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O que explica a violência na sociedade manauara? (Fonte da imagem: Mercado Popular).

Vale a leitura deste excelente artigo sobre a violência em Manaus, especificamente, e o Brasil em geral: O Massacre Manauara e a Guerra às Drogas – Instituto Mercado PopularInstituto Mercado Popular. Mas seguem algumas considerações sobre a complexidade do assunto, que tornam as decisões mais difíceis.

Se houvesse um plebiscito agora pela liberação de drogas como maconha, cocaína e heroína, eu assinaria a favor, mas saibam que não existe protocolo de recuperação para dependentes de crack na medicina. Mesmo assim assinaria, como vocês bem disseram porque a guerra às drogas já está perdida e que cada um cuide de sua própria vida. No entanto, não dá para passar por cima de verdades cientificamente aceitas e já que vocês citaram a biologia, há pesquisas que indicam a piora no quadro de saúde, mental inclusive quando se usa a simples (e tida como ‘leve’) maconha. Outro ponto é que quando falamos em liberdade não se pode ficar apenas na discussão filosófica sem que saibamos em que ponto isto toca a realidade prática e aí temos que recorrer à Lei… A partir de que idade, o consumo deve ser liberado? 18 anos e que tipo de droga? Todas, inclusive aquelas com alto risco à saúde? Como veem, o assunto é complexo e mesmo após liberação, a regulamentação não deixaria de ser necessária, pois proibindo-se o consumo livre para menores de idade, segundo a própria lógica econômica implícita no artigo surgiria um atraente mercado que criaria um mercado cativo (viciado) entre menores. Atualmente, na porta das escolas públicas ou mais recorrentemente nos muros laterais das escolas se alicia menores de idade com um simples e inocente narguilé. Refiro-me à crianças do 3º ano, algo em torno de 8 anos de idade. Não dá para ignorar este debate, cuja zona de sombra não encontra argumento automático no liberalismo. Outro ponto não tocado no artigo, fundamental é que toda atividade (e o consumo de drogas não se furta a isto) apresenta externalidades negativas. No caso, na saúde pública… Como liberal, eu não aceito pagar tratamento para dependentes químicos que inflarão as filas do SUS, caso seja desenvolvida tratamento de saúde específico. Uma vez que a atividade seja legalizada, este será um percurso legislativo (e eleitoreiro) bastante óbvio. Portanto, como eu disse, eu assinaria ‘sim’ no plebiscito, mas acho um grande equívoco (para liberais) aceitarem a legalização das drogas sem discutirem a privatização do SUS. Assim como já é imoral hoje em dia o que ocorre com o alcoolismo etc. Há várias outras considerações, que fica para outra hora, como acreditar piamente que a legalização do mercado diminuiria a taxa de criminalidade. Tenho minhas dúvidas… Pois a equação não se explica somente por uma lógica econômica. Aqueles que enveredaram por este mundo também o farão em outras áreas (contrabando de armas, tráfico de órgãos etc.) muito provavelmente, pois daí se foge da regulação estatal que diminui os próprios custos. Veja, a violência associada às drogas pode desaparecer, mas o agente violento por excelência só se realocará. Porque nem tudo se explica no mercado, sem a alegada antropologia do artigo, a cultura. E esta muda sim, mas não só por incentivos e reforço positivo, mas também por reforços negativos, isto é, repressão. Eu não acredito na boa vontade humana… Como vocês mesmo disseram, há uma compulsão pelo status e reconhecimento e muitos que não foram devidamente criados em uma cultura do braço forte da lei estão acostumados com este mundo, onde se lixam para o estado democrático de direito. Reiterando o meu argumento, a liberação é correta sim, mas ela é apenas um pedaço da pizza, a equação não prescinde de outros fatores.

RL