões mudam, percepções mudam, principalmente quando estas se constroem ao longo da história, da longa história, o que torna possível, hoje termos gente que luta contra o racismo no sul dos EUA, lócus das leis racistas que chegaram a inspirar o III Reich na Alemanha. Agora, o discurso do governador:

 

Aproveitem o dia de sol que este fim de semana será de chuva.

Anselmo Heidrich

2017-08-17

 

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Por que dizer que o nazismo é de esquerda é anacrônico?

Após meu último texto li por aí que o nazismo não pode ser de direita porque é coletivista, autoritário, intervencionista, anticonservador (revolucionário no sentido da mudança de ordem vigente para outra pior, no caso) etc. Tudo isto é verdade, exceto por não poder ser de direita. Direita e Esquerda são termos relativos, assim como os polos geográficos, um inexiste sem o outro. O erro que vemos por aí, seja em textos, áudios, vídeos etc. é considerar uma direita especifica, a liberal na economia e conservadora nos costumes como a verdadeira direita. Isto é uma bobagem, pois este conceito específico se limita a uma dada conjuntura e realidade especifica. Transportar algo de determinado contexto para outro é o que chamamos em ciência social de anacronismo e é exatamente isto que grupos que levantam a bandeira da direita, assim como os postulantes da verdadeira esquerda fazem contra seus pares moderados. Lembremos que durante muito tempo, a chamada socialdemocracia era demonizada pelos radicais comunistas, ao passo que hoje ela é vista como a esquerda, manipuladora e que está por trás de todos os movimentos mundiais de “esquerdização” da política. Como as coisas mudam, não? Assim, quando se procura encaixar uma ideologia como o nazismo dentro de posições políticas na sociedade, como direita e esquerda, se corre o risco, não observadas as particularidades de cada época em deturpar o que era o objeto central – no caso, o nazismo – para que assim caiba dentro de uma visão dicotômica e simplista do mundo. Análoga e simetricamente, se o nazismo supera a simples posição de ‘esquerda’, também não se adéqua ao que hoje entendemos como ‘direita’. O impressionante, no entanto, é ver a empolgação daqueles que preferem discutir este par abstrato Direita VS Esquerda deixando de enfocar o próprio Nazismo, o que ajuda na ignorância da perenidade deste fenômeno sociopata até hoje, até mesmo em um país como o Brasil.

Segue aqui um excelente texto que versa sobre o assunto.

Boa leitura,

Anselmo Heidrich

 

Essas confusões sobre esquerda e direita se devem a vários fatores.

Movimentos políticos sustentam em seu momento histórico conjuntos de ideias que não guardam necessariamente muita relação entre si, e até mesmo podem parecer contraditórios mais tarde. Por exemplo, a independência americana foi um movimento de esquerda em sua época, porque pregava o fim da nobreza, defendendo a supremacia de “Nós, o povo”. Mas a maioria preferiu manter a escravidão, excluindo os negros do conceito de povo, e só os grandes fazendeiros tinham direito a voto.

A Revolução Francesa, por seu lado, pouco fez para conquistar a igualdade feminina, que em muitos casos até regrediu. O grande objetivo oculto dessas grandes e importantes revoluções foi transferir o poder das mãos da aristocracia e do clero parasitários para a nascente burguesia agrícola e mercantil.

O resultado foi uma grande democratização e o início da sociedade moderna, mas não tão completa então como a maioria imagina.

Se direita implica principalmente em ser conservador, mantendo o status quo social, e esquerda em nivelamento das classes sociais, como geralmente é entendido, é preciso não esquecer que em cada momento histórico esses eixos agregam em torno de si ideias e valores marcantes, mas não conceitualmente essenciais. Um exemplo é a diferença ente fascismo e nazismo com relação aos judeus, fundamental aos primeiros, mas não aos fascistas a que tomaram como exemplo em seu início. Ambos eram totalitários, ambos hegemônicos em seus delírios de grandeza, mas o antissemitismo só foi introduzido na Itália por pressão alemã.

Além do reconhecimento de que cada ideologia em marcha é formada por vários vetores nem sempre afins, há ainda a deriva histórica dos movimentos, em função dos acidentes que lhes atravessam no caminho e alteram seu próprio eixo.

Há um bom exemplo aqui no Brasil. Se compararem a política social e econômica dos militares de 64, verão que era muito mais afim com os trabalhistas, seus inimigos de morte de então, que com os liberais de mercado da época, como Lacerda, e muito mais com a direita liberal de hoje. Eram nacionalistas, acreditavam na ação positiva do governo na economia, e na implantação de leis e programas de proteção social.

Como, então, decidir se este ou aquele movimento foi de esquerda ou direita? Eram de esquerda os militares de 64?

Uma boa pista para sair do imbróglio é observar qual o foco daqueles movimentos em sua ação política, no tempo em que atuaram.

O movimento de 64 se colocou como barreira ante o crescimento da ação da esquerda, que vinha assustando as classes médias brasileiras. Igualmente, o fascismo e nazismo se alimentaram em seus países do temor de que a hegemonia das esquerdas fosse implantada, tanto pela via democrática, aonde vinham conquistando benefícios, como férias remuneradas, semanas de 44 horas de trabalho, quanto pela via revolucionária, que alguns partidos pregavam.

Mas nazismo e fascismo, como notam alguns direitistas, estabeleceram algumas medidas de proteção aos trabalhadores, a “Carta del Lavoro” de Mussolini é um bom exemplo e modelo de nossa CLT. A razão é simples, não se pode simplesmente estancar benefícios para 90% da população e sair incólume, o que era preciso no momento era que alguém controlasse o processo, que então parecia caótico aos olhos de muitos, e se fixasse como mediador, definindo o que poderia e o que não poderia ser concedido.

O resultado é que se deram algumas garantias aos trabalhadores italianos que, unidos a forte repressão, fragilizaram o movimento de esquerda naquele país.

Não há dúvida de que aqueles movimentos foram a arma da direita para enfrentar as forças de esquerda.

Olhar os programas que defendiam sob a ótica de hoje leva a grandes equívocos.

Até por que os esquerdistas e direitistas de hoje têm grandes diferenças com os daqueles movimentos do passado.

