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Anselmo Heidrich

Defendo uma sociedade livre baseada no governo limitado e estado mínimo.

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OTAN

Rússia vs. Ucrânia (parte I)

Uma opinião recorrente sobre a crise na Ucrânia é o tratamento dado à Rússia como uma herdeira da Revolução Comunista, sovietismo, etc. Não é isso, mas o sovietismo, comunismo etc. é que são manifestações de uma postura histórica do Império Russo através da expansão e domínio territorial.

Bem, isto não é exclusividade da Federação Russa, certo? Mas é nesse país que o ímpeto imperialista se manifesta na sua forma mais pura, melhor acabada, pelo menos em se tratando do Século XXI. Quando Putin define a dissolução da antiga União Soviética como uma “tragédia geopolítica”, do ponto de vista do conceito clássico de Geopolítica, ele não está errado. Afinal, se impérios uma vez cristalizados mantêm seus territórios sob domínio estável, sua desintegração os leva à períodos de instabilidade, o que significa guerras, genocídios, terrorismo etc.

Se pensarmos bem, ao longo da história, história esta no longo prazo e não apenas algumas décadas, tivemos maior tempo de existência sob domínio imperial do que através da constituição de estados-nação, cuja maioria destes vem do final da II Guerra Mundial até os dias atuais. Antes disso, os séculos mostraram uma sucessão de monarquias absolutistas, imperadores, césares, czares por onde passaram chineses, mongóis, russos, alemães, franceses, espanhóis, portugueses etc. E como poderia esquecer de romanos e britânicos? Persas, egípcios, mesopotâmios, indianos? Veja, não se trata de assumir que o mundo é apenas uma representação da “Lei do Mais Forte”, mas reconhecer que a força física guiada pela estratégia é o que decide, finalmente, quando os acordos se mostram inócuos.

Pois quando analistas guiados pela mentalidade um mundo institucional-liberal, com regras claras e consensos estabelecidos não têm mais repostas às contínuas instabilidades financeiras e contextos de crise aguda na economia asseverados por mudanças ambientais, bruscas ou lentas porém profundas, a guerra e a barbárie sobressaem. E daí o que temos? A força das armas. Muitos devem estar se perguntando que razão deve ter Moscou ao ameaçar um país livre e independente, como Moscou não se envergonha de seu passado comunista assim como Berlim tem do seu passado nazista? Mas a questão é que Moscou não glorifica seu passado bolchevique, em absoluto, ela quer é resgatar o domínio e segurança territoriais trazidos pela união constituída a força, não importa, mas que impedia que exércitos convencionais e armas estratégicas de destruição em massa chegassem a poucas centenas de quilômetros de sua capital.

É simples de entender que Washington nunca permitiria a instalação de armas de grande poder destrutivo junto às fronteiras mexicanas ou canadense, então por que diabos Moscou deveria fazer o mesmo com a Ucrânia? Veja que desde o fim da URSS houve movimentos sucessivos de avanço da OTAN rumo ao leste, com a Alemanha, Polônia, Romênia e outros e agora com a Ucrânia? Não, não é especulação, há acordos feitos de transferência de recursos para defesa ucraniana bem como treinos e colaboração para atuação em conjunto das forças armadas ucrânias junto à Organização do Tratado do Atlântico Norte.

Sim, o problema não é a integração da Ucrânia à União Europeia (UE), nunca foi isso, mas sim a ameaça física de extermínio de um país por uma organização criada para defender a Europa Ocidental da antiga União Soviética. Só que esta não existe mais, então por que manter a OTAN?

Manter a OTAN não é mais por necessidade de defesa, mas pela intenção de ameaça e, no limite, ataque. E antes que pensem que estou demonizando esta organização, saibam que sem ela outras tomariam seu lugar, basicamente, porque não existe vácuo de poder.

Anselmo Heidrich

01 fev. 22

O Impacto das Eleições Bielorrussas para a Rússia e para a Ucrânia

Dia nove de agosto passado foram realizadas eleições presidenciais na Bielorrússia e, mais uma vez, o atual Presidente, Aleksandr Lukashenko, venceu com 80% dos votos. Lukashenko, que é Chefe de Estado desde 1994, foi diretor de fazenda coletiva quando a nação ainda era uma república soviética. Sua campanha foi pautada em uma plataforma anticorrupção e a política econômica de seu governo tem foco na redução do desemprego através da estatização e resistência às reformas. Até os símbolos soviéticos são preservados e as tentativas de constituir um idioma bielorrusso como oficial já foram rejeitadas por ele.

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Aleksandr Lukashenko, em 2015, na reunião dos BRICS.

Apesar das baixas taxas de desemprego e garantia de estabilidade econômica, os métodos de governo de Lukashenko já incluíram violações dos direitos humanos. Lukashenko também dissolveu o Parlamento em 1996, que lhe fazia oposição, alterando a Constituição do país quando lhe fosse conveniente, o que ocorreu com duas Emendas:

· Em 1996, ampliando seu mandato de 1999 até 2001;

· Em 2004, em Referendo que alterou a lei, acabando com o limite para o Presidente reeleger-se.

“A possibilidade de restringir o direito à informação” também foi incluída na Constituição com o objetivo de “proteger a honra, a dignidade, a vida privada e familiar dos cidadãos e a plena implementação dos seus direitos”.

Ele também privilegia os serviços de segurança e concentra o poder de modo que não há na Bielorrússia uma elite empresarial que contrabalance o poder de Estado, como os chamados “ oligarcas “ na Rússia ou na Ucrânia. O país é, apesar de tudo, apontado como menos corrupto que a Rússia e Hungria pela Transparência Internacional. Na política externa, Lukashenko não se comporta como títere de Moscou, tendo havido divergências ao longo da história recente entre ele e Vladimir Putin.

