Busca

Anselmo Heidrich

Defendo uma sociedade livre baseada no governo limitado e estado mínimo.

Tag

corrupção

Gente de Bem pode ser Corrupta

Este texto é claramente provocativo, reconheço, mas não é sem sentido. A ideia que vou defender aqui é polêmica, muitos de nossos amigos ou conhecidos podem estar envolvidos em atividades corruptas e se dizerem claramente contra a corrupção, sem perceber que fazem de um esquema maior e mais danoso à sociedade.

Anos atrás conheci um sujeito que trabalhava com prospecção de água em outro país e boa parte de seus clientes, fazendeiros, obtinha recursos para contratar seus serviços com crédito público, do principal banco estatal nacional.[1]

Em tese era algo justo e correto economicamente, o que poderia haver de errado em subsidiar produtores que trariam renda e emprego em regiões que eram pobres, em parte, devido a sua aridez. Só que o sujeito me confessou, na ingenuidade mesmo, como alguns desses clientes, fazendeiros, o recontratavam para sondar as mesmas propriedades ano após ano. Isso mesmo! Esses produtores, alegados produtores, o contratavam para prospectar o que já havia sido pesquisado, mapeado e encontrado nos anos anteriores. E ele sabia que estava errado, notem, embora não tivesse conhecimento legal sobre o assunto.

Vocês já devem estar sentindo nojo do cara, mas isso sempre ocorre quando não se tem proximidade com as pessoas que são acusadas e, por isso mesmo para se acusar e/ou defender alguém se deve ter um bom distanciamento da pessoa, isto é, não conhece-la como amiga ou inimiga. Qualquer operador de leis entenderia isso, mas nesses tempos de ampliação das notícias se faz necessário reforçar esta noção, básica. Obviamente que esses grandes corruptos que vemos constantemente nas manchetes de jornais e sites não são vistos como más pessoas pelo seu círculo de amigos e pessoas com quem mantêm relações.

Pense na ex-assessora de Bolsonaro que ocupava um cargo parlamentar e mantinha atividades como personal trainer no Rio de Janeiro, no mesmo período de trabalho ou outro ex-assessor de Lula que fazia pagamentos em dinheiro a grandes empreiteiras acusadas de reformar o sítio do ex-presidente. Tudo “ex”, não é? Mas relações de compadrio como estas devem estar ocorrendo a todo vapor nos dias de hoje e por quê? Por que são vantajosas para os envolvidos? Não é somente isto, pois elas são condenadas por muitas outras pessoas, o que por si só demoveria muitos de atuarem desta forma. O problema, como já falei, é que isto não é visto como imoral. Não se trata do que é ou não ilegal porque a grande maioria dos cidadãos, onde me incluo, não tem conhecimento dos meandros da lei, se trata do que se vê como moral ou não e nossas relações sociais, grandemente ancoradas, no conceito de ajuda mútua não prescindem do famoso toma-lá-dá-cá, esta é a verdade.

O sujeito do qual lhes falei não era um bandido, tipicamente falando, mas fez parte de uma relação que suga recursos nacionais, de impostos, para sustentar uma máfia difusa, daquelas que age como bactérias se multiplicando e infeccionando o organismo social. E quanto mais aprofundarmos seu estudo, mais veremos que a capilaridade de suas relações perpassa vastas extensões do país. Imagine um mobile de teto como arranjo de quarto… Agora, o nível superior sustenta outros dois que sustentam outros dois que sustentam outros e assim vai. Obviamente que a principal parcela dos recursos está lá em cima e nos fixamos nela quando tecemos nossas críticas, mas sua força consiste na aceitação dos níveis inferiores deste organograma oculto, pois diferentemente do mobile, ele não se sustenta com um gancho no teto, mas com bases sólidas fincadas no chão pelo nosso constante e diário modo de ver e se comportar.

A esta altura do campeonato, muitos de vocês devem estar enxergando nestas linhas uma justificativa para o crime, uma tosca tentativa de passar pano numa das maiores chagas nacionais. Não é não, mas estou indo além de querer focar só em figurões e mostrar a todos vocês como estes mafiosos se legitimam. Meu conhecido me dizia que estes fazendeiros tinham investimentos em propriedades no litoral, apartamentos que alugavam ou revendiam e como não eram produtores, de fato, mas meros especuladores, rêmoras de rent-seeking[2], acabavam por concentrar renda estabelecendo estas falcatruas. Agora, para as comunidades locais onde atuavam, eram padrinhos, conselheiros influenciando até em namoros e casamentos, cujas opiniões não eram impostas, mas demandadas pelos indivíduos que ignoravam completamente o conceito de cidadania como autonomia política. As pessoas delegam sua liberdade e responsabilidade em nome de uma hierarquia informal e aí está boa parte da disseminação da corrupção.