Um exemplo curioso é a integração das esquerdas latino-americanas com a cúpula da Igreja e muitos países, contra a antiga tradição anticlerical.

E se você se diz de direita, porque defende o estado mínimo, e também a igualdade de gênero e das mulheres, não se meta numa viagem do tempo para a Itália dos anos 30, pois os fascistas iriam prender você e fazê-lo beber muito óleo de rícino, como perigoso esquerdista.

É a deriva política, meus caros.

Por fim cabe mais uma observação importante: cada homem de ideias, em cada momento acredita que conseguiu atingir o “Fim da História”, ou seja, a visão universal e permanente do Direito Natural. Assim acreditam os bem intencionados de hoje, de todos os matizes… Inutilmente.

 

Carlos Bertomeu

2017-08-16

CHRIS ROCK, a ESQUERDA e a DIREITA

Nenhuma pessoal normal e decente é só uma coisa. Ok?! Em um monte de bosta, eu sou um conservador e em um outro monte de bosta, eu sou um liberal. No crime, eu sou conservador. Na prostituição, eu sou um liberal. 

Chris Rock

 

Quatro dias atrás, uma manifestação racista acabou em violência no estado da Virgínia, EUA. Ativistas da Supremacia Branca, Alt-Right (Alternative Right) e a renascida Ku Klux Klan marcharam até o campus local onde havia uma estátua do General Lee, um dos líderes confederados que defendia a escravidão na Guerra de Secessão (1861-1865) e que ameaça ser retirada, pois é vista como um “símbolo racista”. Claro que o evento serviu a outros propósitos que não a mera preservação de uma ingrata memória: a “união das direitas”, como asseverou um de seus membros era a real motivação da marcha de celerados. Aí, por causa disto, os antiesquerdistas brasileiros surtaram.

Por quê? “Porque nos igualaram a nazistas,” alguém diria. Vem cá, há uma essência inabalável no conceito da palavra Direita? Se há, me provem. Da mesma forma, há uma essência inabalável no conceito da palavra Esquerda? Eu digo que não. Esse é um dos temas que mais me apaixona e não é a discussão de filosofia política ou mais simplesmente, ideologia, mas sim, em como as pessoas percebem as mesmas ideologias e seu papel nelas. Ou seja, como as pessoas se imaginam vinculadas a certos conjuntos de ideias.[1]

A birra toda veio porque a esquerda tupiniquim guiada pelos anti-Trumpistas que quiseram associar a presença dos manifestantes racistas que também apoiaram Donald J. Trump à presidência, como uma inabalável prova de sua má influência, o que teria encorajado tais movimentos. Cá entre nós, Trump pode ser um tanto desastrado em suas declarações (embora muito menos do que o nosso Bolsonaro), mas ele não é burro. Aliás, seu governo está se saindo muito bem, mas este é assunto para outro artigo… A questão é que em uma era midiática, que se expressa opiniões em apenas 140 caracteres no Twitter, vocês querem o quê? Altos debates com fundamentação filosófica e teórica? Não dá. Assim como em toda a guerra, a primeira vítima é a verdade, o que mais se viu de ambos os lados foram falsas acusações. E isto não seria diferente aqui no Brasil.

Agora, que nossa esquerda brasileira faça pouco caso das ameaças de um louco na Coreia do Norte que ameaça não só os EUA, mas também ilhas no Pacífico, sua vizinha, a Coreia do Sul e o Japão ou o assassinato de mais de 120 jovens que protestaram contra o fim da democracia na Venezuela na semana passada ou contra a pior corrupção do planeta capitaneada pelo PT aqui no Brasil, eu não me admiro. Obviamente que ela tentará encobrir estes e outros fatos, FATOS com a morte de uma militante antirracista por um canalha assassino que furou sua marcha batendo em um carro que colidiu com seu corpo. Uma morte sim, mas uma morte estúpida feita por um fanático que trouxe a ira de americanos contra seu protesto a favor da preservação da estátua de um militar a serviço dos escravocratas. Claro que Trump poderia ter sido rápido no gatilho ao condenar o protesto e o timing dele, por vezes tão ágil no Twitter falhou. Acabou se manifestando, só que depois de vários congressistas de seu próprio partido se anteciparem. Dentre todos que li, a melhor foi do senador veterano pelo estado de Utah:

“Meu irmão não deu a vida lutando contra Hitler por suas ideias nazistas para que elas fossem aceitas aqui em casa.”

Por que um cara desses não é escalado para ser um POTUS (President Of The United States) com uma firmeza moral destas é um mistério para mim. Enfim, Trump condenou a marcha sim, mas considerou que retirar a estátua do General Lee seria o mesmo que então tirar as de George Washington ou Thomas Jefferson, alguns dos Pais Fundadores da nação por que estes também tiveram escravos. Erro, presidente, o senhor está errado. Ou sofismou ou caiu vítima do próprio equívoco em misturar épocas. Fazendo uma analogia: John Locke foi um dos maiores pensadores do liberalismo econômico que se conheceu na história. Só que na sua época, século XVII, a escravidão era vista como algo totalmente lícito, no que lhe permitia ser acionista de uma empresa que traficava escravos. Absurdo, não? Sim, plenamente, mas não para os padrões da época. Assim como não para os próprios padrões de africanos antes de meados do século XX, quando ter escravos era tão comum e normal que os próprios conterrâneos caçavam e vendiam seus ‘irmãos’ aos europeus em troca de mercadorias; assim como não para os povos da Mauritânia, país africano acusado pela ONU de ainda manter nos dias de hoje, a prática da escravidão entre os seus. Leiam com atenção, a escravidão não tem desculpas, não se justifica, mas se compreende e compreender NÃO é aceitar. O caso é que se aproveitamos John Locke ou Thomas Jefferson em alguma coisa, não foi por sua relação com a escravidão, mas sim pela defesa da liberdade que, inclusive serviu para acabar com a escravidão. Entendam que as ideias superam, vão além desses mortais que, por acaso, as enunciaram. Agora, me digam aqui, quais ideias eu posso aproveitar de um General Lee? Alguma tática militar talvez, mas é por isto que tem uma estátua dele no campus? Acho que não.

