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Anselmo Heidrich

Defendo uma sociedade livre baseada no governo limitado e estado mínimo.

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Volodymyr Zelensky

A viagem de Zelensky à Omã

No início de janeiro, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky e sua família chegaram a Omã de férias, onde se hospedaram no Hotel Ritz-Carlton Al Bustan Palace, na costa do Golfo de Omã, perto da capital, Mascate. O mandatário também aproveitou a ocasião para algumas reuniões de cúpula, onde encontrou o Ministro das Relações Exteriores do Sultanato de Omã, Yusuf bin Alawi bin Abdullah. As pautas se concentraram, oficialmente, em:

– comércio bilateral;

– cooperação econômica;

– relações diplomáticas;

– investimentos na Ucrânia.

Negóciossegundo o governo

Em 2018, a Ucrânia exportou 59,12 milhões de dólares* para o Omã e importou pouco mais de 7 milhões de dólares**, mas o crescimento do comércio entre os dois países, que aumentou mais de 10% no ano passado, chegando aos 80 milhões de dólares***, levou Zelensky a propor investimentos diretos de Omã, sobretudo em setores como energia e indústria pesada, construção, agricultura, tecnologia da informação, infraestrutura, medicina e turismo.

O atual nível de cooperação bilateral ainda não corresponde ao potencial disponível em comparação com o crescimento dinâmico das relações comerciais. Zelensky também sugeriu aos parceiros de Omã que participassem de uma campanha de privatização em larga escala na Ucrânia. Na reunião concordaram em continuar a prática dos fóruns de negócios ucraniano-omani, com a participação de dezenas de empresários de Omã, relatou o Gabinete da Presidência da Ucrânia.

Yusuf bin Alawi bin AbdullahMinistro das Relações Exteriores do Sultanato de Omãabril de 2004.

Falta de transparência

Destaca-se sobre esta viagem que nenhum anúncio oficial fora feito sobre a visita de Zelensky a Omã. Após suas férias de Ano Novo na residência presidencial de Synyohora, nos Montes Cárpatos, Zelensky retornou a Kiev e depois viajou, confidencialmente, em um voo regular, com recursos próprios, para Omã.

Suspeitas foram levantadas sobre o verdadeiro objetivo desta viagem, de que tenha sido para encontrar um alto representante do governo russo, envolvendo questões de segurança entre os dois países. Nikolai Patrushev, Secretário do Conselho de Segurança da Rússia, o segundo nome em importância depois do próprio Vladimir Putin, também teria chegado em Omã, no dia 8 de janeiro, a 1 hora da manhã, enquanto Zelensky, 24 horas depois.

Embora não haja muitas referências sobre isso, a sugestão foi feita por jornalistas investigativos da Skhemy, ligados a Radio Free Europe e a Radio Liberty ( RFE/RL), financiadas pelos EUA. Se a hipótese desta reunião extraoficial se configurar verdadeira, há motivo para impeachment do Presidente ucraniano, mas, por enquanto, tudo o que se tem são suspeitas: “Um jato particular pertencente ao amigo ucraniano de Putin, Viktor Medvedchuk, teve voos entre Mascate, Omã e Moscou, Rússia, de 8 a 9 de janeiro, antes do final da visita de Zelensky. Um avião particular que trouxe Zelensky de volta à Ucrânia também chegou a Omã, com uma escala em Moscou. No entanto, não havia evidências diretas para provar esta versão e nenhuma informação estava disponível sobre os passageiros dos voos. Além disso, não havia e ainda não há provas sólidas de que Zelensky tenha tido outras reuniões em Omã, exceto as mencionadas oficialmente”.

O governo ucraniano negou veemente tal encontro do Presidente com o Secretário russo. E, diante dos fatos, ameaçou acionar judicialmente quem insistir em fazer tais ilações. No caso da denúncia já feita pelo site Skhemy, o governo ucraniano aguarda um pedido de desculpas antes de tomar as medidas cabíveis, ao que os jornalistas respondem que estão “aguardando este documento”.