Acho necessário dizer isto quando vejo tantos apoiadores de Bolsonaro justificando que é muito menos do que o que fez o PT. Sim, isto não está em discussão, mas é assim que se começa. Quando o PT era pequeno, financeiramente falando, ouvi de muito esta explicação “ah, se os outros podem por que nós também não?” e, como vocês sabem, deu no que deu. O traço essencial é que o corrupto convicto da corrupção se esconde e mente, o corrupto ideológico justifica seu método para atingir um fim nobre e neste quesito, petistas e bolsonaristas só se diferenciam pelo grau do dano causado, pois são exatamente a mesma coisa.

Não se esqueçam, não se trata de defender corruptos de grande calibre, longe disso, povo, longe disso. Apenas lembre-se de que antes de apontar o dedo para bandidos-mor, nossos pequenos delitos diários são que os mantêm no poder. Reconheça isto para começar um ano novo com a casa em ordem depois do caráter em ordem.

Anselmo Heidrich

2 jan. 20


Imagem “A lemon shark with ramoras in the Bahamas” (fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Lemonshark.jpg


[1] Qualquer um dos casos citados à título de ilustração neste texto não passa de mera coincidência ou invenção do autor.

[2] Rent-seeking consiste numa forma de obter renda com a manipulação do ambiente político e econômico, como fazem os lobbies de grandes companhias ou investidores ligados ao governo. As rêmoras são peixes com ventosas na cabeça que nadam fixadas em tubarões. A figura dá uma ideia do que são os que beneficiam de predadores vorazes que atacam a fauna local.

Devido Processo Legal pra que, né?

Devido Processo Legal, pra que, né?

Por que defender o devido processo legal? Por que defender a lisura da justiça? Sei que isso soa como uma tentativa de defender a soltura de bandidos condenados pela Lava-Jato, especialmente Lula, mas não é… Este, creiam-me, é o menor dos problemas. A oposição JÁ capitalizou politicamente em cima de tudo que aconteceu e não nos deixará esquecer. O problema mesmo é outro e muito maior. O que está por vir, por causa desta “tecnicalidade”, como querem diminuir a gravidade do fato da ausência, não é escassez, mas total ausência de isenção de Moro é muito, muito pior do que tudo que ganhamos ou, supostamente, ganhamos no combate à corrupção.
Seguindo o exemplo de Moro, logo teremos vários juízes torcendo e manipulando processos contra empreendedores porque são favoráveis a organizações de classe sindicalizadas. Daí é que eu quero ver o tiozão patriota comemorar. Quero ver comemorarem quando tudo que é juiz espalhado pelos rincões do país, filhos diletos do coronelato regional achar que tem cheque em branco para fazer o que bem entender com os casos que lhes caírem no colo na defesa de seus interesses e do seu clã.
E quem acha que não irá surgir uma verdadeira “indústria de processos”, muito mais lucrativa do que a alegada “indústria de sentenças” não sabe como a venda parcelada se torna muito mais lucrativa do que vender a vista.
Em um futuro não muito distante, os lúcidos de gerações que ainda não pisaram nesta terra ainda se dividirão em vários grupos políticos, tendências ideológicas como sempre ocorreu, mas serão unânimes em um ponto:
Combater a corrupção com métodos corruptos tem efeitos colaterais tão ou mais deletérios do que a primeira forma.
Não sei como definir o sentimento que tenho por quem idolatra mitos e não enxerga o que está por vir. Só sei caracteriza-lo como um misto de pena e nojo de quem vive para servir, mas não serve para viver.

Anselmo Heidrich
6 jul. 19

DesMOROnou

Sabe qual é a merda? Que enquanto nós, latino-americanos não aprendermos a respeitar as instituições pode colocar o governo que for, com qualquer coloração ideológica, nada vai mudar. Eu estive pensando qual é a razão de um juiz experiente e conhecedor da Lei cometer um erro tão fundamental? É porque esse tipo de conluio deve ser comum entre eles. Te lembra do caso do Flávio Bolsonaro e o amigo do pai, o Queirós que recebia uma verba muito maior do que era sua renda? Ouvi várias vezes esse tipo de argumento ”sempre foi assim, por que só agora?” Porque calhou de ser agora, oras! Se a gente acha que pode porque “vale tudo contra o PT”, qual é o nosso argumento MORAL contra o petista quando ele nos disser a mesma coisa “por que só agora?” Cara, nós simplesmente falhamos enquanto povo que deve seguir a Lei. A Lei é ruim, fraca, ineficaz? Então que se mude a Lei, mas ficar nesses atropelos, nesses atalhos? Sabe o que vai acontecer? Lula será solto. Parabéns Moro, parabéns Dallagnol. Parabéns Lava-Jato, MPF.

Se a bandeira da direita fosse Reinaldo tem razão, ao invés de Olavo tem razão, o Brasil estaria em melhores mãos.