Donald J. Trump erra e erra feio porque depois da derrota do sul escravagista, manter símbolos desse período e de quem lutou para manter o status quo não é só preservar um símbolo de independência, mas de dependência de um ser humano visto e condenado ao status de ser “uma coisa de alguém,” este sim livre. Em minha opinião, a estátua do General Lee deveria ser posta abaixo e construída uma do presidente Lincoln, o abolicionista em seu lugar. Sei, sei que a guerra não teve seus propósitos limitados a isto, que houve motivações, predominantes dir-se-ia, estritamente econômicas, como a manutenção de um mercado (sulista) protegido para os manufaturados do norte yankee. No entanto, isto não demove um milímetro, o fato de que a guerra acabou com a escravidão, malgrado o racismo não termine com guerras, mas sim com miscigenação. E a miscigenação nos EUA, comparativamente a países como o Brasil é muito tímida, embora tenha mudado de alguns anos para cá, lentamente. E é isto que apavora a KKK, os supremacistas e toda esta escória. Se não podemos saber o que pensariam George Washington e Thomas Jefferson de tudo isso, não quer dizer que não sabíamos o que pensava o General Lee. Sabemos sim e manter a bosta da estátua que serve para acumular merda de pombo no campus é uma provocação.

Bem, o que fez nossa direita? Indignou-se por chamarem os racistas de ‘direita’ e se empenhou em produzir textos e textos, vídeos e vídeos chamando nazistas de esquerdistas pela palavra Nazismo ser um acrônimo de “Nacional-Socialismo” do Partido Nacional-Socialista Alemão. A dedução lógica é se o nazismo se originou na esquerda, então “o racismo é socialista”. Reparem, a defesa dos direitistas foi do mesmo quilate da acusação dos esquerdistas “vocês liberais são direita e a direita nos EUA é racista, logo…” Algum comentário ou análise sobre o caso em si? Isto foi de passagem, mas se concentraram em “limpar a barra da direita”, como se eles fossem responsabilizados pelo que ocorreu em Charlottesville, VA. Pessoal, vocês da Direita, sinto lhes dizer, mas vocês morderam a isca! A questão de se os nazistas eram direitistas na Alemanha, caso alguém se interesse em saber minha opinião, não se responde pela filosofia política (ideologia) e sim pela história: havia algum grupo “mais a direita”? Os liberais econômicos? Estes eram expressivos na composição política alemã do pré-II Guerra? Se não, então os nazistas entram como direita e não importa que sejam estatistas, pois o socialismo como organização econômica não vincula seus membros e apologistas, necessariamente, com o racismo. Até os anos 70, na América Latina, quando o comunismo era visto como alternativa viável pelos seus intelectuais, o keynesianismo, hoje chamado de ‘esquerda’ por liberais(-econômicos) era encarado como de direita porque, ao final das contas servia como um conjunto de políticas destinadas a salvar o capitalismo e não permitir que suas crises levassem a sua ‘superação’. Entendam de uma vez por todas que os diabos dos termos Esquerda e Direita são RELATIVOS! Não confundamos divergência econômica com cizânia racial ou social. São coisas distintas. É possível termos liberais em termos econômicos que não apreciem negros ou negros liberais que não gostem de hispânicos e por aí vai. POR ISTO, tanto faz se o nazismo é de direita ou de esquerda, DEPENDE do que estejamos considerando. Pense, o mundo não precisa ser manipulado por inteligentes e sábias cúpulas dirigentes, basta que seja normalmente estúpido, como de fato o é. E é aí que está a matéria-prima de quem apoia a estupidez, nos estúpidos que vão apoiar comunistas, que vão apoiar nazistas, independente de que numa dada conjuntura, eles estejam mais a direita ou mais a esquerda. Isto é irrelevante. Nunca subestime a ignorância, o racismo é uma constante mundial mitigada em sociedades, locais, cosmopolitas e em raros casos de países onde as tribos se miscigenam tendo casamentos interétnicos como padrão. Afinal, filhos amam seus pais, independente se são judeus ou palestinos. Daí se forem os dois, se importarão menos com os deuses de cada um e sim com quem lhes afaga e beija antes de dormir.

Minha posição política? Depende. Neste caso, ninguém melhor do que Chris Rock, ator e comediante americano para responder por mim:

“The whole country’s got a fucked up mentality. We all got a gang mentality. Republicans are fucking idiots. Democrats are fucking idiots. Conservatives are idiots and liberals are idiots.

Anyone who makes up their mind before they hear the issue is a fucking fool. Everybody, nah, nah, nah, everybody is so busy wanting to be down with a gang! I’m a conservative! I’m a liberal! I’m a conservative! It’s bullshit!

Be a fucking person. Listen. Let it swirl around your head. Then form your opinion.

No normal decent person is one thing. OK!?! I got some shit I’m conservative about, I got some shit I’m liberal about. Crime – I’m conservative. Prostitution – I’m liberal.

Chris Rock on Liberals And Conservatives”

 

Perspicaz, o rapaz. Um excelente dia a todos.

 

Anselmo Heidrich

2017-08-16

 

[1] Aqui, alguns de meus textos sobre a divergência e definição de Direita e Esquerda:

Interceptor: Kamaradas! http://inter-ceptor.blogspot.com/2017/02/kamaradas.html?spref=tw.

Interceptor: Enquadrando George Orwell http://inter-ceptor.blogspot.com/2016/09/enquadrando-george-orwell.html?spref=tw.

Interceptor: Direita, esquerda, esquerda, direita? O quê? http://inter-ceptor.blogspot.com/2015/06/direita-esquerda-esquerda-direita-o-que.html?spref=tw.

Interceptor: Classificação política e falta de objetividade http://inter-ceptor.blogspot.com/2014/11/classificacao-politica-e-falta-de.html?spref=tw.

Interceptor: Detalhes sobre a crítica ao fanatismo de direita -… http://inter-ceptor.blogspot.com/2013/08/detalhes-que-superam-critica-principal.html?spref=tw.

Interceptor: E o marco ideológico não entende a política no mun… http://inter-ceptor.blogspot.com/2013/07/e-o-marco-ideologico-nao-entende.html?spref=tw.

