Busca

Anselmo Heidrich

Defendo uma sociedade livre baseada no governo limitado e estado mínimo.

Tag

demografia

Demografia e Decadência

 

Não há muito a prever, mas há muito a dizer. A demografia é daquelas condições da qual não se pode ignorar, não para quem deve se dizer estadistaou para os que desejam um desses para nosso país. Portanto, sonde seu candidato nesse e outros temas, ao invés de buscar suas qualidades míticas…

O site UOL divulgou pesquisa sobre as tendências da composição etária do país, principalmente na distribuição de jovens e idosos (mais de 65 anos). Isto é, mantido o atual ritmo de declínio das taxas de natalidade e mortalidade, em um prazo de duas décadas, o Brasil será um país com mais idosos do que jovens na grande maioria de seus estados. E isto nos convoca, sim, se trata de um verdadeiro chamado a Razão para que reformas sejam, urgentemente, feitas. Urgentemente.

O que sustenta nosso esquema (público) de aposentadorias é a tributação da parcela ativa (trabalhadora) da população e, claro, devidamente registrada no Ministério do Trabalho. Que há mais gente trabalhando do que temos com carteiras profissionais não há dúvida, mas para o esquema de funcionamento da pirâmide da previdência só contamos com os que pagam impostos e têm parcelas recolhidas diretamente na fonte. Pensando desta forma limitada, sem considerar esquemas alternativos, privados ou mistos na previdência social, a fórmula atual é uma bomba relógio pronta para estourar, na qual teremos muito em breve (em termos históricos), idosos na mais completa situação de penúria.

São apenas cinco mandatos presidenciais para tentarmos reverter este quadro. Se a Reforma da Previdência não for feita agora ou no próximo mandato, essa gente vai simplesmente apodrecer e morrer em casa, mesmo porque a mão de obra da saúde não ficará aqui vendo o navio afundar. A relação entre idosos e jovens vai mudar completamente. Hoje temos cerca de 43% de idosos em relação ao total de jovens, mas em 2031, tende a ser mais de 100%. Segundo a matéria:

A projeção é feita com base no índice de envelhecimento da população, que é a razão entre os dois grupos etários. Atualmente, o indicador é de 43,2% de idosos com 65 anos ou mais para cada cem crianças de até 14 anos. Daqui a 21 anos, na média nacional, a estatística ultrapassaria os 100%. [IBGE projeta Brasil com mais idosos do que crianças em 21 anos]

Obviamente, que a mudança não é uniforme, o Rio Grande do Sul já superará a marca em 2029, Rio de Janeiro e Minas Gerais, quatro anos mais tarde. Essa é a tendência geral para todos os estados brasileiros, com exceção de Amazonas e Roraima que em 2060 ainda teriam mais jovens que idosos, mas como se diz, serão exceções que confirmariam a regra, caso as atuais tendências se mantenham. Agora, já lhes passou pela cabeça a extinção do gaúcho e a formação de um estado-pária em Roraima?

O gaúcho vai se extinguir, pois tendo mais idosos que jovens por volta de 2030, a população declina, morrendo dois para cada um que permanece vivo. Brincadeira… Temos que considerar a imigração no cálculo, mas não resisti ao comentário só para irritar meus conterrâneos tradicionalistas. O fato é que a população do estado não é formada só pelo crescimento vegetativo (natalidade menos mortalidade), a própria colonização no seu passado veio de outros estados, como os Bandeirantes.

Agora, o que é um estado? Uma de suas condições necessárias, em tese é a capacidade de auto-financiamento, de gerar receita própria — calma! eu disse, “em tese” — o que não se observa em estados como Roraima e que tende a piorar com isso. Imagine a vida do jovem nesse estado que hoje tem mais de 34 áreas indígenas que perfazem mais de 46% do seu território, alguma chance de se empregar e crescer trabalhando? Alguém quer fazer um bolão para apostar que mais gente irá resgatar sua “ancestralidade indígena” para viver de algum esquema de financiamento?

Outra desigualdade induzida — por quem? ora, pelo estado-provedor — é a diferença no tratamento entre homens e mulheres. Se atualmente as mulheres (79,8 anos) vivem em média quase sete anos a mais que os homens (72,7), por que diabos podem se aposentar mais cedo? E essa diferença está prevista para se manter até 2060 (84,2 para as mulheres; 77,9 para os homens). Ok, se ainda pensam que há razão para isso, mas onde deveriam enfiar aquele discurso de que elas “são iguais aos homens”?

E por fim, mas não finalmente, mais um alerta para quem acha que basta transferir recursos de outros setores (afinal é assim que se faz por aqui) para a previdência social. A conta não aumentará apenas porque teremos mais idosos, mas porque o número de dependentes aumentará:

Em 2060, o país teria 67,2% de cidadãos considerados dependentes (acima dos 65 ou abaixo dos 15 anos) para cada cem pessoas em idade de trabalhar. A razão de dependência hoje é de 44%.

Pior que isso? Sei lá, talvez um apocalipse zumbi… Piorado, com residentes das casas de repouso fugindo dos morto-vivos com seus andadores. Ou seja, em um cenário futurista do Brasil, a série Walking Dead não teria graça nenhuma, tamanha a disparidade de chances entre caça e caçadores.