Falar em direito constitucional, mas fica no processo e se lixa pro desvio de processo que o próprio Moro tomou. Engraçado que a ética vale para um lado, mas não vale para outro. Agora vem com a mesma conversa dessa Direita débil-mental de só criticar a origem das denúncias, porque era “de esquerda”. E a verdade onde fica aí? Fica na lata do lixo da História. Agora é bonito ver liberais (aqui ainda existem) babando ovo de cara que defende o estado, que defende a submissão da liberdade individual. Foda-se se o jornalista é de esquerda, atente: ele mostra ou não mostra dados verdadeiros????

Então, se o vazamento dos áudios do Temer trouxeram a alegria da Direita, por que agora não? Se defenderem isso de cara limpa, Ok, nem discuto, mas não me venham falar em construir nossas instituições ou fazer qualquer coisa em função de um Estado de Direito. Isto morreu, o que não morreu foi o ‘Estado de Direita”. O estado brasileiro foi mesmo encampado, é como uma bola de basquete que ficou muito tempo sendo quicado pela Esquerda e agora está com a Direita. Isto é republicanismo? Para mim, não.

Pois é… Imagine um juiz mantendo conversas e ORIENTANDO a defesa de um réu. Bacana né? Nããããããoooooo! Mas e com o promotor pode?! Nem um nem outro, leia a Constituição e o Código de Ética da Magistratura. Este é o Brasil que pensa ser primeiro mundo procurando uns atalhozinhos inocentes…

Mas vai dizer isto que te chamarem de “liberal limpinho” é barato.

Anselmo Heidrich

11 jun. 19

UkrOboronProm: a corrupção no setor de defesa da Ucrânia

Logo da UkrOboronProm, empresa estatal do setor de defesa da Ucrânia: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:UkrOboronProm.svg

Em pleno conflito com os rebeldes separatistas das regiões de Donetsk e Lugansk, na região de Donbass, leste da Ucrânia, o presidente Petro Poroshenko é acusado de participar de um esquema de corrupção envolvendo a estatal do setor de Defesa, a UkrOboronProm (UOP).

Confira meu artigo na íntegra:

UKROBORONPROM: acusações de corrupção no setor de defesa da Ucrânia https://ceiri.news/ukroboronprom-acusacoes-de-corrupcao-no-setor-de-defesa-da-ucrania/ via @ceirinews

In the midst of a clash with separatist rebels in the Donetsk and Lugansk regions in the eastern Donbass region of Ukraine, President Petro Poroshenko is accused of involvement in a corruption scheme involving state defense company UkrOboronProm (UOP).

Check out my article in full:

UKROBORONPROM: allegations of corruption in the Ukrainian defense sector https://ceiri.news/ukroboronprom-acusacoes-de-corrupcao-no-de-defesa-da-ucrania/ via @ceirinews

Brasil e Romênia: a luta anti-corrupção

Acima, Laura Codruța Kovesi, "o Moro de saias romeno". Divulguem o nome dessa heroína.
Fonte: Romania anti-corruption chief hits out at critics ft.com via @financialtimes

Um amigo romeno me enviou esta matéria do NYT que mostra a luta anti-corrupção no país. Lá, eles têm um promotor que trabalha nacionalmente só com isto, que já foi responsável por centenas de processos e prisões, Laura Codruța Kovesi. E eis que o vice-presidente da Câmara dos Deputados Romena, Presidente do Partido Social-Democrata (PSD – Partidul Social Democrat) Liviu Dragnea acusado de desviar milhões de fundos de pensão passou a acusar quem o acusa de formar um “Estado Paralelo”, com táticas semelhantes as do Comunismo Romeno. Balela! Estão se borrando de medo da justiça e fazem parte de um esquema que, de modo similar ao Brasil não sabe o que fazer para sobreviver. Veja o que diz a matéria do NYT:

“(…) about 1,200 people have been indicted on corruption charges, and 1,000 convicted. Among those charged have been 14 government ministers, 39 deputy ministers, 14 senators and one member of the European Parliament. The office has secured 27 convictions in those cases, with most of the rest still pending.”

90% de eficiência no trabalho da promotora, i.e., na captura dos corruptos.

Agora vem a parte mais engraçada: adivinha qual é a retórica dos apoiadores do tradicionalismo corrupto? “Forças ocultas, George Soros, interesses externos” e todo tipo de baboseira que vocês imaginam. Sempre a mesma coisa, né? Incrível como este Soros serve para qualquer coisa, para justifica qualquer acinte contra o Estado de Direito bastando citá-lo para se fazer de santo, se dizer perseguido. Ah! Vira o disco!

E lá como aqui, o sistema judiciário deles se comporta como o nosso STF atrasando e criando estratagemas para aliviar a barra dos presos.