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Sviatlana Heorhieuna Tsikhanouskaia, a candidata de oposição às eleições presidenciais.

A candidata de oposição, Sviatlana Tsikhanouskaia, dona de casa e ex-professora de inglês, cujo marido, Serguei Tikhanovski, famoso blogueiro e um dos presos políticos do regime de Lukashenko, abandonou o país após as eleições por ter contestado seus resultados. A isto se somou uma onda de protestos que sacode a Bielorrússia há semanas, com milhares de participantes nas ruas exigindo recontagem dos votos de uma eleição que não contou com observadores externos e não tem resultado reconhecido pela União Europeia.

Com a promessa de liberação de todos presos políticos, caso vencesse o pleito, Tikhanovskaya atraiu a forte oposição governamental. Como a candidata recebeu de 70% a 80% dos votos em algumas assembleias, isso gerou desconfiança em relação ao resultado final e os protestos começaram. Já faz um mês e as manifestações pacíficas continuam, enquanto que a repressão governamental recrudesce, levando à prisão de centenas de pessoas. É difícil prever o que irá ocorrer, pois, sem apoio de grupos econômicos ou políticos específicos não há uma direção clara para onde os acontecimentos deverão rumar, o que guarda grande diferença do ocorrido na Ucrânia, em 2014.

Bielorrússia e Rússia

As relações entre Bielorrússia e Rússia têm a geografia como base e condicionante marcantes. A neutralidade do país sempre foi estratégica para a OTAN, mas não é segura suficiente para a Rússia. Distante cerca de 450km em linha reta e apenas 705km por estrada, a fronteira oriental bielorrussa é bastante próxima de Moscou para inspirar ameaça, caso o posicionamento geopolítico de Minsk penda para o ocidente, mais especificamente, para a União Europeia e a OTAN.

Se a Bielorrússia integrasse a União Europeia e, em um segundo momento histórico, a OTAN, não teríamos um ataque iminente, mas, aos olhos de Moscou, um grande salto estratégico da aliança ocidental ao desequilíbrio de seu poder de dissuasão. Para entendermos melhor o que significa isto, vejamos a análise que faz George Friedman sobre a recente situação na Ucrânia: “A questão não é se a OTAN ou os EUA pretendem atacar; mas com o passar do tempo as intenções mudam. A Rússia, como qualquer país, não tolera cursos de ação que possam eventualmente ser usados contra ela. Na verdade, o movimento da OTAN para o leste, e particularmente pelos americanos, criou ameaças à Rússia a partir do Báltico e da Ucrânia. Se a Ucrânia fosse integrada a uma coalizão liderada pelos EUA e totalmente armada, forças hostis estariam a menos de 1.100 quilômetros de Moscou. A Rússia não poderia tolerar isso, portanto tomou a Crimeia, colocando-se em posição de ameaçar o território ucraniano e bloquear seus portos, e despachou forças de operações especiais para o leste da Ucrânia para desencadear um levante pró-Rússia. A revolta falhou, mas, mesmo assim, efetivamente dividiu a Ucrânia o suficiente para forçar o governo central em Kiev a recuar da fronteira com a Rússia”.

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Mapa com bandeira da Organização do Atlântico Norte (OTAN), em 2020.

Independente de as ações preventivas e de intervenção nos vizinhos não se justificarem, para a política externa russa se trata de uma ameaça. Convenientemente, Minsk vê aí um ponto fraco em Moscou e percebe seu peso para a barganha política. Por se tratar de um país territorialmente muito próximo, com um governo não alinhado à Moscou, mas sem posicionamento necessariamente pró-ocidental, o envolvimento russo iria ocorrer, conforme se abrisse alguma possibilidade para tanto.

Belarus* ou Bielorrússia, como é mais conhecida no Brasil, é uma das ex-repúblicas soviéticas que se tornaram independentes em 1991, cujo governo não seguiu a trilha da mudança das ex-repúblicas soviéticas e demais países na antiga órbita de Moscou na Europa Central. Em uma breve retrospectiva, as relações com a Rússia se tornaram difíceis a partir dos anos 2000, quando iniciam os mandatos presidenciais de Putin. Minsk não cedeu aos planos ambiciosos de incorporação de sua economia por oligarcas russos, o que levou Moscou a usar sua principal arma: o aumento do preço de seu gás. Embora bem menor do que o preço aos países europeus (67%), foi o suficiente para abalar a economia do país. Quando Minsk protestou, Moscou simplesmente cortou o fornecimento, forçando a Bielorrússia a importar combustível da Venezuela, durante o governo Chávez, e do Irã, no governo Ahmadinejad, o que obviamente desagradou a Putin.

A ausência de uma elite empresarial bielorrussa com a qual, indiretamente, permitisse o controle nacional por Moscou, e a negativa de Minsk de permitir a incorporação de seus ativos pelos oligarcas russos, colocou as duas capitais em rota de colisão diplomática. Aliado a isso, a situação internacional, com as sanções impostas à Rússia pelo Ocidente em função do conflito com a Ucrânia fizeram com que Moscou tivesse perdas financeiras e passasse a tratar a Bielorrússia com menos tolerância, o que levou à retirada de subsídios na compra de combustível.

