“Domine o medo, domine tudo.”

Filmaço, filmaço, filmaço.

Para quem gosta de filmes de guerra, com direito à batalha de tanques em meio à tempestade de areia em Djibouti. Uma equipe tenta salvar membro da embaixada sequestrada por terroristas fundamentalistas. Mas não é só isso, em que pese um certo estranhamento meu com a atuação dos atores, “meio rústica”, eu diria, o enredo é ótimo.

Uma coisa que me chamou muito a atenção: a jornalista que discorda de um capitão sobre a operação, querendo que se elimine (isto mesmo) o cabeça dos terroristas, a célula, o grupo todo é bem nacionalista. Aliás, o filme todo é bem nacionalista e deu pra perceber que este é o clima cultural, pelo menos do cinemão chinês, de afinação de acordes entre responsáveis pela Defesa – o Exército – e os produtores da Ideologia – a mídia. Bem, beeeeeemmmmmm diferente do que rola hoje nos EUA.

Mas a China chegou lá, não é só kung fu, aliás, nunca foi. O país tá fazendo cinemão!

Outras duas coisas que me chamaram atenção que, aliás, têm a mesma raiz, a jornalista questiona o capitão dizendo:

— E se uma ordem é errada?
— Eu assumo a responsabilidade — responde dignamente.

Mais a frente, ele se deixa seduzir por esta maneira de pensar e convoca os que restaram (morre quase todo mundo) e diz:

— Esta operação ainda não está autorizada — tipo, “quero saber se decidem ir comigo”, ao que todos colocam seus punhos juntos. Trata-se de capturar o “bolo amarelo”, um elemento radioativo que falta à fórmula para construir um artefato nuclear pelos terroristas.

Entonces, mi camaradas. Não tem jeito, parem com essa paranoia anti-chinesa, porque os caras vieram pra ficar. Aprenda a lidar com eles como, aliás, fez o Papa Pop Messi Francisco (veja vídeo do VisualPolitik com meu comentário no post abaixo).

Agora preparem-se, é selvageria mesmo. Os caras continuam lutando mesmo sem orelha ou braço. Isto chama a atenção também, toda guerra tem isso, claro, óbvio, mas o chinês, diferente do americano ou do europeu não tem “dedinhos” em apresentar a realidade crua. Por quê?

Duas filosofias constituíram o “Império do Meio”, como é chamada a China, o taoísmo, de Lao Tsé e o confucionismo. A primeira filosofia, não necessariamente nessa ordem, ensina o instintivo e primitivo e o confucionismo, a ordem. Em certo sentido, isto explica episódios sangrentos e extremamente violentos da história chinesa que entremeiam a ordem e aparente passividade daquela sociedade milenar. Os dois extremos conviveram neste império e quando a revolução comunista ocorreu, foi uma vitória desse instinto primal contra a ordem dos burocratas mandarins, cultos, professores (esta, uma classe odiada por Mao Tsé-Tung). Mais tarde, quando a sociedade estabiliza, sobrevém novamente o espírito ordeiro e regulador. Estes dois extremos são claramente percebidos no filme, que parece caricatural, exagerado, mas acho que não é isso e sim um auto-retrato da sociedade chinesa.

Agora, vamos para nós…

Caro socialista, os chineses estão fazendo que raios no Mar Vermelho? Trata-se de uma rota importante com passagem em um estreito — Bab-el-Mandeb — onde sobra atividade de pirataria. Aliás, o filme começa com um combate aos piratas, fantástico diga-se de passagem e deixa os filmes de Stallone no chinelo. Entonces, mi camarada, a China não tem nada de “promover a igualdade”, é capitalista mesmo, mas sob orientação do estado, o que chamamos de “mercantilista”, como eram as nações europeias na época colonial.

Caro liberal, por mais que você odeie o estado, esse mundo não foi feito para Pollyanas como você, sem a defesa de exércitos, teu livre-comércio vai ser “livre” só onde nenhuma força tem interesse. Talvez em alguns inlandsis por aí. Aprenda a desejar e operar por um estado limitado, mas a ausência da força especializada só te tornará aquele velhinho que não sabe argumentar sem o pronome “SE”.

Caro conservador, deixe de ser tonto, a China é conservadora, e não existe só o conservadorismo cristão. Atente para isso.

Caro democrata, torço para que um dia a democracia seja abraçada pelo governo chinês, mas isto só vai funcionar naquele gigante quando houver uma descentralização de poder, territorialmente falando. E para tanto, temos que ter mais pólos econômicos longe do litoral e de Pequim. Isto fragmentará as elites tornando a democracia viável. Antes disso, a concentração política refletirá o que já acontece territorialmente em termos econômicos. Lento e gradual, lembre-se.

Como eu disse, filmaço. Pode assistir:

Sequestro no Mar Vermelho https://www.nonetflix.com.br/sequestro-no-mar-vermelho/35410#.XMISZsb6ias.twitter

AH! QUASE ÍA ME ESQUECENDO! O filme termina, belíssimo, com honrarias em um navio de guerra aos heróis mortos em combate (conseguiram eliminar o religioso terrorista) e com uma frota de navios de guerra no Mar da China Meridional avisando outras embarcações para caírem fora (não necessariamente piratas, pois a região é alvo de disputas entre países devido aos recursos petrolíferos, entre outros). Indireta mais direta impossível, a China está até construindo ilhas artificiais para garantir a posse dessa região contra a Indonésia, a Malásia, a Tailândia, as Filipinas e, claro, os EUA.

Sinófobos, tremei! Olavettes, borrai nas carça!

Anselmo Heidrich
25 abr. 19