Em diferentes países, os problemas são similares quando não os mesmos e os discursos têm posições e dados diferentes, mas com uma mesma lógica persecutória. Se aqui o tal Soros e a bobagem do Globalismo serve para justificar ações do governo, na Romênia serve para acusar quem é contra o governo. Ao fim das contas, as pessoas prestam menos atenção em problemas reais, no lado empírico dos fenômenos sociais como a corrupção e se perdem em ideologices.

Mr. Dragnea’s party, emboldened by the failure of European Union officials to curb threats to the rule of law in Poland and Hungary, has cast his battle as one against enemies both foreign and domestic.

Cf. Claiming ‘Parallel State’ Cabal, Romania’s Leaders Target Anti-Corruption Prosecutor

Anselmo Heidrich

O PRINCIPAL INGREDIENTE NA LUTA CONTRA A CORRUPÇÃO

(Imagem: For Brazil's white-collar criminals, 2015 was the Year of the Snitch chicagotribune.com)

ANSELMO HEIDRICH[i]

A rigor, a corrupção não é uma doença identificada em alguma classificação estatística de doenças como o CID,[1] mas ela se relaciona a estes efeitos orgânicos em vários sentidos. Em Serra Leoa, país da costa ocidental africana e portador de um dos menores índices de desenvolvimento humano (IDH) mundiais, os protestos contra a inação governamental contra surtos de Ebola resultaram em aprisionamento de seus manifestantes (The Guardian, 2016). Portanto, quando criticamos a situação econômica e social de países pobres lembre-se que isto é pior do que um mau arranjo institucional ou péssimos índices de desenvolvimento humano, mas sim a repressão bruta a toda liberdade de expressão que visa apontar a ineficiência e corrupção governamentais.

Pode se argumentar que estamos longe deste cenário, que o Brasil reagiu a um quadro de corrupção sistêmica, quando este atingiu seu ápice. Isto tudo pode ser verdade, mas para uma parte do país, a sociedade. A outra parte, nosso estado não tem o mesmo tipo de imunidade. Lembre-se que a maior parte das andanças do ex-presidente Lula por Cuba, República Dominicana, Gana e Angola foram bancadas pela Odebrecht, a principal beneficiária de obras licitadas pelo governo petista. Foram bilhões em projetos só para esta empreiteira e mais outros de financiamento pelo “banco público” mais conhecido como BNDES. Mas o que faltou aqui para os manifestantes anticorrupção terem o mesmo destino de serraleonenses? O que quase tivemos, um Estatuto da Imprensa.

A abertura de mais um congresso do PT, em 2011 marcava uma antiga obsessão do partido, que é o controle da imprensa, sob o eufemismo de “democratização dos meios de comunicação” (Veja, 2011). Este é um risco enorme que ainda temos, caso os mesmos agentes que lideraram o maior esquema de corrupção mundial possam retornar aos postos de direção de nosso Executivo (já que ainda persistem no Legislativo e têm notória influência no Judiciário). Por isso é um erro achar que a corrupção é só financeira. Nossa complacência com ações que levam ao totalitarismo, o total controle da sociedade começam com o ataque sistemático a nossa liberdade de expressão, este é o ponto. Quando se torna a manifestação de qualquer opinião como, necessariamente favorável ao estado, não há mais separação nítida entre setor privado e público. E aí pouco importa se o que veio primeiro foi o ovo ou a galinha, se o poder público engolfou o privado ou se o privado embolsou o público, o resultado negativo é o mesmo. Ao invés de termos menos interferência de interesses escusos, o contrário ocorre e para nos iludirmos ganhamos conceitos como “participação política” de brinde. Se por acaso, um de seus resultados é adverso aos interesses em jogo, simplesmente se ignora os mesmos resultados, tal como aconteceu com o Estatuto do Desarmamento.

Tentou-se avançar no controle da sociedade com o Estatuto da Imprensa, temporariamente suspenso e depois o Decreto dos Conselhos Populares, no qual um membro do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) ou qualquer outro grupo subsidiado pelo estado teria tanta voz quanto um parlamentar revelando a clara intenção de solapar a verdadeira democracia representativa. É evidente que a corrupção não é um produto exclusivo Made in PT, mas se há alguma agremiação política que sintetizou melhor esta anomia social, esta foi o partido de Mr. Lula e por isso mesmo não foi casual que a luta contra a corrupção começasse atacando este partido. Só que agora não pode se limitar a ele… Quando sabemos que a polícia federal acusou o Instituto FHC de receber 975 mil em doações da Odebrecht fica claro que alguns dos principais partidos políticos do país não podem se destacar de um dos seus principais financiadores, que não há autonomia de fato e isto mina a estrutura que deveria garantir uma mínima isenção política. Mas antes a raiz do problema se limitasse ao âmbito federal…

O Brasil possui mais de 5.500 municípios. Se o Congresso Nacional e o Executivo, mais visados apresentam flagrantes casos de corrupção já investigados e em julgamento imaginem o que não encontraríamos diluídos em todas as municipalidades? Em 2015, a Polícia Federal investigou a Câmara de Florianópolis, na qual cerca de 14 vereadores teriam recebido quase 900 mil de propina para aprovar um novo projeto de publicidade para a cidade. Isto, em uma operação, dois anos atrás em uma capital.