Nikolai PatrushevSecretário do Conselho de Segurança da Rússia, e John R. Bolton, exConselheiro de Segurança Nacional dos EUAem Genebra2018.

Desgaste

Caso verdadeiras tais suspeitas sobre a sua viagem, Zelensky teria poucas chances de ser impichado devido à coalizão pró-governo e a maioria das cadeiras de seu Partido, o Servo do Povo, que domina a Câmara. De qualquer modo, a falta de transparência das atividades presidenciais no país árabe ensejou que grupos influentes, como o Movimento de Resistência à Capitulação, solicitassem um relatório detalhado da estada do Presidente em Omã.

Também, uma petição apresentada pelo Deputado de oposição, do partido Solidariedade EuropeiaOleksiy Honcharenko, levou a Agência Nacional de Prevenção da Corrupção a uma investigação sobre declarações financeiras públicas do Presidente, atualizando-a com gastos na visita a Omã. O Deputado também iniciou a criação de uma Comissão de Investigação na Verkhovna Rada****, que poderá levar à confirmação ou refutação das alegações feitas pelos jornalistas da Skhemy.

Se o encontro com o Secretário do Conselho de Segurança Russo for confirmado, Zelensky provavelmente será acusado de traição, afirmou o Deputado, e, muito embora o impeachment não seja uma realidade palpável, o desgaste político pode ser enorme. O fato é que tudo isso poderia ter sido evitado, caso houvesse maior transparência por parte da organização da agenda presidencial, pois, nesses tempos de rápida circulação de informações, verídicas ou falsas, todo cuidado necessário para evitar crises desnecessárias é visto como bem-vindo.

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Notas:

*** Em torno de 32,76 milhões de reais, no câmbio de 9 de março de 2020. *** Próximos de 374,47 milhões de reais, no câmbio de 9 de março de 2020. Aproximadamente 276,73 milhões de reais, no câmbio de 9 de março de 2020.

**** O Verkhovna(Верхо́вна Ра́да Украї́ни, em ucraniano) é o poder legislativo unicameral da Ucrânia, composto por 450 cadeiras parlamentares preenchidas através do sufrágio universal. Trata-se do único órgão legislativo nacional, situado na capital, Kiev.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1” Carlton Al Bustan Palace, onde o presidente Zelensky hospedouse com a família” ( Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Al_Bustan_Palace_Hotel_Aerial.jpg

Imagem 2 Yusuf bin Alawi bin AbdullahMinistro das Relações Exteriores do Sultanato de Omãabril de 2004” ( Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/File:Yusuf_bin_Alawi_bin_Abdullah,_2004.jpg

Imagem 3 Nikolai PatrushevSecretário do Conselho de Segurança da Rússia, e John R. Bolton, exConselheiro de Segurança Nacional dos EUAem Genebra2018” ( Fonte): https://www.flickr.com/photos/us-mission/42406161650


Originally published at https://ceiri.news on March 12, 2020.

Quem é quem na equipe de Zelenski

Vladimir Zelenski tomou posse como Presidente da Ucrânia em 20 de maio de 2019 com um discurso de integração. “Somos todos ucranianos. Não há um maior ou menor. Cada um de nós é ucraniano”, afirmou, fazendo referência às minorias étnicas de seu país e apontando para a paz com a Rússia na questão do Leste ucraniano. As expectativas com relação ao seu governo e quem faria parte da equipe eram grandes e o Presidente respondeu com boa parte das indicações correspondendo a membros e colegas de ofício na área de comunicação, onde fez carreira como ator.

O primeiro nome, Serhiy Volodymyrovych Trofimov,foi encarregado como Primeiro Vice-Chefe da Administração Presidencial. Trofimov foi produtor e roteirista do estúdio Kvartal 95, canal de TV aberta operando desde 2003.

Outro colega, Ivan Bakanov, amigo de infância de Zelenski, que dirigiu o canal de TV Kvartal 95 a partir de 2013, e foi Presidente do Partido Servo do Povo, foi nomeado Vice-Chefe do Serviço de Segurança da Ucrânia e Chefe da Direção Principal de Combate à Corrupção e ao Crime Organizado da Direção Central do Serviço de Segurança da Ucrânia. Terá um papel fundamental na interação com a Verkhovna Rada (o Parlamento ucraniano).