Com o recrudescimento das tensões, a participação da Bielorrússia na União Euroasiática** em 2015, organização formada por alguns dos ex-Estado Membros*** da antiga União Soviética, amenizou as relações com Moscou. Minsk participou como um dos fundadores da União Euroasiática, promovida pela Federação Russa, no que Putin propõe uma união entre Rússia e Bielorrússia, mas não sem impor exigências e condições devidamente rejeitadas por Lukashenko. Algumas das exigências alinhavavam o controle de Moscou sobre o território bielorrusso, como permitir a privatização de setores estratégicos para oligarcas russos e apoiar todas as decisões de Moscou na política externa. Após isso, ficou claro para a Rússia que a Bielorrússia não se dobraria facilmente e passou a tratá-la como qualquer outro país. Todas as concessões russas, como petróleo e gás subsidiado passariam a ser pagos a preço de mercado por Minsk ou, do contrário, sofreriam sanções econômicas. Consequentemente, essa animosidade entre os Estados levou a disputas mais acirradas pelo preço dos combustíveis, além de causar sérios danos às relações entre ambos com a subsequente deterioração nos anos seguintes, 2016 e 2017.

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Mapa com os países-membros da União Econômica Eurasiana (EAEU, na sigla em inglês)

– A lição ucraniana

O cerne da divergência de Minsk com Moscou era a atuação russa na Ucrânia, particularmente, a questão da Crimeia. Declarações entusiásticas de apoio à Ucrânia, feitas por Lukashenko, aumentaram as divergências entre Rússia e Bielorrússia. Voluntários bielorrussos lutaram no leste da Ucrânia contra forças insurgentes apoiadas pela Federação Russa. Acordos militares para construção de mísseis foram realizados entre Minsk e Kyiv e Lukashenko declarou apoio à investidura de Petro Poroshenko, ex-presidente da Ucrânia e membro do Solidariedade Europeia, partido pró-União Europeia. Outra das demandas de Moscou era a instalação de uma base militar sua no território bielorrusso, o que gerava receios por parte de Minsk, com a lembrança clara de que o mesmo sucedeu na Ucrânia, através da manutenção do porto de Sebastopol na península da Crimeia, para permitir o acesso estratégico ao Mar Negro, mas cuja península inteira fora anexada em 2014.

Essa incompatibilidade de projetos políticos já causara um bloqueio econômico aos produtos bielorrussos por parte de Moscou, alegando “ não terem qualidade “, o que foi um golpe duro, uma vez que 88% das produções agrícolas e 69% das industriais do país se destinam à Rússia. Não restou alternativa à Minsk a não ser buscar apoio com a União Europeia, em troca de uma distensão na repressão e liberação de presos políticos. Paralelamente, com as relações Minsk-Moscou se deteriorando, a aliança militar entre os dois países passa a ser questionada, surgindo daí uma afinidade de propósitos entre Minsk e Kyiv.

Bielorrússia e Ucrânia

Antes das eleições, as relações entre Minsk e Kyiv eram promissoras. Em operações durante as enchentes que assolaram o oeste da Ucrânia, a Bielorrússia enviou um comboio de ajuda humanitária à população atingida. Bielorrússia, Polônia e Ucrânia também têm empenhado esforços conjuntos para implantação de uma obra fundamental ao seu desenvolvimento, a hidrovia E40, que faz parte de um projeto de mais longo alcance, a Iniciativa Três Mares.

Outra aliança de mais longo alcance é a participação conjunta de ambos os países, Bielorrússia e Ucrânia, na Eastern Partnership (EaP), organização criada pela União Europeia, que congrega vários países da Europa Oriental, basicamente Estados pós-soviéticos, para adequação e futura admissão na organização ocidental.

Após as eleições bielorrussas de 9 de agosto passado, no entanto, a posição de Kyiv em relação ao país vizinho tem sido ambígua. Recentemente, a Bielorrússia se viu às voltas com cerca de 200 agitadores russos, o Grupo Wagner****, 33 dos quais foram presos e seriam extraditados para a Ucrânia, onde estavam envolvidos em operações ilegais no Donbass. Posteriormente, os wagneristas acabaram sendo entregues à Rússia.

Embora a posição oficial de Kyiv seja de apoio ao Presidente bielorrusso eleito, não houve declaração sobre as manifestações posteriores em Minsk e no país. Esta prudência governamental da Ucrânia tem sido estratégica, pois, até o momento, Lukashenko tem apoiado a posição ucraniana em suas disputas com a Rússia. O Parlamento ucraniano, por sua vez, bem como a sociedade civil têm sido entusiastas das manifestações bielorrussas, como se estas fossem um revival do Euromaidan em 2014. O desejo explícito de políticos anti-russos na Ucrânia é o de um enfraquecimento de Moscou com uma maior divergência de países vizinhos, onde se encaixaria a Bielorrússia, com ruptura nas relações externas entre Minsk e Moscou. Segundo o Instituto Varsóvia, “O atraso nas decisões das autoridades oficiais de Kiev mostra a ambiguidade das posições dos políticos ucranianos. No dia seguinte ao anúncio dos resultados eleitorais, os deputados do partido presidencial ‘Servo da Nação’ parabenizaram Lukashenko por sua vitória, e o chefe do clube parlamentar do partido, David Arachamia, disse que a Ucrânia deve permanecer neutra sobre o assunto, pois existe o risco de uma escalada do conflito militar do lado russo. Para ele, a ‘pausa’ anunciada pelo Ministério das Relações Exteriores nas relações entre os dois países é a melhor prova da neutralidade da Ucrânia.Os deputados da oposição reagiram de forma diferente — numa altura em que o partido do ex-presidente Petro Poroshenko, ‘Solidariedade Europeia’, já condenava a agressão contra manifestantes na Bielorrússia um dia após as eleições presidenciais, e apresentava um projeto de lei sobre o não reconhecimento dos resultados oficiais, representantes do partido pró-russo ‘Bloco de Oposição’ apareceram na Verkhovna Rada da Ucrânia com a bandeira oficial da Bielorrússia. Eles enfatizaram que, desta forma, queriam ‘apoiar o sistema atual na Bielorrússia e condenar a vontade da oposição de mudar suas autoridades legais”.

