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Anselmo Heidrich

Defendo uma sociedade livre baseada no governo limitado e estado mínimo.

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Catalunha

Separatismo e Oportunismo

Por Anselmo Heidrich[i]

“Não há regra, não existe uma lei natural para que este movimento político, muito menos uma legislação que foi criada determine que quanto menor, melhor. Um México pode ter menos liberdades civis que um Canadá, cujo território é bem maior; ou, se preferirem, em termos populacionais, uma Venezuela também tem (inegavelmente) menos liberdades civis que o Brasil. E a recíproca para extensão territorial ou população também é verdadeira, também temos pequenos estados ou sociedades onde se é mais livre. Em suma, liberdade não depende do tamanho, mas da qualidade da administração e de seu estado.”

Este é um trecho de um texto de 2016 sobre o separatismo sulista, cujo conteúdo integral se encontra aqui:

http://inter-ceptor.blogspot.com.br/2016/07/o-separatismo-na-visao-dos-liberais.html

Além desta visão, que sempre que tenho oportunidade quando debato com separatistas e, especialmente, os separatistas de visão liberal é que não há uma lei que determine o tamanho como sendo melhor. Sei que este é um critério utilitário e que muitos liberais fundamentalistas irão me contrapor dizendo que, ora! Um povo deve ter o direito de fazer um plebiscito e lutar por sua autonomia! Que seja, mas preste bem atenção no que eu vou dizer, um processo desses nunca termina onde nós queremos ou achamos ideal. Se ele for válido para todo e sempre, um grupo futuro também poderá propor outro processo similar dentro do novo país. P.ex., por que não se poderia propor uma separação deixando o Rio Grande do Sul, estado financeiramente quebrado e decadente de fora? Imagine o movimento “Quase Todo o Sul é Meu País”, por que não? Ou, mesmo dentro do RS, o norte dinâmico do estado se separar da Campanha, porção meridional pobre e atrasada? Ou o norte industrioso e fabril de Santa Catarina dar um belo de um chute no sul mais empobrecido do estado? Analogamente, o Paraná também poderia fazer uma triagem interna, que acham? O que eu quero dizer é que não há um ponto ótimo. Em se tratando de História, o processo pode continuar indefinidamente e uma vez aberta a porteira para este tipo de ação coletiva de larga escala não há legitimidade nenhuma em poder fechá-la novamente. Portanto, se vão mesmo apoiar uma causa assim, que estejam preparados para as consequências. Vocês estão?

E agora me pergunto, a quem interessa mais a secessão territorial do país? “Ah! É contra Brasília, então está tudo bem!” É mesmo? E como você acha que esta organização se dará internamente? Por acaso já pesquisaram sobre quem são os líderes desse movimento aqui no país? Se eles são pessoas realmente ilibadas, se não tem algum processo judicial correndo contra eles e por que razão… Porque se há, este país já começaria muito mal, com vícios de origem. Pesquise antes de vestir uma camiseta para alguém que nem conhece direito e não sabe sua ficha corrida.

O uso político dessa questão não é nossa exclusividade. Vocês acham que foi diferente na Catalunha, região espanhola que recentemente teve o seu plebiscito? Assim como aqui, a região espanhola perde mais do que ganha na divisão de recursos do país, mas não por acaso está usando a questão separatista como cortina de fumaça para favorecer o seu governo acusado de envolvimento em vários casos de corrupção e que elevou a dívida pública regional ao maior patamar de todas as seções administrativas (cf. https://anselmoheidrich.wordpress.com/2017/10/02/a-autonomia-da-catalunha/). Há casos e casos, querer dizer que porque os curdos também lutam por autonomia, cujo povo de cerca de 20 milhões de habitantes se distribui entre países do Oriente Médio apresenta uma etnia própria em uma área rica em petróleo e fontes hídricas, mas foi igualmente perseguido por turcos e iraquianos é a mesma coisa que a questão catalã ou sulista no Brasil é forçar a amizade. Portanto, não há como ser incondicionalmente a favor do separatismo em qualquer lugar do mundo, assim como não há como ser incondicionalmente a favor da união em qualquer lugar do mundo. Cada caso é um caso distinto.

Mas o aviso foi dado… Vejam quem comanda os processos ora em curso. Analisem seu histórico e confirmem se esta foi uma causa defendida anteriormente. Lembre-se, tudo é política. Toda hora vemos isso, como um Trump que era a favor do controle de armas, mas quando se candidatou contou com o apoio da NRA, Associação Nacional do Rifle nos EUA, principal lobby pró-armas e, magicamente, Trump mudou o discurso se opondo às regulamentações. Agora, após o massacre em Las Vegas, ele próprio aceita discutir novas regulamentações. Independente de quem está certo, o que discutirei em outro artigo e já adianto que não há solução fácil, o fato é que há um histórico dos envolvidos e o meu conselho é analisem para ver se é mesmo legítimo. E outra vez, já que estou falando em LEGITIMIDADE:

SE FOR LEGÍTIMO QUE SE APOIE A SEPARAÇÃO TERRITORIAL DO PAÍS, TAMBÉM É LEGÍTIMO QUE SE APOIE A SEPARAÇÃO INTERNA NO NOVO PAÍS.