Anselmo Heidrich

É a demografia, estúpido! (1)

Há cerca de 200 anos atrás tínhamos 1 bilhão de seres humanos sobre a face do nosso planetinha, hoje contabilizamos cerca de 7 bilhões. A novidade é menos o número em si do que seu crescimento, ao passo que no passado o crescimento era lento, a partir de um dado ponto na linha de tempo da história, ele salta. No milênio passado, esse crescimento foi três vezes maior do que todo a história da humanidade anterior – de 1,5 bilhão saltamos para 6,1 em apenas um século.

Nosso crescimento populacional acelerado atingiu um pico no início dos anos 60, quando aumentava cerca de 2,1% a.a. De lá para cá caiu, o crescimento, não a população, o que significa uma coisa: desaceleração. Cresci em um mundo que tinha uma certeza, a superpopulação é um problema indiscutível e vejo que hoje a percepção mudou, ninguém considera mais isto seriamente, com exceção talvez de grupos ambientalistas radicais, ludditas na verdade.

Basicamente, nossa história demográfica mundial se divide em três atos:

  • A pré-modernidade, com um longo e lento crescimento da população mundial marcado por altas taxas de natalidade e mortalidade que se compensavam;
  • A modernidade até os anos 60, quando atingimos um pico de crescimento graças ao crescente padrão de vida mundial (avanço da medicina preventiva) que levou às quedas de mortalidade e, consequentemente, aumento da expectativa de vida;
  • O fim do período de crescimento acelerado com redução das taxas de natalidade que ainda matem o incremento da população, porém em um ritmo bem inferior. Como resultado destas duas variáveis, o aumento da expectativa de vida e a redução dos nascimentos temos a modificação da estrutura populacional, com diminuição relativa do número de jovens e aumento de idosos. Obviamente que isto demanda alterações e adaptações da economia e, o que não é tão claro e óbvio, dos padrões de comportamento.

Isto é o básico para podermos avançar em qualquer assunto relativo à demografia. Mas por que o alerta “estúpido!”? Justamente porque a demografia tem sido relegada a um campo secundário de fatores e causas de mudanças sociais. Ao agir no longo prazo nos acostamos a ignorá-la e não perceber que constitui realidades inegáveis com as quais os diversos agentes políticos e econômicos terão que lidar. Dar uma maior peso à visões administrativas, culturas e ideologias sem associá-las ao peso do número bruto e relativo é como analisar o papel de reagentes em química sem ver sua quantidade em qualquer solução.

Anselmo Heidrich

Adaptado de: https://ourworldindata.org/world-population-growth/

 

 

A Urgente Reforma da Previdência[*]

As razões para a reforma são simples, são demográficas. O Brasil sofre um processo de envelhecimento e está sendo rápido. Nos anos 80, a população de jovens era muito maior que de adultos, mas nos anos 90 se inverteu esta relação. E nos anos 2000 ficou ainda mais crítica com a redução proporcional de jovens, inversamente proporcional ao aumento de idosos.

O desequilíbrio se reflete nas finanças públicas na medida que as aposentadorias são corrigidas pelo aumento do PIB e da inflação. Como mais e mais aposentados estão se aposentando, sem o devido aumento proporcional da produtividade do trabalho, isto significa que o estado brasileiro tem que arcar com mais benefícios do que é capaz de arrecadar para sua manutenção. Estamos gastando mais recursos do que depositando no fundo previdenciário. Não vejo outra forma de enchê-lo sem aumento de impostos, caso o governo não faça a reforma previdenciária.

Há mais razões para uma reforma: o setor público pode se aposentar com 100% de seus rendimentos, enquanto o mesmo não ocorre no setor privado que apresenta um teto máximo de cinco salários mínimos. Há mais distorções, os trabalhadores rurais se aposentam com apenas um salário mínimo aos 65 anos, mas nunca tiveram que contribuir com nada. Na prática, o Brasil investe mais em idosos do que em jovens porque este benefício é mais amplo do que o Bolsa-Família.

O problema é que há pontos da reforma que realmente causam indignação, como a aposentadoria (integral) de políticos após, apenas dois mandatos. Embora este seja um valor total insignificante perante o volume de gastos com a aposentadoria, ele é profundamente imoral. Se quisermos o apoio da população em geral às reformas é fundamental que se ataque privilégios de qualquer casta política ou de altos funcionários do setor público. Professores também fazem muito barulho se declarando injustiçados pelo sistema e pleiteiam benefícios como o pagamento por insalubridade e a aposentadoria precoce. Cabe lembrar que professores não atuam em terreno tão insalubre quanto lixeiros e estes não têm condições privilegiadas, quanto ao tempo de aposentadoria para haver um mínimo de racionalidade no que pedem, deveriam contribuir proporcionalmente mais se é que querem mesmo se aposentar mais cedo. Militares também podem se aposentar mais cedo, mas cabe lembrar que têm regime de trabalho diferenciado, sendo escalados para trabalhar aos finais de semana, além de serem deslocados de residência para diversas partes do país.

Enfim, a reforma da previdência “é para ontem”, mas estas injustiças embutidas, graças aos privilégios do setor público é que a torna aquém do ideal.

 

a.h

[*] Confiram o comentário de Fernando Raphael Ferro de Lima, Reforma da Previdência https://youtu.be/V1YAKikseSQ, no qual nos baseamos, sobretudo porque vai muito além deste breve resumo.

Blog no WordPress.com.

Acima ↑