Apesar de deter uma opinião oficial contra a repressão às manifestações, há uma grande diversidade de pontos de vista nos círculos políticos internos ucranianos. Mesmo dentro do próprio partido no poder, a Ucrânia é capaz de expressar sua oposição às ações das autoridades bielorrussas e, apesar das vozes pró-russas dentro do país, procura entrar em consonância com a opinião pública na União Europeia.

Cenários futuros

As manifestações pós-eleição no país, inicialmente pela recontagem dos votos, cresceram e se transformaram em manifestações contra o governo Lukashenko. Isolado, sem apoio ocidental e mesmo da maioria de países em situação similar perante a hegemonia geopolítica russa, a Bielorrússia foi levada a buscar apoio em Moscou. Motivo de críticas durante a campanha, a Rússia agora foi a grande beneficiária da crise que se instaurou no país. Sem chances de repetir a trajetória ucraniana, a Bielorrússia parece estar com seu destino atrelado à Federação Russa. O próprio presidente Lukashenko tem recorrido às teorias conspiratórias para justificar o movimento de oposição ao seu governo como um plano da OTAN para jogar seu Estado contra a Rússia.

A própria candidata de oposição, Tsikhanouskaia, foi quem disse ao adotar um tom neutro, que “a revolução na Bielorrússia não é uma revolução geopolítica”. Em suas palavras: “Não é uma revolução anti-russa nem pró-russa. Não é nem anti-UE nem pró-UE. É uma revolução democrática. A demanda dos bielorrussos é simples: uma eleição livre e justa”.

A pressão tem sido enorme para Lukashenko, o Presidente tem sido vaiado por operários, que considerava seus “ aliados naturais”, além de greves que têm irrompido pelo território. Por seu turno, propôs a realização de reformas constitucionais que permitam tirar o país da crise.

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Protestos em Minsk contra o governo Lukashenko

A Bielorrússia apresenta hoje uma massa crescente de descontentes com o regime, mas, como consequência do longo período que Lukashenko detém o poder, apresenta uma frágil oposição, assim como a ausência de uma classe empresarial com poder suficiente para influenciar a política nacional ao ponto de confrontar o Presidente.

Outro detalhe dessa crise é que a Rússia não interveio da mesma forma como o fez na Ucrânia. Uma intervenção explícita poderia ter efeitos contrários, como insuflar a oposição anti-russa, tímida, mas com potencial de crescer fundindo sentimentos nacionalistas com manifestações pró-democracia. O fato é que, no cenário externo, o papel do vizinho russo será definidor do que teremos para o futuro da Bielorrússia, mas cabe lembrar que a Federação Russa não é uma réplica atualizada da antiga União Soviética. A anexação territorial não deixou de existir, vide o recente caso da Crimeia, mas é menos frequente. Se antes existia um amplo domínio sobre seus aliados, que eram, na verdade, subordinados, a Rússia atual é muito mais calculista: seu apoio é amplamente condicional e sugere uma lógica da barganha.

Uma possível escalada do conflito, improvável, mas não impossível, levaria à interferência da OTAN e, por extensão, dos Estados Unidos. Moscou, bastante ocupada com manifestações políticas na periferia de seu território, adota uma postura mais cautelosa, negociando com lideranças antes adversas a sua influência, como Aleksandr Lukashenko. Washington, por enquanto, tem em seu menu de possibilidades um bloco mais desunido, com flancos expostos à sua influência.

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Notas:

Em 1991, o país adotou o nome Belarus,mas, na língua portuguesa, ele ainda é chamado, oficialmente, de República da Bielorrússia, que é uma transcrição literal do russo “Rússia Branca”.

** EAEU, na sigla em inglês, de Eurasian Economic Union.

*** São integrantes da União Econômica Euroasiática (UEE), a República da Armênia, a República da Bielorrússia, a República do Cazaquistão, a República do Quirguistão e a Federação Russa.

**** Empresa militar privada que coopera com o Serviço de Inteligência Estrangeiro Russo.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 “Colagem com as bandeiras da Rússia, Bielorrússia e Ucrânia, respectivamente — Adaptação das imagens produzidas por Nicolas Raymond” (Fonte):

http://freestock.ca/flags_maps_g80-russia_grunge_flag_p1032.htmlhttp://freestock.ca/flags_maps_g80-belarus_grunge_flag_p1101.htmlhttp://freestock.ca/flags_maps_g80-ukraine_grunge_flag_p1080.html

Imagem 2 Aleksandr Lukashenko, em 2015, na reunião dos BRICS”(Fonte):

http://kremlin.ru/events/president/news/49888/photos

Imagem 3 Sviatlana Tsikhanouskayacandidata de oposição à eleição presidencial bielorrussa em 2020” (Fonte):

Imagem 4 “Mapa da OTAN, com o símbolo da organização, 2020” (Fonte):

Imagem 5 “Mapa com os países-membros da União Econômica Eurasiana (EAEU, na sigla em inglês)” (Fonte):

Imagem 6 “Protestos em MinskBielorrússia, contra o governo Lukashenko” (Fonte):

https://pixabay.com/photos/minsk-belarus-protest-capital-5512944/

O Estado-Tampão Ucraniano

O nome Ucrânia significa, literalmente, “ no limite”, “ fronteira”, “ margem” e, embora seja um país reconhecido mundialmente, para a geopolítica russa seu significado etimológico vale na prática. Como bem asseverou George Friedman, “a Ucrânia é tão importante para a Rússia quanto o Texas para os Estados Unidos e a Escócia para a Inglaterra”. O país paga um preço por sua localização estratégica, sempre situada na borda de impérios ou grandes potências. Nos séculos XVII e XVIII foi dividida entre a Polônia, a Rússia e o Império Otomano; no século XIX, pela Rússia e pelo Império Austro-Húngaro; no século XX foi livre por um breve período após a I Guerra Mundial, para, depois, fazer parte da União Soviética na maior parte da sua história moderna.