É verdade que quanto maior o estado, maior a corrupção. Trata-se de um enunciado plenamente lógico, mas há mais do que isto em jogo. 80% dos municípios brasileiros são avaliados como tendo péssimas administrações (Melo et al., 2018). As denúncias vão de desvios de verbas da merenda escolar a fraudes nas desapropriações passando pelo superfaturamento e excesso nas compras de materiais de consumo, nos combustíveis, irregularidades em licenciamento de obras, falsos orçamentos para manutenção da frota de veículos, acusações de nepotismo, existência de funcionários fantasmas, superfaturamentos na construção de escolas, hospitais, ginásios e outros prédios públicos, compras de carros de luxo disponibilizados ao gabinete do prefeito e muitas vezes utilizados com fins particulares, compras superfaturadas de medicamentos, material e equipamento hospitalares. Nos maiores centros urbanos também há irregularidades nas concessões de transporte coletivo, nos aumentos dos preços das passagens, fraudes nos serviços de coleta de lixo e limpeza urbana, desvios de verbas federais oriundos de convênios específicos, e a clássica alteração financeira e patrimonial de prefeitos após o término de seus mandatos em comparação ao período de sua entrada sem que se investigue como isto foi possível.

Se fosse apenas uma questão do tamanho do estado, isto não deveria existir porque os orçamentos municipais são bem menores, mas há outro motivo: a centralização dos recursos na capital federal cria uma distância entre o cidadão munícipe e seu poder executivo. É como se os recursos fossem “doações federais” e que não lhes cabem gerir ou fiscalizar, mas que tudo depende de acordos e bom relacionamento entre o prefeito e instâncias superiores como o governo estadual e o federal. O grau de corrupção de uma sociedade depende do tamanho da máquina pública, isto é fato, mas não é algo autoexplicativo. O tipo de relação que levou a esta fusão entre bens públicos e interesses privados é chamado na literatura por patrimonialismo. É algo que deriva das sociedades em que os estados, seja na figura do monarca ou de alguma oligarquia, comuns na Europa Oriental não tiveram seus estados criados por uma base contratual com derrubadas de antigos regimes.

Se formos analisar o modus operandi do estado brasileiro, muito mais que um cenário de disputas interclassista, ocorre é uma verdadeira apropriação da máquina pública que deveria ser uma “coisa pública” (res publica). Neste processo de constituição do estado, ele tem muito pouco a ver com a formação de estados em sociedades liberais. Não se trata de uma excrescência, mas o patrimonialismo moderno, o chamado neopatrimonialismo que caracteriza estados como o brasileiro, vai além de formas de sobrevivência de antigas estruturas tradicionais. São formas bastante atuais de dominação política por um estrato social que não necessariamente detém propriedades como meio de dominação: a burocracia.

Em Bases do Autoritarismo Brasileiro, Simon Schwartzman explica nossa estrutura estatal de acordo com a linha de continuidade que Max Weber via entre a dominação patrimonial tradicional e a dominação neopatrimonial burocrática. Esta deve ser vista em contraste com outra linha de continuidade, que se deu entre o feudalismo e a dominação racional-legal que vigorou na Europa Ocidental. Ambas têm seus estados formados, mas apresentam diferenças na sua constituição. Enquanto que a primeira se caracterizou por forte centralização de poder, a segunda se pautou em “relações contratuais estabelecidas entre unidades relativamente autônomas” (1988, p.60).

Para melhor nos situarmos, vejamos o quadro esquemático abaixo:

Tipologia de dominação política em Weber Relação de poder
 

 

Sistema normativo

  Absoluta Contratual
Tradicional Patrimonialismo Feudalismo
Moderno Patrimonialismo burocrático (neopatrimonialismo) Dominação racional-legal

Apud Schwartzman, op.cit.