A noite escura da amoralidade

Anselmo Heidrich

 

A criminologia se apoia em varias ciências para descobrir seu objeto de estudo, o crime. Entre elas está a biologia e a sociologia, das quais derivam diferentes correntes de pensamento. Em sua meta de compreender as causas do crime, a criminologia se distingue do direito penal que, por sua vez, é normativo. Mas, divergências a parte, me parece faltar um pedaço da pizza nesta historia toda… Se a criminologia pressupõe o estudo da sociedade para compreender o comportamento delituoso, temos que admitir a moral ou comportamentos orientados por padrões morais como constitutivos das sociedades. E a moral é claramente normativa, sendo uma base da justiça e, por extensão, do direito. Não levá-la em conta tem como produto (direto) o crime, que começa na imoralidade. Por essa razão temos a sensação que comunidades menores, em priscas eras, havia uma maior estabilidade e repressão espontânea, realmente social e não só estatal ao crime. Portanto, dizer que “tudo é relativo” leva ao universo sem referências onde o próprio estudo das leis perde todo seu sentido. Vejamos esta bizarrice aqui:

Os grupos conservadores, liberais (no sentido brasileiro), cristãos, judeus sionistas etc. têm-se limitado a opor à hegemonia revolucionária nas universidades o combate intelectual, a “guerra cultural” ou “luta de idéias”. Apostam nisso o melhor das suas forças. Mas é estratégia absolutamente impotente, pois o que está em jogo não é realmente nenhuma “luta de idéias” e sim uma luta pela conquista dos meios materiais e sociais de difundir idéias – coisa totalmente diversa. Você pode provar mil vezes que tem a idéia certa, mas, se o sujeito que tem a idéia errada é o dono das universidades, da mídia e do movimento editorial, o que vai continuar prevalecendo é a idéia errada. (…)

A luta pela ocupação de espaços pode comportar uma parte de debate político-ideológico, mas tem de ser uma parte bem modesta. O essencial não é vencer as “idéias” do adversário, mas o próprio adversário, pouco importando que seja por meios sem qualquer conteúdo ideológico explícito. Trata-se de ocupar o seu lugar, e não de provar que ele está do lado errado. Isso se obtém melhor pela desmoralização profissional, pela prova de incompetência ou de corrupção, pela humilhação pública, do que por um respeitoso “debate de idéias” que só faz conferir dignidade intelectual a quem, no mais das vezes, não tem nenhuma. Obviedades estratégicas- Olavo de Carvalho

Aqui temos um Olavo de Carvalho reciclado, maquiavélico agora, uma vez que parece não ter logrado grande coisa com sua cruzada lá na Virgínia… Bem, o que está errado no raciocínio dele? A desconsideração de que os grupos que, atualmente, mais nos influenciam culturalmente começaram no campo das ideias, quase que exclusivamente. E eles eram essencialmente professores que, por sinal, continuam ganhando mal e não sendo proprietários dos meios de produção intelectuais, dos quais Olavo clama pela tomada. O caso é que a ideologia se estendeu, atingindo esferas antes não contaminadas, como é o caso do domínio legal do qual falávamos mais acima. Os grupos que não tinham estratégias claras para obtenção dos recursos materiais tinham o que efetivamente? A força das idéias e muito embora eles não sejam os líderes ou gestores desse processo revolucionário, o corpo de doutrinas esquerdistas está sim no topo da agenda política e jurídica do país (estatizações, direito alternativo, relatividade da propriedade, anticapitalismo etc.). Bem ou mal, a força, o sustentáculo deles foi uma visão apoiada em seus valores morais. Ora, se jogarmos isto fora, esta âncora de ideais que nos mantém vivos na tempestade de dúvidas que é a busca pela compreensão das sociedades, não temos nada. Simplesmente, nada.

Então deixemos a dominação material de lado e vivamos apenas de ideais? Não, mas a visão ideológica que deve ser endossada é justamente a que permite igualdade de direitos para que qualquer um possa deter domínio material próprio, que o torne o mais autônomo possível em relação a quem concentre mais recursos. Tal autonomia não deve significar isolamento ou uma espécie luddita de auto-suficiência, mas aquela que permita reciclar ou mudar a parceria econômica em função de um mercado competitivo, do interesse pessoal, do livre-arbítrio. Só tal sistema é que sustenta também a diversidade e maior autonomia de ideias.

Se não formos por aí, não entraremos nos eixos. A busca por ligações, porém minoritárias de Olavo de Carvalho é uma “obviedade estratégica” similar a do status quo. Sem uma busca e reafirmação moral, não nos diferenciaremos daqueles que já a jogaram no lixo. Se “um respeitoso ‘debate de ideias’ (…) só faz conferir dignidade intelectual a quem, no mais das vezes, não tem nenhuma”, o jogo amoral sem o debate de ideias só faz destituir a dignidade moral de quem, no mais das vezes, tem alguma. Simplesmente, nos torna todos indistinguíveis, impuros e comuns como gatos pardos na noite escura da amoralidade.

 