Em termos de controle territorial efetivo, a Ucrânia é um país dividido em três domínios: o Leste, com as províncias de Donetsk e Lugansk — na denominada região de Donbass — nas mãos de rebeldes separatistas (chamados de “ terroristas” por Kiev); o Centro e o Oeste, sob administração da capital ucraniana; e a Península da Crimeia, sob controle da Rússia. Essa situação começou a ser gerada em 2013, quando o então presidente Viktor Yanukovych se negou a assinar os termos de um acordo de cooperação com a União Europeia para buscar apoio com o Kremlin.

Este foi o estopim para uma série de protestos — o Euromaidan — que se estenderiam por 2014 acompanhados de repressão. Sem condições de governar, Yanukovich deixa o país e se refugia, provavelmente na Rússia, com paradeiro desconhecido. As acusações de violência de um governante pró-russo facilitaram a chegada ao poder de Petro Poroshenko, magnata ucraniano formalmente comprometido com as reformas modernizantes para futura integração com a União Europeia.

Kiev foi o epicentro dos acontecimentos que representavam o centro e o oeste do país, cuja maioria de seus habitantes fala o ucraniano e se sente motivada a integrar a União Europeia. Mas, o mesmo não era válido para o leste e sul, mais “ eurocético”. Na esteira dos acontecimentos, o referendo da Crimeia em 16 de março de 2014 sobre a possibilidade de se juntar à Rússia, com 96,77% de aprovação, deu a “ legitimidade” para que a Rússia anexasse a península e fosse dado apoio militar e humanitário aos rebeldes no Donbass, levando a uma animosidade crescente entre os governos russo e ucraniano.

Restou à Ucrânia manter estratégias complementares em três níveis de atuação:

1ª. Militar — as tropas ucranianas lutam na frente de batalha contra as forças separatistas pró-russas;

2ª. Diplomática — Kiev busca apoio da comunidade internacional, embora seja uma estratégia difícil na medida em que a Rússia faz parte do Conselho de Segurança da ONU, com poder de vetar determinadas Resoluções;

3ª. Econômica — busca de apoio na aplicação de sanções contra a Rússia e na criação de incentivos para o término da guerra.

Seja em seu passado ou no seu presente, a Ucrânia não é só dividida por forças externas, mas também apresenta uma dicotomia interna entre grupos étnicos e linguísticos com opções e visões políticas majoritárias antagônicas. Entre uma nação pró-russa ou pró-europeia há uma terceira via de estruturação política: o chamado “ estado-tampão”. A ideia é seguir um modelo independente em que não se alie a nenhum dos poderes que disputa seu apoio, especialmente sem formular sua política externa de acordo com o interesse de nenhum outro governo estrangeiro, leia-se Moscou ou Washington.

No entanto, conforme tem sido observado, sua aplicação não é algo fácil, especialmente quando lideranças locais desejam uma maior integração com um outro país, com uma ou outra economia. Enquanto empresários e profissionais autônomos desejam ampliar seus laços com polos próximos, em cidades como Varsóvia ou Frankfurt, o Leste, com a indústria de extração mineral, vê o mercado russo como um porto seguro para seus empregos e modo de vida.

Embora haja casos bem-sucedidos de Estados-tampão na história, como a Finlândia, a Suécia e Áustria o foram durante a Guerra Fria, ou a Suíça durante séculos, nem sempre houve sucesso, como se viu no caso da Bélgica durante a I Guerra Mundial, da Polônia no Entre Guerras, ou do Afeganistão no século XIX. Além disso, não se pode descartar as constantes intrigas internas que irão ocorrer pela busca de apoio externo e acusações mútuas de interferência. Normalmente, Estados-tampão funcionais são aqueles que não apresentam grau de ameaça alguma para seus vizinhos ou potências em disputa, e, conforme se observa, este não é o caso da Ucrânia.

Em termos militares, a vantagem para Moscou nesta disputa é que não há um interesse concreto na invasão militar por parte da OTAN, nem tampouco em armar a Ucrânia, pois os custos e riscos de uma operação desta monta seriam muito elevados.

Para a Rússia, a Ucrânia oferece: (a) posição estratégica e (b) produtos agrícolas e minerais. Enquanto que os últimos têm grande importância, o primeiro é fundamental para a existência da Federação Russa. A longa linha de fronteira e a distância de apenas 490 quilômetros do território ucraniano em uma topografia plana, de fácil travessia, tornam sua defesa imprescindível.

Acrescente-se que os portos ucranianos de Odessa e de Sevastopol na Crimeia são mais importantes que o de Novorossiysk, localizada no Krai de Krasnodar e ponto chave de acesso ao Mar Negro, e permitem a presença e influência russas nos mares Negro e Mediterrâneo. Os outros portos russos ao norte, no Báltico, têm seus mares congelados no inverno e podem ser bloqueados pela Groenlândia-Islândia-Reino Unido a oeste; pela Dinamarca no Báltico; e pelo Japão no extremo Leste.

Uma Ucrânia neutra pode ser algo desejável, mas não é garantia de estabilidade do ponto de vista russo, dadas as possibilidades de mudança da percepção social (como já ocorreu) e de posição política interna. Acredita-se que o caminho esteja na constituição de parcerias internacionais para um desenvolvimento conjunto. Daniel Drezner avaliou a melhor solução para conflito que passa pela restauração econômica do país: “Para salvar a Ucrânia e, eventualmente, restaurar uma relação de trabalho com Moscou, o Ocidente deve procurar fazer da Ucrânia um estado neutro entre a Rússia e a OTAN. Deveria se parecer com a Áustria durante a Guerra Fria. Para esse fim, o Ocidente deveria explicitamente tirar a expansão da União Europeia e da Otan, e enfatizar que seu objetivo é uma Ucrânia não alinhada que não ameace a Rússia. Os Estados Unidos e seus aliados também devem trabalhar com Putin para resgatar a economia da Ucrânia, uma meta que é claramente do interesse de todos”.