Como bem observou Raymundo Faoro em seu Os Donos do Poder, nem os críticos liberais, nem tampouco os marxistas deram conta de analisar o fenômeno do patrimonialismo, entendendo-o como meramente transitório (1989, p.735). Diversas especialidades de cientistas sociais, até bem pouco tempo relutaram em reconhecer este fenômeno como fator de força de uma sociedade. Se considerarmos as características do pensamento nos cursos de humanidades no Brasil que são basicamente marxistas, não é possível mesmo que seus pesquisadores entendam isto, pois para as teorias e metodologias que fazem uso constante, tudo se resume ao par dialético forças produtivas/relações de produção proposta por Karl Marx. Aqueles que foram adestrados a crer que “a história da humanidade é a história da luta de classes” ou que os agentes históricos por excelência são apenas duas classes fundamentais, a burguesia e o proletariado não conseguirão mesmo compreender a dimensão do poder de estado, que é um agente social dividido internamente em vários grupos de interesses, se tratando de uma arena por disputa de poder. O caminho para nos livrar do tipo de servidão que este Leviatã nos impõe não é uma revolução para tomarmos seu poder de assalto, mas reformas que o reduzam, substancialmente e, muito importante, o descentralize.

A importância desta observação reside no fato de que o desenvolvimento da sociedade pautada na propriedade privada não prescinde da máquina pública, pois afinal de contas, quer queira quer não é afetada por ela. O que tem que se levar em conta é que mais que a propriedade privada, a marca de uma sociedade livre da corrupção reside na existência de bases contratuais transparentes, cuja segurança jurídica não incentive contratos escusos, conluios, complôs, conspirações que são marcas indeléveis da corrupção. O ataque a legitimidade dessa sociedade baseada na confiança adquirida através de seus contratos é que traz a insegurança a nossa propriedade privada motivando muitos de nós a buscar refúgio em outras nações.

Não nos enganemos, nenhuma lei de “função social da propriedade” resolve o que o efeito do medo traz a quem dedica toda sua vida a trabalhar e gerar riqueza, conforto e bem-estar quando se tem a mais breve visão de perda total. Insegurança jurídica, inchaço da máquina pública, falta de transparência, expansão do poder burocrático, perda de autonomia dos contratos entre grupos, leis que regulamentam o que era livre, perda de incentivos em investir no país, desconfiança trazida com “direitos sociais” que são base da expropriação, demonização do empreendedorismo, aparelhamento político das funções de estado, sucateamento autoimposto pelas administrações municipais, populismo assistencialista na esfera federal, relação de dependência e submissão entre os entes federativos da união, estados e municípios, tudo isto leva aos caminhos ilícitos da corrupção. Só que antes disso tudo vem o ataque e censura à liberdade de expressão. Esta é que nos garante que todas as chagas associadas à opressão contra a liberdade se espraiem.

Hoje em dia temos com a descentralização da informação que não passa mais pelo monopólio de meios de comunicação ligados aos grupos de pressão hegemônicos, o principal ingrediente na luta contra a corrupção. Se podemos ver luzes distantes que nos apontem alternativas, tudo começou com a crítica e exposição de agentes que abusam de sua condição de homens públicos. Mesmo que libertados por um tribunal corrupto, suas vidas com os demais podem se tornar intoleráveis perante a censura individual de cada cidadão. A renovação cultural nasce da vergonha alheia, da indignação e da comunicação que adubam o solo da mudança e resistência contra a praga da corrupção.

Referências:

FAORO, Raymundo. Os Donos do Poder: formação do patronato político brasileiro. 8a ed. São Paulo: Globo, 1989.

MELO, Clóvis Alberto Vieira de; SOUZA, Saulo Santos de; BONFIM, Washington Luís de Sousa. Federalismo e bons governos: uma análise política da gestão fiscal dos municípios. Opin. Publica,  Campinas ,  v. 21, n. 3, p. 673-692,  Dec.  2015 . Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-62762015000300673&lng=en&nrm=iso . Acessado em: 15  Feb. 2018.

SCHWARTZMAN, Simon. Bases do Autoritarismo Brasileiro. 3a ed. Rio de Janeiro: Campus, 1988.

The Guardian. “Free speech becomes a talking point in Sierra Leone as WhatsApp storm ages.” Disponível em: https://www.theguardian.com/global-development/2016/nov/24/free-speech-talking-point-sierra-leone-whatsapp-storm-rages?CMP=share_btn_tw . Acessado em: 18 Dez. 2017.

Veja. “Mais do mesmo: PT quer controle da imprensa.” Disponível em: https://veja.abril.com.br/brasil/mais-do-mesmo-pt-quer-controle-da-imprensa/# . Acessado em: 18 Dez. 2017.

[1] Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde, publicado pela Organização Mundial da Saúde e referência básica da medicina.

[i] Professor de Geografia, licenciado pela UFRGS em 1987 e mestre em Geografia Humana pela USP em 2008.

Luís Nassif elogia o famoso “jeitinho brasileiro”

Leiam isto, por favor:

 

4 – Jeitinho brasileiro

O tão comentado jeitinho brasileiro não fica de fora dessa lista. Latino-americanos, europeus e um sul-africano ressaltaram o lado bom dessa característica.

– Os brasileiros sempre acreditam que há um caminho para se fazer alguma coisa, e isso os leva adiante – aponta Werner Trieloff, 29 anos, contador sul-africano.