Blog: http://inter-ceptor.blogspot.com/

A Profana Aliança: por que querem destruir a Lava Jato

É unanime a avaliação ou ponto de vista de que a liberação da prisão de Dirceu e de Eike Batista, dois próceres da década passada, funciona como contestação aos usos generalizados do instituto da prisão provisória como estímulo à delação premiada.
O que oscilam são as decorrencias disto. Dellagnol e Cia mexeram num vespeiro ao desafiar o trio Gilmar/Toffoli/Lewandowski. Como aprendizes de feiticeiro se deixaram levar por uma fantasia de onipotência que não tardaria a se revelar ingenua e insustentável (a revés do que pregam os adeptos do Antagonista). Mas não necessariamente inconsequente e irresponsável (como alegaria um Reinaldo Azevedo) pois expôs a ala podre da cúpula do Judiciário, a qual, ainda que de relance e circunscritamente, esboça o que inequivocamente seria percebido como seu instinto de sobrevivência.
A série de interesses empresariais e financeiros potencialmente tocados pela delação palocciana abrange a fina flor do “capitalismo de compadrio” brasileiro, figurões cuja estirpe transcendeu eras históricas inteiras da política nacional.
Alguns sobreviveram ao fim da colonização (1822), outras ao fim da escravidão e do Império (1888/89) e muitos à própria revolução de 1930.
Alguns, discretos, sobre os quais pouco se diz e se especula até aqui, a saber o setor financeiro da economia. Este, embora alheio à Lava Jato até aqui, é visto unanimemente por ambas as “torcidas” como cúmplice senão mentor e beneficiário da rede de corrupção sistemática e pervasiva vigente no Estado brasileiro, pois é tocado tanto pelas “10 Medidas de Combate à Corrupção” (mais especificamente a prevenção contra a Lavagem de Dinheiro), bem como pelos pedidos de Auditoria da Dívida Externa.
Contudo pouco se avançou em seu desnudamento, ao contrario do que ocorre com a cúpula do setor empresarial produtivo, ora representado pela Petrobras e pelas empreiteiras. Haveria que se imaginar que as investigações aqui, se aprofundadas e radicalizadas no mesmo sentido e direção que a Lava Jato empreendeu no segmento empresarial produtivo, nos levaria a um desfecho “islandês” para as mazelas de nosso sistema financeiro?
Esta questão não iremos responder aqui. O texto a seguir foi redigido há cerca de seis meses atrás. Como se verá o mesmo não antecipava avanços como os que hoje se verificam, como a difusão da Lava Jato para investigar corruptos e corruptores dentre os banqueiros brasileiros, bem como para evidenciar os comprometimentos e promiscuidades da Magistratura Nacional ( a saber: os affairs familiares e negociais de Gilmar com o controlador do Grupo EBX e de Janot com a OAS, depois com a JBS).
Por certo os mesmos se enquadram no enredo original do texto e mudam incrementalmente o significado que ali se buscou construir. Muito embora abalem algumas crenças, por outro lado tornam complexa as tarefas analíticas e operacionais dos que buscam extirpar a corrupção no Brasil.

Continue lendo aqui >> A Profana Aliança. A Coalizão Geral contra a Lava Jato e a Disjuntiva de Stanislaw Ponte Preta

Quando uma mulher persa tira seu hijab e um filipino canta rock

Arnel Pineda, atual vocalista do Journey.

 

Ontem mesmo eu fui atendido por dois filipinos em um restaurante aqui em Florianópolis e, ao invés de lhes fazer perguntas normais como por que eles vieram para cá, o que lhes atraiu ou se eram marinheiros e se encantaram com a cidade fui logo ao que mais me interessa (e afasta as pessoas), “você saiu das Filipinas devido ao terrorismo do grupo Abu Sayyaf que quer uma parte do território as filipinas são católicas né?”, “o grupo terrorista e separatista é muçulmano certo?” O atendente, que falava muito bem o português para quem era um imigrante de pouco tempo no país me disse “é, há alguns católicos…” Como assim há alguns?!As filipinas são majoritariamente católicas! Logo percebi que o sujeito não deveria ser um e que se mostrou ligeiramente incomodado com a questão. Como minha mulher observou depois, eu realmente não sei abordar as pessoas com algo que as atraia para uma conversa leve. Fazer o quê?

Já não é a primeira vez que isso ocorre, anos atrás, eu também conheci uma mãe persa(sic) como ela mesmo se denominou e eu fiquei, obviamente confuso, pois o país é chamado de Irã desde a década de 30. Eu fiquei olhando para o nada e dei um passo para a frente, como quem quer conversar sem berrar no meio do playground, ao que a mamãe do oriente automaticamente recuou um passo. Novamente, minha mulher me fitando só faltou puxar as rédeas, se as tivesse… Eu disse “Irã?” Foi daí que ela paralisou por quando ouviu a palavra, como se eu tivesse dito um palavrão. Realmente para alguém dizer que vem da Pérsia ao invés de Irã, que é como o país se chama atualmente deve ser por uma profunda rejeição ao status quo, seja social ou político. Achei tão natural de minha parte citar IRÃ que fiquei chocado com seu susto. E claro que ela deveria ser uma herege para o país dos aiatolás, se vestia como uma ocidental, bem moderninha aliás de calças, camiseta e outros adereços femininos que distam anos luz da escola estilística dos hijabs. Sei sei que no Irã antes da Revolução de 1979, as mulheres tinham bem mais liberdade e não eram obrigadas a se vestirem ocultando sua beleza e também sei que há movimentos femininos que rejeitam a obrigação de usar o véu islâmico, coisa que estranhamente não vejo como bandeira de luta ou sequer tímido apoio de nossas feministas ocidentais. Sei lá, vai saber, talvez nossas mulheres engagées estejam mais ocupadas tentando acabar com o capitalismo , o cristianismo e a cultura ocidental…

Engraçado, gente fugindo do totalitarismo com medo de novos totalitários a espreita no parquinho, enquanto observa crianças brincando, gente que não percebe uma ação totalitária em curso em seu próprio país, mas tem desgosto por outra religião e, no fim das contas, apenas servos de seus horários de trabalho e seu tempo livre. Enquanto isto, minha sutileza de bola de boliche levantou da cadeira comigo e fomos ao balcão pagar a conta para outro filipino me atender. Continuei meu curso contra os pinos e perguntei se conhecia Juan de la Cruz, uma banda de lá. O sujeito ficou impressionado e pela primeira vez tive um contato humano quando me fitou e disse “Claro! ROCK’N’ROLL!,” Sim, eu tenho o disco e ainda arrematei “também tem lá o novo vocalista do REO Speedwagon…” ao que me olhou estranho. Digo, não! É outro o nome da banda, “Journey, sim, journey, EU ERREI” e ele complementou “Arnel Pineda”! É esse seu nome, como? Arnel? Isso, Arnel Pineda, excelente vocalista. Vi um documentário sobre sua história e admissão no grupo. Muito bom. Ao atravessar o calçadão pude ouvir o gerente cantando, afinado, diga-se de passagem.