Os profissionais oriundos da área de comunicação, sobretudo da TV, predominaram nas indicações para funções administrativas ou auxiliares:

· Serhiy Shefirm, co-fundador da produtora Kvartal 95, como Primeiro Assessor do Presidente;

· Yuriy Kostiuk, roteirista da Kvartal 95, como Vice-Chefe da Administração;

· Kyrylo Tymoshenko, fundador da empresa de comunicação Goodmedia, produtora especializada em anúncios políticos, o criador por trás dos vídeos de campanha de Zelenski, foi nomeado como Chefe da Administração;

· Andriy Yermak, advogado especializado em propriedade intelectual e produtor de cinema, que já foi assessor dos extinto Partido das Regiões, foi nomeado Assessor do Presidente;

· Ruslan Ryaboshapka, ex-Vice-Ministro da Justiça, que foi membro da Agência Nacional para a Prevenção da Corrupção, foi indicado para o Gabinete dos Ministros;

· Ruslan Stefanchuk, advogado, foi nomeado Assessor do Presidente e enviado como assessor presidencial ao Parlamento. Professor e membro da Academia Nacional de Ciências Jurídicas da Ucrânia, Stefanchuk é o visionário da equipe de Zelenski, o ideólogo da campanha presidencial e principal responsável pela reforma das instituições estaduais e jurídicas, e pelo trabalho legislativo.

Com exceção de Andriy Bohdan, não houve polêmica envolvendo nenhum dos nomes anteriores. Bohdan trabalhou para um dos homens mais ricos da Ucrânia, Ihor Kolomoisky, com um papel fundamental na campanha eleitoral do Presidente, recebeu o cargo de Chefe da Administração Presidencial.

Segundo opositores de Zelenski, Bohdan foi um oficial no governo do Presidente deposto, Viktor Yanukovych, razão pela qual estaria totalmente impedido de ocupar qualquer posto oficial. O governo atual discorda, afirmando que sua equipe não está infringindo a lei.

Ruslan Khomchak e Vladimir Zelenski2019.

Outro cargo importante acompanhado de controvérsia foi a substituição do Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas da Ucrânia, trocando o general Viktor Muzhenko por Ruslan Khomchak. De acordo com o regulamento do Estado-Maior, o Presidente substitui o Chefe em conjunto com o Ministro da Defesa, o que não ocorreu.

A equipe de governo de Zelenski apresenta alguns nomes que não são consensuais, mas é formada na sua maioria por membros que não são agentes com tradição em funções de Estado. Este será um dos pontos mais lembrados ao longo da trajetória deste governo e, se esta estratégia for bem-sucedida, servirá como uma forma de avaliação para as preferências e métodos de escolha das equipes e governos precedentes.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Andriy Bohdan, 2019” ( Fonte): https://uk.wikipedia.org/wiki/%D0%A4%D0%B0%D0%B9%D0%BB:Andriy_Bohdan_(crop).jpg

Imagem 2 Ruslan Khomchak e Vladimir Zelenski2019” ( Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Khomchak_with_Zelensky.jpg


Originally published at https://ceiri.news on June 11, 2019.

Segundo Turno das Eleições Ucranianas confirma vitória de Zelenski


O segundo turno das eleições ucranianas está confirmando a vitória de Vladimir Zelenski. Pesquisa de boca de urna aponta 73% dos votos para este candidato, enquanto que seu rival, Petro Poroshenko, ficou para trás, com apenas 25%. Com uma taxa de comparecimento nas urnas de mais de 45% dos eleitores, o segundo turno das eleições apontou que o povo ucraniano decidiu ter como Presidente do país alguém com disposição de dialogar com Moscou, pondo fim à guerra de Donbass*, sem abandonar os projetos de integração com o Ocidente.