– Quando meus pais me visitaram no Brasil, pude perceber melhor como os europeus realmente se estressam quando algo dá errado. Já os brasileiros ficam tranquilos – conta a estudante Ana González, 22 anos, da Espanha.

O filósofo americano Allan Taylor, 26 anos, resume:

– O jeitinho brasileiro explica o sucesso de quase todo brasileiro no Exterior. A improvisação é a grande arte do brasileiro. Na música, por exemplo, como no chorinho ou no samba, há muito espaço para improvisar. Acho que é por isso que o americano não sabe dançar samba nem jogar futebol.

via Estrangeiros elogiam dez hábitos brasileiros | GGN

 

Este trecho aparece em matéria da coluna de Luís Nassif, um dos famosos blogueiros pagos pelo PT. Por que não me surpreendo? Mesmo que ele esteja ressaltando “o lado bom” do famoso jeitinho, nada vem de graça e o que pode ser uma exceção positiva frente a determinadas situações não deixará de ser utilizada de modo espúrio em outros porque falta o principal “hábito” para quem usa do “jeitinho”, o critério moral. 

Não se enganem, se há uma coisa que prejudica o país é o enaltecimento da cultura do malandro que está intimamente ligada ao clientelismo, marca da política brasileira. Hoje é um amigo que trabalha na administração municipal que te leva um trator para ajeitar a rua de terra batida, outro é um funcionário que adianta um processo no fórum e amanhã será o quê? Uma linha de influência política que favorecerá empresas que, por sua vez, participarão de uma mesada de dezenas de milhões para o congresso nacional. Não por acaso é em países com jeitinhos que a economia quebra, dezenas de milhões perdem seus empregos, aventureiros abrem empresas de faturamento bilionário no exterior, centenas de bilhões de reais são perdidos do erário e pior, os mesmos responsáveis saem impunes podendo ainda voltar eleitos como “salvadores da pátria”.

Este é o país do jeitinho, este é o país elogiado na coluna de Luís Nassif.

Anselmo Heidrich

Causa e Efeito, Corrupção e Miséria

Por Anselmo Heidrich

Apesar de todas as guerras e notícias sobre regiões empobrecidas do globo, o índice global de miséria diminui. E isto não é mera intuição, mas análise de dados estatísticos que podem ser comprovados.

Segundo o BIRD (Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento, mais conhecido como “banco mundial”), o limite superior adotado para pobreza extrema é de 1,90 dólar por pessoa ao dia. Se observarmos os dados atentamente veremos que o mundo reduz sua pobreza continuamente há dois séculos.[1],[2].

Essa queda nunca diminui tão rapidamente como nos últimos anos. Trata-se de uma das maiores realizações da humanidade. E o que deve ficar claro: foi realizada dentro de um sistema econômico que seus críticos chamam de Modo de Produção Capitalista. Então, justamente, o famigerado e odiado sistema é que permitiu que grande parcela da humanidade, outrora relegada a patamares subumanos pudesse ascender economicamente. Vejamos aqui como se deu este decréscimo da pobreza mundial em apenas uma década:

Global-Inc-Distribution-2003-and-2013-1

Então, se adotarmos uma linha de pobreza usual de $ 1.000,00 anuais em 2003, 48% estava abaixo dessa linha, enquanto que a partir de 2013, 29%. Em uma década, uma queda de 20 pontos percentuais! Agora, se você acha a linha demarcatória pouco significativa e prefere algo bem superior, digamos $ 4.000,00 anuais adotando o mesmo intervalo histórico em 2003 tínhamos 80% da população mundial abaixo desta linha e em 2013, 67%. Ou seja, um declínio significativo de 13 pontos percentuais. Novamente, e comprovadamente, o mundo melhora.

Agora socialistas e estatólatras de plantão, que tal melhorar sua crítica porque esta história de apontar a desigualdade econômica sem ver o que realmente aconteceu com quem mais precisa do desenvolvimento não funciona para quem sabe ler e analisar dados fidedignos.

Poderia ser melhor? Claro que poderia… Tomemos um país aleatório como exemplo, 5ª maior população do globo, um extenso território, país continental deitado em berço esplêndido e com reservas minerais incomensuráveis, mais de duas safras agrícolas por ano para a maioria de suas culturas etc. etc. e etc. Aquele papo com o qual tu já estás acostumado, sabe? Mas vamos ao que interessa…

Este país hipotético tem “uma Austrália”, cerca de 20 milhões de pessoas dentro de seu território vivendo com menos de R$ 140,00 por mês que no cambio atual com o dólar de hoje daria $ 1,5 por pessoa ao dia, bem menos do que a supracitada linha de pobreza mais baixa adotada pelo BIRD, isto é, um padrão de vida miserável mesmo até para os padrões mundiais considerados. Mais de nove milhões, “uma Suíça” terminarão o ano abaixo da linha de extrema pobreza, com renda mensal de R$ 70,00. Se estás pensando em miseráveis apenas esqueça, o quadro geral é desabonador… Quase metade dos brasileiros vive com um salário mínimo e no Nordeste chega a ser 68% dos seus habitantes vivendo assim. Um em cada quatro brasileiros depende do Bolsa Família. No Maranhão, p.ex. corresponde à metade da população e 27% no estado vive com ¼ do salário mínimo.