É isso, às vezes geramos uma cizânia aqui e ali, um desconforto geral, mas no fim das contas, importante mesmo é ficar com a música na cabeça, ela é que nos tira das fronteiras e limites impostos pelas culturas. Agora me permito um pouco do sonho ingênuo de que um dia, as preces nos templos sejam substituídas por ondas de rádio FM. Menos crenças, mais prazer e que se dane o além porque vou continuar sendo inconveniente, das Filipinas ao Irã passando por Florianópolis.

 

Um bom dia,

Anselmo Heidrich

2017-08-03

 

Eu preciso de Ti

Conquiste, conquiste e conquiste… Quantas vezes você já não ouviu isto? De que a vida é uma grande competição etc. e tal. Olha, eu sei que nos movimentos de mercado, no nosso cotidiano profissional competimos sim, mas nem tudo se resume a isto. Por analogia, assim como no tráfego urbano temos que avançar nas vias preferenciais fazendo com que os veículos nas adjacentes esperem, às vezes cedemos passagem, pelo menos para um ou dois para que o mesmo trânsito flua. Sabe, é justamente este equilíbrio entre egoísmo e altruísmo que nos faz humanos. Esta é nossa marca distintiva.

Vou contar uma história engraçada: certa vez estive em Brasília e, em meio ao trabalho e atividades saí muito tarde para jantar. Como não conhecia bem a capital federal acabamos em uma praça de alimentação onde quase tudo estava fechado. O calor era intenso e eu estava seco por um chopp, mas dei sorte (ou não), pois encontrei um quiosque aberto com o líquido amarelo. Para minha decepção, como já havia expirado o horário de funcionamento, o próprio dono me explicou, ele não podia vender mais nada sob risco de ser multado pela administração do shopping. Tentei persuadi-lo, em vão e também não insisti muito, pois não era justo que ele pudesse sair prejudicado pelo meu desejo fugaz. Daí, como quem não quer nada e fala por falar, eu disse “bem, se tu não podes me vender, por que não me dá um copo?” O sujeito foi surpreendido e disse “isso eu posso fazer”. Naquele momento eu tive uma visão…

Nem tudo na vida é troca, ou melhor, até é, mas não no sentido monetário. Eu tive um amigo, de muito tempo atrás que cresceu incrivelmente na vida como profissional e analisando seus passos e métodos, muito do que ele fez, foi assim pedindo favores. Por vezes, isto é a antessala do que virá a ser uma boa relação profissional ou parceria futura. O fato é que não sabemos e, na pior das hipóteses, tudo que você irá ganhar é um não e, cá entre nós, o NÃO você já tem, então por que não arriscar mais?

Não tenha receio disto, você não estará se aproveitando de ninguém, pois o pedido será sincero e explícito. E mais ainda, você estará se expondo como alguém humilde, pronto para reconhecer a bondade alheia como se dissesse “também estou pronto para te ajudar”. Assim é nossa vida, ou melhor, assim deveríamos vê-la: não vivemos em uma bolha de egoísmo, mas sim na base de um saudável mix entre autonomia e heteronomia. Boa parte da razão de nossos sofrimentos é acreditar, de modo falacioso que somos autossuficientes. Não, ninguém é.

Aprenda a dizer “eu preciso de ti”. Não dói e aproxima.

 

Um bom dia a todos.

Anselmo Heidrich

2017-08-02

É a demografia, estúpido! (1)

Há cerca de 200 anos atrás tínhamos 1 bilhão de seres humanos sobre a face do nosso planetinha, hoje contabilizamos cerca de 7 bilhões. A novidade é menos o número em si do que seu crescimento, ao passo que no passado o crescimento era lento, a partir de um dado ponto na linha de tempo da história, ele salta. No milênio passado, esse crescimento foi três vezes maior do que todo a história da humanidade anterior – de 1,5 bilhão saltamos para 6,1 em apenas um século.

Nosso crescimento populacional acelerado atingiu um pico no início dos anos 60, quando aumentava cerca de 2,1% a.a. De lá para cá caiu, o crescimento, não a população, o que significa uma coisa: desaceleração. Cresci em um mundo que tinha uma certeza, a superpopulação é um problema indiscutível e vejo que hoje a percepção mudou, ninguém considera mais isto seriamente, com exceção talvez de grupos ambientalistas radicais, ludditas na verdade.

Basicamente, nossa história demográfica mundial se divide em três atos:

  • A pré-modernidade, com um longo e lento crescimento da população mundial marcado por altas taxas de natalidade e mortalidade que se compensavam;
  • A modernidade até os anos 60, quando atingimos um pico de crescimento graças ao crescente padrão de vida mundial (avanço da medicina preventiva) que levou às quedas de mortalidade e, consequentemente, aumento da expectativa de vida;
  • O fim do período de crescimento acelerado com redução das taxas de natalidade que ainda matem o incremento da população, porém em um ritmo bem inferior. Como resultado destas duas variáveis, o aumento da expectativa de vida e a redução dos nascimentos temos a modificação da estrutura populacional, com diminuição relativa do número de jovens e aumento de idosos. Obviamente que isto demanda alterações e adaptações da economia e, o que não é tão claro e óbvio, dos padrões de comportamento.

Isto é o básico para podermos avançar em qualquer assunto relativo à demografia. Mas por que o alerta “estúpido!”? Justamente porque a demografia tem sido relegada a um campo secundário de fatores e causas de mudanças sociais. Ao agir no longo prazo nos acostamos a ignorá-la e não perceber que constitui realidades inegáveis com as quais os diversos agentes políticos e econômicos terão que lidar. Dar uma maior peso à visões administrativas, culturas e ideologias sem associá-las ao peso do número bruto e relativo é como analisar o papel de reagentes em química sem ver sua quantidade em qualquer solução.

Anselmo Heidrich

Adaptado de: https://ourworldindata.org/world-population-growth/

 

 

Existe “Socialismo Escandinavo”? – o caso sueco

Não. Em termos econômicos, o socialismo é ineficiente e, no longo prazo traz pobreza; em termos políticos, geralmente está associado com varias formas de despotismo, o que é consequência da grande concentração de poder e expansão da burocracia. Mas afinal, o que é o socialismo?