No debate da última sexta-feira, dia 19 de abril, no estádio Olympiyskiy, em Kiev, com capacidade para 70.000 pessoas, mas com apenas 22.000 presentes, a maioria favorável ao atual Presidente não intimidou Zelenski, que se comportou como showman. Poroshenko levou até banda de rock em seu momento de apresentar-se, mas frases de impacto como “eu não sou seu oponente, sou sua sentença!”, proferidas a ele por seu rival agora vitorioso, além de gestos por parte deste, como ajoelhar-se diante da multidão e dizer que estava ansioso por fazer o mesmo para as mães que perderam seus filhos no conflito do Leste, revelaram um homem que sabe teatralizar no jogo político.

O ponto forte da campanha de Zelenski, feita basicamente em redes sociais, é a imagem de um candidato “ independente”, um outsider, que “ não é um político”, como gosta de afirmar. Mas em que pese isto ser verdadeiro, as ligações políticas não são eliminadas e elas apontam para um caminho tradicional da política ucraniana. O Relatório investigativo do site Bihus.info aponta para conexões com quatro grupos que coordenaram sua campanha:

  • “Tio”, grupo do magnata Ihor Kolomoisky e dono do canal “1 + 1”, que veiculava a série “Servo do Povo”, em que Zelenski representava a principal personagem antes de entrar para a política;
  • “Lower”, o segundo grupo formado por uma equipe de advogados para aconselhamento legal e financeiro, mas cujo líder, o advogado Sergei Nizhny, é proprietário de um dos apartamentos que pertencera ao deputado e associado do Ministro do Interior, Anton Gerashchenko, que apoiou abertamente Zelenski;
  • “Regiões”, o terceiro grupo, que é coordenado por Ilya Pavlyuk, cuja função é a coordenação de finanças dos representantes regionais, mas com menções na mídia que se referem ao período de atividade de Viktor Yanukovich (o Presidente foragido após as manifestações de 2014). Na época, Pavlyuk era mencionado por “intermediário alfandegário”, ou “desalfandegamento”, ou, mais precisamente, como “rei do contrabando”;
  • “Quarter”, é o quarto grupo, cujos coordenadores são os parceiros comerciais de Zelenski na indústria cinematográfica, os irmãos Sergei e Boris Shefiry.

Nenhuma dessas equipes ou membros foram publicamente anunciados como representantes da equipe de campanha política de Zelenski e só vieram a público através de investigação jornalística. Ressalte-se, também, que parte do mérito desta eleição não se deve exclusivamente ao novato e sua capacidade de articulação política, mas ao próprio presidente Poroshenko que, apesar de ter fortalecido o Exército, fracassou no cumprimento de promessas de campanha, como modernizar a economia e combater a corrupção (sempre lembradas por Zelenski), o que tornou a sua reeleição muito difícil.

Enfim, em uma nação desgastada por um conflito interno com milhares de mortos e falta de perspectivas com a economia assolada por acusações de graves casos de corrupção, envolvendo até mesmo o setor de Defesa, a eleição de Vladimir Zelenski mostrou-se como sendo mais que um voto de protesto, possivelmente uma aposta em alguém capaz de dialogar com dois polos de poder político que interferem diretamente na vida ucraniana, casos da Rússia e da União Europeia.

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Nota:

* é uma região geográfica, histórica e cultural no leste da Ucrânia, posicionada geograficamente ao sudoeste da Rússia. É uma rica área mineradora e industrial cortada pelo curso do rio Donets. A região de Donbass envolve três óblasts (províncias) da Ucrânia: Dnipropetrovsk (em torno da cidade de Pavlohrad); a parte meridional de Lugansk; e, na oblast de Donetsk, ocupa a parte norte e central. Nesta área desenvolveu-se de forma intensa e violenta a revolta separatista no país.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Vladimir Zelenski em 31 de março de 2019” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Volodymyr_Zelensky_in_March_31,2019(I).png

Imagem 2 Mapa de Donbass, no leste da Ucrânia” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Map_of_the_Donbass.png


Originally published at https://ceiri.news on April 23, 2019.

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