Não nos limitemos à renda, se somarmos a população do Uruguai, da Nova Zelândia e da Irlanda não alcançaremos o número de analfabetos que temos no Brasil. Nossa “analfetolândia” é composta por 50 milhões de analfabetos e semi-letrados. Obviamente já deu pra sacar que falamos do nosso Brasil varonil, certo? Então… Se nossos analfabetos e analfabetos funcionais compusessem um país, ele seria o 28º país mais populoso do mundo, mais que uma Argentina. Mas voltemos ao país real, que mais parece surreal… 30% dos brasileiros nunca comprou um livro. Em recente pesquisa feita pelo Ibope, metade dos professores não citou nenhum quando questionados sobre o último livro lido e 22% citou ter lido um: a Bíblia. Por isto ponha de lado estas estúpidas teorias pedagógicas, quando se fala em “crise na educação”, na verdade é uma crise na qualidade dos professores.

“Ah! Mas temos um belo meio ambiente ambicionado pelas potências estrangeiras!” Sempre a mesma conversinha paranoica de sempre – como já disseram, o nacionalismo é o último refúgio dos canalhas. Somos mais de 35 milhões de brasileiros sem acesso ao abastecimento de água tratada, um Canadá inteiro sem água encanada. Quase 100 milhões de brasileiros, mais que uma Alemanha sem esgoto, cerca de 17 milhões, uma Holanda, sem coleta de lixo. E mais quatro milhões, uma Nova Zelândia sem um único banheiro em casa. Só falta dizer que é romântico defecar no rio…

Apesar de uma década com aumento no preço das commodities, crescemos menos que a média global. Quase metade do que auferimos, vai para o sistema político, temos o judiciário mais caro do ocidente, o sistema de saúde público mais ineficiente do planeta, e o segundo congresso mais oneroso do mundo. E o principal, somos o país que oferece o pior retorno de impostos ao cidadão. E o que recebemos de volta? Burocracia, a economia mais fechada do G20, o 10º país mais complicado para fazer negócios, o líder no ranking de encargos e processos trabalhistas e burocracia fiscal, o 5º menos competitivo do planeta. Como dito no site Spotniks:

“Nós abraçamos os que prometem e condenamos os que produzem. O resultado é inevitável, subdesenvolvimento crônico. Nós somos bons nisso, desigualdade, violência urbana, prostituição infantil, trabalho escravo, pobreza. Muita pobreza.”

Uma década de redução da pobreza global, uma década de alta no preço das matérias-primas no mundo inteiro e uma década de declínio econômico que resultou neste caos que vivemos no Brasil! Como pudemos ser tão incompetentes?! Na verdade, quem se beneficiou disto tudo não foi incompetente, aliás foi muito competente, só que para roubar… Toda causa tem seu efeito. Como podemos ir na contramão da tendência global de modo tão acintoso? Agora que o país tenta a muito custo se reerguer, obviamente que os autores deste estelionato político querem capitalizar com a crise. Portanto, te lembres que qualquer greve geral agora não é contra a obesidade mórbida de nosso estado brasileiro, maior causa de nossas mazelas sociais, mas justamente em defesa dos agentes políticos que invalidam sua eficiência. O que está em curso é uma luta intestina na estrutura estatal, que visa enfraquecer toda tentativa de por o país nos eixos e ajustar nossa economia através da própria sociedade. Temos agora a oportunidade de lutar e reagir, indo para as ruas contra os sanguessugas que criam idiotas úteis em linhas de produção ideológicas. Não deixemos a peteca cair, não abdiquemos deste sonho que mais dia menos dia se realiza. Qualquer um que tente nos calar é nosso inimigo. Às ruas, novamente, com nossos corações na goela, como se fossem punhais atravessados por onde saem nossa voz e reflete nosso espírito. Estatólatras, vocês não passarão!

Fonte dos dados: http://spotniks.com/

[1] No matter what extreme poverty line you choose, the share of people below that poverty line has declined globally. https://t.co/SC0Ostsw6x. Acesso em 17 abr. 17.

[2] Global Extreme Poverty. https://ourworldindata.org/extreme-poverty/#the-share-of-people-in-poverty-over-the-past-two-centuries. Acesso em 17 abr. 17.

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

Acima ↑