Definindo o que é Socialismo

Há duas maneiras básicas de se pensar um conceito, do ponto de vista teórico-normativo e a partir da história, isto é, através de uma teorização dos experimentos socialistas. No primeiro caso, o marxismo é a principal vertente teórica aceita mundialmente para definição e defesa do socialismo. E o que Marx dizia basicamente? Que as chamadas “contradições do capitalismo” – o avanço da produção de riquezas frente à depauperação geral da condição de vida dos trabalhadores – iria gerar um processo revolucionário de luta de classes sociais na qual os proletários (operários e camponeses) tomariam a força, a riqueza que é a posse dos meios de produção (fabricas, fazendas etc.) dos capitalistas, burgueses, como eram chamados. Para os revolucionários comuns, outros socialistas e anarquistas, este processo levaria a uma sociedade sem estado, o comunismo, que era baseado em formas autônomas de organização social, como os indígenas do novo mundo, p.ex. Para Marx, isto não passava de uma grossa ingenuidade. Ele defendia que para chegar a este estagio ideal, o comunismo seria necessário um estagio intermediário entre capitalismo e comunismo. E o que seria ele? Exatamente, o socialismo. Em suma, o socialismo de Marx seria um momento histórico em que o estado tomaria total controle sobre a organização da vida econômica, incluindo produção e distribuição, já que a principal questão para os revolucionários do século XIX era essencialmente esta, diferente de hoje em dia, onde a pauta cultural se faz cada vez mais presente para os revolucionários. Daí, aos poucos (o que Marx não definiu nem quando nem como), o estado deixaria de existir e daria lugar a uma sociedade totalmente igualitária e livre. Desnecessário dizer como nesta parte da teoria Marx se mostra tão ingênuo quanto seus pares revolucionários ou, vai saber… Manipulador, para parecer tão ou mais radical que seus pares “socialistas utópicos” e anarquistas, que também desejavam a revolução, mas com outros protocolos de ação.

Em termos históricos é bem mais simples. Basta ver todos os regimes instaurados e autodenominados socialistas ou comunistas, nenhum deles efetivamente prezou pela democracia, embora tivessem, volta e meia, o termo “democracia” inscrito em suas denominações oficiais (República Democrática da Alemanha, p.ex.). Sejam casos de países mais pobres, como a Albânia ou mais desenvolvidos da Europa central como a Polônia, todos esses tiveram um subdesenvolvimento relativo aos seus pares ocidentais como França e Inglaterra justamente por não permitirem a chamada acumulação de capital que um livre mercado proporciona. Países como a Ucrânia, formalmente membros de uma “união” como a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, na verdade dominados pela Rússia detinham baixíssimos índices produtivos na agricultura, embora seus solos (tchernozion) estivessem entre os melhores do mundo. Isso que nem estamos comentando os casos bizarros de morte, assassinatos em massa por conta de uma ideologia sumamente irracional. Stalin, um dos maiores facínoras que a história já conheceu matou mais do que Hitler e o impressionante é que não tem a mesma rejeição que este. Mao então foi um dos piores ditadores que o oriente conheceu, junto com Pol Pot no Camboja também ceifou a vida de dezenas de milhões de seres humanos. Quando nossos imbecis estudantes de esquerda dizem na internet “matou foi pouco” mostram o pior lado do ser humano, o do escárnio e da indiferença e é exatamente por conta desse tipo de espírito podre que essas sociopatias florescem. Enquanto o canalha cambojano sustentou seus planos ideológicos da criação do “novo homem comunista” forçando pessoas a migrar e trabalhar no campo levando a morte por execuções ou inanição, a China de Mao fez o contrário acabando com a produção e distribuição de alimentos para as cidades ao urbanizar a força de trabalho compulsoriamente com fins de industrialização. Este chamado “Grande Salto para Frente” foi, na verdade, um salto para o abismo.

A Escandinávia teve algo assim? Nada. Então por que chamar o sistema social que criaram de socialismo?

O que existe em países como Dinamarca, Suécia, Noruega – a chamada Escandinávia – e vizinhos (não considerados como Escandinávia), Islândia e Finlândia é um sistema de elevada tributação com fornecimento de serviços públicos de boa qualidade que foi desenvolvido ao longo da história por partidos socialistas. Aqui, “socialista” se prendia a uma definição do termo pelos chamados socialdemocratas (guarde esse nome) que acreditavam, diferentemente dos marxistas, socialistas old school e comunistas, que a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos não se daria por processos revolucionários, mas sim pela tributação em cima de empresas capitalistas. Socialdemocratas ou socialistas no sentido anticomunista sabiam que o capitalismo era irreversível como melhor sistema produtivo e que, isto é importante, não podiam matar sua “galinha dos ovos de ouro”.

Mas se trata de um sistema autoritário também, só que por vias indiretas?

– o caso sueco

A Suécia, p.ex., uma monarquia constitucional tem seus deputados vivendo na capital do país em apartamentos de 40m², com lavanderia comunitária sem direito às serventes. Outros têm menos espaço ainda, vivendo em apartamentos de 18m² com cozinha comunitária. Que diabo de sistema autoritário e despótico, socialista em termos clássicos seria este que não premia sua elite política? Esta é uma das diferenças gritantes que vemos quando comparamos a burocracia privilegiada dos tempos da antiga União Soviética p.ex., a chamada Nomenklatura. Até os anos 90, os deputados viviam em sofá camas no parlamento, sem direito a carros oficiais ou coisa que o valha. Ainda hoje, prefeitos e governadores sequer têm direito às residências oficiais e deputados estaduais podem ganhar apenas um computador para trabalhar. Deputados federais não têm verba indenizatória e recebem apenas o equivalente ao dobro do salário de um professor. E, mais importante, um político sueco não tem imunidade parlamentar. Para se ter uma ideia do nível de seriedade desse sistema, uma vice-primeira ministra teve seu cargo cassado porque comprou uma barra de chocolate com verba parlamentar, o chamado “Caso Toblerone”.