A Ucrânia é interesse estratégico para a Rússia, e grandes potências não abandonam seus interesses estratégicos. Nesse sentido, conforme vem sendo destacado por analistas, armar o país é ideia arriscada que potencializaria a crise. Pelos elementos observados, conclui-se que os líderes russos não vão aceitar a retirada da Ucrânia de sua órbita de influência e a solução para o conflito não passa pelo confronto, mas pela diplomacia.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Encontro entre Viktor Yanukovych e Vladimir Putin” ( Fonte): http://en.kremlin.ru/events/president/news/16298

Imagem 2 Mapa da Orientação Geopolítica da População Ucraniana,2015” ( Fonte): http://soc-research.info/blog/index_files/category-geopolitics.html


Originally published at https://ceiri.news on May 13, 2019.

A Primavera Que Praga Deu Ao Mundo

21 de agosto, 49 anos atrás, tanques soviéticos arrastam tudo pela frente em Praga, capital da então Tchecoslováquia pondo fim ao período de abertura democrática conhecido como “Primavera de Praga”. Duas décadas depois, os efeitos desse pequeno experimento que tentou mudar o “rosto do socialismo” conseguiu mudar a face de um continente, como se um antídoto contra o totalitarismo ressurgisse das cinzas.

O comunismo foi derrotado e mesmo tentem trazer este lixo histórico pela porta dos fundos de nossas nações, ele será novamente extirpado como uma célula cancerosa. A Tchecoslováquia nos forneceu o protocolo médico para curarmos esta patologia social, mas depende de nós diagnosticá-lo.

Cf. https://youtu.be/P76FtHq7mL4

Os tchecoslovacos acreditavam em algo que chamavam de “socialismo com rosto humano”. Independente de haver alguma contradição nisto, seu país foi invadido brutalmente pela URSS mostrando claramente ao mundo quem mandava naquela região entendendo ‘região’ por quase todo centro-leste europeu. Diferentemente dos dias atuais, nos quais as fronteiras são muito mais diluídas e a migração entre nações é intensa, o continente europeu encontrava-se fortemente dividido entre dois sistemas econômicos opostos, um que defendia a propriedade privada e outro, cuja propriedade dos meios de produção era totalmente controlada pelo estado. No entanto, esta verdade é parcial, pois exceções como a Iugoslávia, que permitiam algum grau de (pequena) propriedade privada eram regidos politicamente por um único partido, o Comunista. Ou seja, a ditadura fazia parte de seu DNA político-ideológico e essa diferença substancial foi constantemente relegada a segundo plano por nossos acadêmicos esquerdistas. A oposição entre democracia do chamado “mundo livre” e a “ditadura do proletariado” que, na verdade era do partido único era uma diferença que coroava o processo de monopólio da propriedade ao seu total controle pelo estado.

Após a II Guerra Mundial, os partidos comunistas foram alçados ao poder com facilidade no leste europeu e se entende por que. Assim como os EUA foram responsáveis pela libertação do jugo nazista no ocidente, no leste foi a URSS pouco importando se o comunismo era tão totalitário ou genocida quanto o nazismo, para os povos locais se tratavam de libertadores. Lembrem que o acesso à informação não era como nos dias de hoje onde uma simples busca revela dados e diversas interpretações que nos permite decidir e julgar com maior facilidade. Vivíamos épocas em que se demorava anos, décadas para que informações alternativas viessem a público.

Vejam este vídeo: https://youtu.be/OgaL-wJMWQU, Nikita Krushev, o líder soviético da época era avesso à formalidade e queria que a URSS, gradualmente, se abrisse (ele foi uma espécie de antecessor de Gorbatchev), mas ainda acreditava no sucesso do socialismo. Ele ordenou uma mostra da produção americana no país… Veja os comentários (hilariantes) sobre a Coca-Cola e que os homens esperavam dela: será que deixa bêbado?!

Neste vídeo aí acima vejam a “segurança no trabalho” aos 3:50…

Logo depois aos 5:30 mostra a desigualdade permitida sob a ideologia da desigualdade em que militares qualificados ganhavam bem mais e recebiam imóveis do estado soviético.

Aos 7min vejam o que diz um líder operário: a cada provocação dos militares americanos produziremos mais aço. Era claro que sua produção se destinava à indústria armamentista, o país se tornava uma máquina de guerra.

E revelador, um ex-chefe da KGB (o serviço de inteligência soviético) dizendo que “o ocidente nos ajudou”, pois sua política criou medo que nos permitiu exigir mais de nosso povo. Se entenderam, ambas as máquinas de guerra americana e soviética formavam um ciclo vicioso que incentivavam-se mutuamente a aumentar seus arsenais e poder.

“Tínhamos um país inteiro com muitos recursos em mãos, então por que nos vestíamos tão mal, por que não comíamos o que queríamos, mas o que havia? A resposta era simples: o Tio Sam estava construindo uma Bomba Atômica e tínhamos que construir duas; se ele construía duas tínhamos que construir quatro…” – homem que fora adolescente nos 60.

Uma professora da época disse que “vivíamos em apartamentos comunais, com 1, 2 ou até 4 quartos e em cada um havia uma família”. Sim, com uma cozinha e um banheiro para todos.