Não há razão lógica para se parar em um determinado ponto. INDAGUE ISTO AOS SEPARATISTAS e SE ELES DISSEREM QUE NÃO, QUE TEM QUE TER LIMITES É porque SÃO TODOS FAKES, NÃO TÊM COERÊNCIA e PODERÃO USAR A POLÍTICA DO NOVO PAÍS DO MESMO MODO QUE AGORA: de acordo com as necessidades de OCASIÃO.

 

Abraço e boa tarde chuvosa,

Anselmo Heidrich

2017/10/07

 

[i] Confira meus ÁUDIOS: https://soundcloud.com/anselmo-heidrich; e BLOGS: https://anselmoheidrich.wordpress.com/, http://inter-ceptor.blogspot.com.br/.

 

 

 

A AUTONOMIA DA CATALUNHA

Ontem, catalães votaram a favor da independência do Reino da Espanha em massa, 90% segundo o governo da região. Sua ditadura no final dos anos 30 levou à centralização do país e supressão de traços regionais importantes que davam unidade aos diferentes povos, como a proibição do idioma catalão em 1939. Por força de lei, se proíbe, mas na prática, a tradição e sua preservação constituem uma forma de unidade, de senso de comunidade, de distinção e dignidade que podem se traduzir como resistência a algum regime se forças políticas souberem capitalizar isto. E foi o que aconteceu a partir da crise de 2008 em que a região passou a receber menos recursos, inclusive para geri-los de forma autônoma, regionalizada, o que só fez aumentar o sentimento de indignação e separatismo, como seria de esperar. Some-se a isto, o fato do partido ora no poder, o Popular estar envolvido em 65 casos de corrupção.

Pesquisas psicométricas divulgadas pelo The Atlantic mostraram que o sentimento de emancipação diminui após o voto porque este tem a função de catarse, isto é, de liberação de energias. Então, se numa escala de valores, antes do plebiscito, o catalão dissesse que estaria apto “a perder a vida pela independência”, após o seu voto, o sentimento caia sensivelmente sendo substituído por outros como “estou disposto a perder meu emprego pela independência”. Raciocine, o que realmente muda após a independência se tu não sabes o que virá, não tens comprovação fática do que está por vir? É muito mi-mi-mi, nós vivemos sob a “ditadura do mi-mi-mi”, ao invés de nos concentrarmos em questões econômicas perdemos muito tempo com símbolos que traduzem, irracionalmente, o que esperamos como conjunto de soluções. Estas são chatas, requerem estudos, estão inseridas em um método de ensaio-e-erro, já o símbolo, esteja ele atrelado a alguma religião, causa política, da qual o nacionalismo é uma das mais emblemáticas faz o serviço rápido que dispensa a análise exaustiva e comparação constantes. É um refúgio dos preguiçosos – quem pensou no “O Sul É Meu País” para o nosso caso acertou. De machos revolucionários pré-plebiscito passamos a militantes para depois sermos indignados e quando a economia melhorar futuramente, conformados e acomodados. Duvidam? Por que a Espanha já não virou uma Iugoslávia há tempos? Comparem suas economias e como têm evoluído nas recentes décadas. Ou analogamente, vocês acham que estaríamos falando tanto de separatismo e secessão aqui no Sul do Brasil se não fosse nossa crise política, institucional e econômica?

E o governo espanhol, Madri, onde foi que pisou no patê? Se opôs ao plebiscito e perdeu a chance de fomentá-lo? Como assim? Sim, eu estou dizendo que se Madri conduzisse o próprio plebiscito poderia manipulá-lo a seu favor, NÃO roubando ou mentindo sobre os resultados, mas sim DISPONIBILIZANDO MAIS OPÇÕES. Pesquisas feitas ANTES do mesmo mostraram que os militantes pró-independência da Catalunha (mais de 40%) caiam para 35% se houvesse mais opções como “estado federal”, “maior autonomia regional” etc. Mas, a opção pelo confronto, de bloquear locais de votação, de prender militantes, no envio de milhares de guardas para a região teve como resultado inflamar ainda mais o sentimento anti-unionista contribuindo como combustível para algo que mais ou mais tarde se tornará uma força difícil de reverter.

Visto de cima, o que temos na Europa hoje, uma vez que o sonho de uma unidade e federação europeias naufragou é o retorno dos nacionalismos e o verdadeiro risco que este nos traz é seu subproduto ideológico conhecido como fascismo. Se tivéssemos uma maior descentralização real, via pacto federativo, o comércio interno com maior desregulamentação e liberalismo os manteria unidos. Mas vai colocar isto na cabeça de um burocrata…

Anselmo Heidrich

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