Agora ninguém discute que se trata de uma economia altamente tributada. Normalmente, 40% ficam com o governo e se você for rico pode ser algo em torno de 55%. A diferença é o alto grau também de transferência dos impostos, o estado sueco cuida da aposentadoria, da saúde e do seguro-desemprego. Isto se estende também à educação que garante os estudos por vias públicas até o doutorado. Há toda uma rede de assistência, como creches e cerca de 80-85% dos impostos retornam a você, como pagador de impostos. Assim, não há uma prioridade em transferir renda para os mais pobres, como a esquerda gosta de nos fazer crer e sim, uma transferência para todos pagadores de seus impostos. Importante lembrar que não se trata de um sistema que procura homogeneizar as classes sociais e, exatamente, por isso não é socialismo. Chame do que quiser, estado de bem-estar social, capitalismo de bem-estar social, mas não é socialismo.

Saúde

Se tomarmos o exemplo da saúde, este é o setor que mais gera problemas. As filas só aumentam demonstrando claramente o que Hayek já dizia, as demandas são infinitas e, portanto, os preços são decididos politicamente de tal modo que muitos suecos preferem se tratar no exterior. Se a saúde dos suecos é boa, se a expectativa de vida é longa se deve mais aos hábitos do povo que não ingere muita porcaria na alimentação, assim como não fuma demais. São hábitos que fazem o monge, como se diz e isto explica, p.ex., como a epidemia de sobrepeso atinge certos estados americanos, o Alabama, mas não o Colorado. São os hábitos, a cultura local que devem ser investigados e não somente uma análise dos gastos com medicina e saúde.

Avanços e Recuos

Muitos argumentam que o enriquecimento deste país se deveu aos seus minérios, ou ao seu não envolvimento na I Guerra Mundial, ou ao seu Estado de Bem-Estar Social – o Welfare State –, que é na verdade uma consequência e não a causa. O que levou ao seu sucesso econômico entre 1870 e 1970, de um dos países mais pobres da Europa ao posto de 4º mais rico do mundo foi o capitalismo aplicado. No entanto, esse crescimento todo não pôde defender as maiores empresas suecas (pense em Volvo, Ericsson, Ikea…) da ideologia esquerdista dos anos 60, que passou a influenciar todos os partidos do país, mesmo os de direita. Com o alto nível de tributação e, especialmente, regulamentações sobre a atividade produtiva, o inevitável iria ocorrer: a crise dos anos 70 em que os indicadores econômicos começaram a piorar. Esta crise levou a reformas necessárias nos anos 80 e 90, com redução de impostos para o capital e aumento no consumo. A razão é simples, o capital com alta tributação foge do país, o consumidor não. A ideia é retomar o tripé de desenvolvimento que levou o país ao seu pico máximo, o trabalho, o comercio e a inovação.

O país passou por duas décadas e meia patinando e agora a pouco mais de uma década retomou seu desenvolvimento baseado numa liberalização para as empresas. A química é simples, não há como sustentar bons serviços públicos sem uma economia bem ajustada. Há um limite quantitativo e qualitativo para que a atividade não definhe e os suecos descobriram isto antes que fosse tarde. As desregulamentações também são outro ponto, de taxis a ferrovias, de telecomunicações a escolas, antes dirigidas pelos governos, praticamente tudo está se tornando mais livre.

Educação

Na educação que é um setor que me interessa deveras por ser professor, se trata de um sistema muito interessante que está sendo instaurado. Há uma liberdade de modelos em que não se tem mais a direção do estado. Qualquer escola é possível e é financiada pelo estado que recolhe impostos para isto. O financiamento é público, mas a administração é de empresas ou prefeituras e, o que é muito importante, pois as verbas de custeio aumentarão quanto maior for a preferência de pais ou responsáveis por determinada instituição. É a demanda por um tipo de serviço que condiciona o gasto público e não, como se faz no socialismo, o planejamento de uma equipe de burocratas ou de pedagogos dizendo o que é melhor.

Entre 1980 e 2000, a liberdade econômica só aumentou no país. Isto significa que se trata de um modelo a ser seguido?

Pense, se os suecos aceitam um estado agigantado não é porque são burros, mas porque, no caso deles, este estado é eficiente. Se outro modelo de capitalismo (vamos deixar bem claro aqui), como é o caso dos EUA não seguem a mesma trilha, talvez seja porque seus setores públicos não demonstrem eficiência similar e eles sejam bem sucedidos de outro modo. Qual é o melhor não nos cabe dizer, mas sim ver qual tem mais a ver com as características sociais e culturais do Brasil. Qual modelo você gostaria de ver aplicado aqui, a partir da experiência com nosso tipo de estado? Você crê que um modelo estatista como o sueco é condizente com a realidade de nossa máquina pública ou o oposto, como na América é que seria mais adequado? Esta é a questão técnica relevante e não o pobre debate maniqueísta de chamar uma economia de mercado com administração estatal diferente de socialista que é o que fazem os esquerdistas. Não caia nesta.

Atenção! Cuidado com a Manipulação!

Vivemos uma época de intensa guerra cultural onde a esquerda perde em tudo, menos na propaganda. Analise, em 2012, os EUA atingira 8,2% de desemprego, o que representou “uma grave crise do capitalismo” para os periódicos de esquerda (Carta Capital, Carta Maior, Caros Amigos, Revista Fórum e outros), mas 12% de desemprego na Venezuela (o que deveria ser mais, se não fosse a censura de seu regime autoritário) não representaram uma crise do socialismo bolivariano ou do estatismo? Como assim?

Assim se compreende facilmente como um político picareta como Bernie Sanders, que concorreu à candidatura à presidência pelos Democratas contra Hillary Clinton afirmou que os EUA tinham de seguir o exemplo “socialista” da Dinamarca, país similar à Suécia na sua administração pública e econômica. Como a mentira tem pernas curtas, Sanders foi desmentido pelo primeiro ministro dinamarquês em palestra na Universidade de Harvard. A questão é ele sabe o que realmente aconteceu e acontece lá ou é mera ignorância? No primeiro caso, ele estaria manipulando, pois mente sobre o suposto “socialismo escandinavo”; no segundo, ele seria apenas mais um idiota útil da esquerda, só que com uma diferença: poder.

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Para que gente assim não ganhe espaço com mentiras divulgue estes dados e acabe com o germe da mentira em seu nascedouro.

Obrigado,

Anselmo Heidrich

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