Kruschev se guiava pelo seu senso comum, não tinha conhecimento da economia e do liberalismo, óbvio, mas percebeu esta insatisfação e guiou a indústria para a produção de bens de consumo produzindo apartamentos pré-fabricados, mas ainda assim as prateleiras dos mercados tinham pouca comida. Qualquer cereal, massa ou pão tinha filas para se conseguir comprá-lo.

Era um líder dotado de romantismo, que inspirava os soviéticos, mas como todo comunista, equivocado para não dizer burro mesmo… Ao invés de permitir a livre-empresa que levaria ao aumento da produção pela concorrência – o que é, essencialmente, anticomunista, claro -, sua campanha de aumento da produção de carne, leite e grãos se baseou na exploração das chamadas “terras virgens”, i.e., a Ásia Central. E cá entre nós, terra era o que não faltava na ex-URSS.

Esqueceu, no entanto, que elas ficavam distantes e faltavam vagões, caminhões para seu transporte, silos para armazenagem e fertilizantes para alcançar a produtividade necessária. A consequência óbvia: grande parte da colheita foi perdida.

Para comprar certos gêneros tinha que se viajar, como até Moscou que concentrava a maioria dos mercados distribuidores. Crianças passavam o dia ajudando suas mães carregando mochilas com o peso das compras. Era como uma cerimônia. Mas a subversão tem outros caminhos. Nos anos 60, as “calças pantalonas” entraram no país e eram proibidas! Jovens eram reprimidos pela polícia ao usarem-nas.

A “guerra das calças” consistia na repressão policial ao ver um jovem vestido a moda ocidental, “estilo inglês” e não soviético. O garoto era tirado da multidão e levado a uma delegacia onde cortavam as calças e o cabelo, depois devolvido. As pessoas hoje em dia não têm mais ideia do que a moda representava em termos de contracultura e como isto ajudava a revolucionar mentes e padrões de comportamento que podiam atingir o cerne da política. Enquanto que conservadores americanos diziam que os hippies eram “sinal de influência subversiva comunista”, os soviéticos por seu turno acusavam-nos de “sintoma da decadência do capitalismo”. Claro que nenhum deles estava certo.

“A sociedade estava tentando se arrastar debaixo das pedras do totalitarismo”… Discos não podiam ser importados ou produzidos livremente, mas isto não impedia o contrabando de rádios. Não é a toa que na recente campanha do Afeganistão, os EUA lançaram rádios a corda para que os afegãos pudessem ouvir notícias sobre a guerra que não passassem pelo crivo e controle do Talebã. A propaganda e a informação não costuma ser bem analisada como arma de guerra que é, mas regimes caem com sua força. Lembram-se da derrocada de Nicolau Ceuacescu na Romênia. O ditador tentou esconder de seu povo, as transformações que ocorriam no Leste Europeu até que os protestos cresciam em suas aparições públicas. Numa dessas, a repressão levou milhares a morte para depois executarem o tirano e sua mulher em praça pública. A pergunta é, como o povo já sabia o que acontecia e exigia o mesmo? Como? Quem pensou em contrabando e parabólicas acertou em cheio. Sim, não é a toa também que a Romênia tem hoje a 2ª melhor rede de internet do mundo, pois quando as companhias entraram no país já puderam encontrar uma rede previamente estabelecida de intranet que facilitou o trabalho. Alguém aí já ouviu falar em liberdade de empresa? Os romenos derrubaram o comunismo exercendo ela e todos seus benefícios decorrentes, como a liberdade de opinião. Pena que Ceaucescu não estava conectado ou não… Assim ele pode ficar de fora sem reprimir ninguém no acesso à informação. O que, diga-se de passagem, Pequim sabe muito bem ao impedir que se acesse qualquer link com a palavra democracia de seu país.

Algumas coisas soam inauditas para nós, em nosso tempo e sociedade. Imagine o poder revolucionário de poesias amorosas: aos 22min um poeta russo disse como se tornou popular ao usar o termo eu ao invés de nós, “eu te amo” ao invés de “nós amamos”, como isso tocou fundo no coração da população. Se vocês perceberem era o advento do indivíduo em contraposição a um longo período da história dominado por uma ideologia coletivista. Analogamente, esta é uma das (uma das) razões do sucesso dos Beatles no ocidente, que usava e abusava do termo _me colocando intimidade via rádio dentro dos lares britânicos. É uma torrente que estava reprimida e viria como uma inundação após o rompimento de diques. Subterraneamente as sensibilidades estavam sendo preparadas para derrubar um regime opressivo. Faltava o estopim.

É impressionante o grau de loucura ideológica quando este poeta contou como teve uma poesia sua acusada de “antisoviética” porque falava de solidão. Como podia ele, um homem do povo, da imensidão coletiva se sentir sozinho?! Assim raciocinava o membro do partido, o comitê que perseguia jovens censurando-os pelo seu comportamento e chamando para reuniões de “orientação” exatamente como criaram agora na nova constituição venezuelana – centros de correção para quem divergir dos ideias revolucionários-bolivarianos.

Em 1962, a linha dura do Partido Comunista da União Soviética (PCUS) queria apertar o cerco a qualquer forma de dissidência ou traço cultural que a incentivasse. Então convidou Nikita Kruschev para uma mostra de arte moderna. Vocês já podem imaginar que o Secretário Geral do Partido ficou chocado, muito chocado. “Algumas telas estão inacabadas…” – disse Kruschev. – Por que não pintam as paisagens da nossa pátria? Onde estão os rostos dessas pessoas pintadas nos quadros? E por aí foi. – Por que eles odeiam os rostos dos nossos trabalhadores soviéticos…, foi o que ouviu.

Para um camponês alçado ao cargo máximo do país, o máximo em arte era a música clássica, a música folclórica, um quadro realista onde uma floresta era uma floresta, não essa arte de vanguarda que requeria poder de interpretação que lhe era alheio. E os ideólogos de partido tripudiaram em cima de sua ignorância ao lhe dizer que era bom que não entendesse, pois esta era “uma forma da decadência burguesa atacar nossa sociedade pura”.

Vejam o que está em jogo aqui, a censura que os soviéticos impunham internamente passou a se refletir, ferozmente no cenário doméstico de seus aliados. O líder tchecoslovaco impedia qualquer reforma com mão de ferro e todos jovens que tinha na produção cultural sua lida não encontravam saída: sabiam que criticar o comunismo era suicídio. Mais fácil enfocar temas abstratos, longe da crítica ideológica, o que não era fácil, pois isso os obrigava a serem desonestos consigo próprios, pois o subproduto da censura era a autocensura e a hipocrisia. Vaclav Havel, quem iria se tornar o chefe de estado com o fim do comunismo no país era um desses, um jovem dramaturgo.

Enquanto isso Kruschev não desistia, se no plano cultural o comunismo apertava com punho de aço a liberdade de expressão, no campo seus arados eram frágeis e insuficientes, sem tecnologia agrícola que levasse ao aumento de produtividade. A imposição para que todos plantassem milho nos rigores do clima russo era uma asneira digna de um Q.I. de ungulado. Só para se ter uma ideia da insanidade, meninos e meninas no campo tinham que acender fogueiras no campo a noite para impedir que o milho se congelasse. Como eram obrigados a controla-la, dormiam e acordavam com as mãos ou rosto sendo queimados. Tudo em nome de uma ideologia estúpida, uma ignorância que é repetida até os dias de hoje para nossos jovens por sanguessugas nas universidades que escondem a verdade sob este rosário de mentiras que foi o comunismo, uma ideologia contrária a liberdade e ao indivíduo onde decidir o que e como produzir eram vistos como pecado e traição.

Um ano após Kruschev ter censurado seus artistas, o inverno foi inclemente e quebrou suas safras de milho e trigo. Crianças choraram no campo ao ver que suas táticas não venceram o clima russo, o mesmo que derrotou Napoleão, Hitler a ainda mantém a horda islâmica afastada do heartland asiático, o coração da Mãe Rússia. Entendam o seguinte: por mais nacionalista e comunista que fosse um russo, neste ano ele amaldiçoou Kruschev por que embora fossem pobres em um país imensamente rico, os russos nunca tinham ficado sem pão. Não, até aquele ano… E o impensável aconteceu, a Rússia foi obrigada a importar comida, trigo mais especificamente e de quem? Deles, dos Estados Unidos da América. A História é mesmo surpreendente, não? Enfie este orgulho no C*, seu comunista de B**! A economia não obedece ideologias, ela se faz e nós temos que aprender com ela.

Enquanto que o Ocidente se divertia com sua figura simplória e divertida, internamente Kruschev era visto como um PALHAÇO e pior, um IRRESPONSÁVEL. Além da crise interna, o país quase foi a guerra nuclear após uma desastrada crise tendo beneficiado um pústula como Fidel Castro por colocar mísseis soviéticos em Cuba ameaçando os EUA. Sem sangue, a cúpula do PCUS o depôs preparando o caminho para seu sucessor, Leonid Brejnev.

Um ano antes de eu nascer, em 1964 Kruschev foi deposto e nunca mais voltou. Se retirou em sua dacha (casa de campo dos líderes soviéticos) e curtiu uma depressão temporária. Na URSS, o regime se estabilizava, mas só internamente… No plano externo, a inquietação tomava conta do império e o líder tchecoslovaco não conseguia mais conter os reformistas. O “socialismo com rosto humano” inaugurado em 1968 na Tchecoslováquia só tinha um rosto e humano porque perdera seu poder comunista, o partido governava com consentimento, a liberdade de expressão nascera junto com… Uma Economia de Mercado. Era demais para os soviéticos.

A liberdade vinha em espasmos e a sensação de poder falar o que quisesse vinha acompanhada da paranoia (necessária) de olhar por cima dos ombros para ver se não era espionado. Eram surtos de alegria intercalados pelo medo. Alexander Dubcek, primeiro ministro tchecoslovaco fora avisado durante meses e quando tentou atender às ordens soviéticas já era tarde demais. Não era só uma questão de que opiniões anticomunistas e antissoviéticas estivessem a luz do dia em jornais, mas que isto significava um claro enfraquecimento do poder tecido durante anos na Guerra Fria e cedo ou mais tarde levaria as tropas da OTAN chegarem às fronteiras soviéticas. Desta vez era um ganha-perde territorial e não uma simples mostra de arte de vanguarda fracassada. No dia 21 de agosto de 1968 paraquedistas russos desceram dos céus empunhando suas AK-47 e uma simples verdade se tornou óbvia: não é possível ter comunismo e liberdade. Na manhã seguinte, os tanques soviéticos deslocavam-se pelo centro da capital e a população atônita perguntava o que tinha acontecido, afinal eram aqueles que se diziam seus irmãos por anos. Os disparos começaram e o primeiro corpo, de um menino foi ao chão. A repressão comunista não começara, ela já existia, mas agora quem tinha alguma dúvida poderia abandona-la. Em 1939, os tchecos tiveram seu país invadido por Hitler e podiam esperar o pior, mas agora se sentiam traídos, mortos no que acharam ser possível, enganados por uma ideologia.

Em 1968, a primavera morreu para o povo daquele pequeno país encravado no coração da Europa, mas as sementes das flores iriam germinar por todo o continente duas décadas após carregadas pelos ventos da liberdade.

 

Anselmo Heidrich

Boa noite,

2017-08-21

 

(Fonte da imagem: http://www.tresbohemes.com/2015/08/the-day-the-tanks-came/)

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