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Anselmo Heidrich

Defendo uma sociedade livre baseada no governo limitado e estado mínimo.

Categoria

Sociedade

Semana Vítimas do Comunismo: Não Culpe o Capitalismo

Pessoal,

Será um prazer tê-los como ouvintes na minha palestra dia 07, “Não Culpe o Capitalismo”, na SEMANA VÍTIMAS DO COMUNISMO, de 06 a 10 de novembro, no CSE (Centro Sócio-Econômico) da UFSC.

Estou preparando uma palestra abrangente, mas em 40 minutos terei que dar um enfoque e será GEOPOLÍTICO.

Será uma honra tê-los nesta terça-feira às 20h, dia 07 de novembro.

Abraço,

Anselmo Heidrich

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Dª REGINA VS. ATORES DA GLOBO: análise comportamental-corporal

Não deixem de assistir ao vídeo abaixo do Canal Metaforando, excelente, genial. Aliás, quem não conhece, não deixe de assistir à série LIE TO ME. Genial também e tudo a ver com o vídeo que segue que já inclui em meus favoritos em todos os meus blogs.

Se for lícito dizer que o que não dizemos nos revela, também é que o que fazemos, gesticulamos, movemos nos desnuda mais que qualquer performance fake de nu brega que não diz nada com nada. 

Assistam!

 

Sobre o queermuseu, MAM e outras mostras que virão

Pessoal, o negócio é simples e leiam com atenção para não deturpar o que eu digo: quanto mais vocês berrarem, quanto maior for a histeria, MAIS OS CURADORES E ARTISTAS (chame-os do que quiser) VÃO GANHAR COM ISTO, pois seu ofício se baseia no choque, no escândalo e no ti-ti-ti para os círculos de intelectuais militantes. Quanto mais vocês clamarem por censura ou sugerirem algo assim, mais eles terão justificativa para continuarem o que estão fazendo e mais apoio internacional, inclusive, terão.

O negócio é por fim ao negócio deles, secar a fonte, acabar com o financiamento, por isso BOICOTAR é anos-luz melhor que qualquer tipo de censura. O que se fez ao Santander, fechando contas no banco e que SE DEVE fazer igualmente ao Itaú é o caminho certo. Agir assim traz mais resultados e ainda parte de nosso livre-arbítrio, sem burocracias e lerdeza judiciária.

Já quanto à manipulação e uso de menores em exposições do tipo que se acione a lei, mas se adultos quiserem assistir o que pode ser mau gosto para nós, qual o problema? Não tem um monte de gente que ouve Caetano Veloso, Chico Buarque e Gilberto Gil também?

Anselmo Heidrich

Considerações sobre a Amazônia

Coisa velha, mas que guarda alguma atualidade, uma vez que estão demonizando nosso “Conde Vlad”, mais conhecido como Michel Temer…

 

Algumas Considerações Sobre A Amazônia[i]

Em primeiro lugar, por mais importante que seja o fator de regulação climática da Amazônia (toda floresta o é), esta não exerce a função de “pulmão do mundo”. Este é atributo dos oceanos, mais especificamente do fito-plâncton que absorve o gás carbônico da atmosfera levando-o ao fundo do oceano. A noite, a floresta amazônica absorve a mesma quantidade de oxigênio expelido no processo de fotossíntese executado durante o dia.

Se seu valor intrínseco estivesse na hipótese de ser um “pulmão do mundo”, uma alternativa seria serra-la, pois as árvores absorvem mais gás carbônico durante a fase de crescimento deixando, em contrapartida, mais oxigênio na atmosfera. Portanto, se há algum “pulmão do mundo”, em termos vegetais, ele está nas árvores “florestadas” ou nas “reflorestadas”. A saber, as áreas sem este tipo de formação vegetal, nas quais foi artificialmente introduzido e, em áreas recuperadas para este fim.

Até recentemente, ambientalistas e nacionalistas não nutriam grande simpatia mútua no Brasil. Mas, hoje em dia se percebe que têm afinado seus discursos com uma retórica xenófoba comum… Penso que há uma certa confusão quando se fala em Amazônia na sua “manutenção da integridade territorial do país”. Uma coisa é advogar a soberania do estado nação, outra bem diferente (mas, de modo nenhum, oposta) é requisitar o direito de propriedade aos seus cidadãos. Ora, na Amazônia temos o preceito territorial do estado, mas há quantas anda o direito de propriedade garantido pela Constituição da República? Mesmo porque, não há como garantir a segurança da propriedade privada sem sua defesa constitucional. Em outras palavras “não haverá compradores para terrenos cuja posse não seja sequer garantida pelo governo local”. Não confundamos, por favor, o direito de propriedade com as ações sugeridas e incentivadas por uma miríade de ONGs que propõe um status diferenciado da propriedade. No caso específico de Raposa Serra do Sol, o direito de propriedade de brasileiros, como bem sabemos, foi flagrantemente usurpado…

Da mesma forma, não vejo problema quando porções de “nossa terra” são vendidas a estrangeiros. Se todos os países pensassem assim, a Gerdau teria então que ser chutada dos EUA por que adquiriu a siderúrgica Chaparral? Ao contrário, imigrantes com capital ou imigrantes sem capital, mas com ânimo para trabalhar sempre serão muito bem-vindos. Aliás, isto trouxe benefícios ao Brasil, embora tenham sido apenas cerca de 4 milhões de imigrantes em sua história contra os mais de 40 milhões que aportaram nos EUA. E, como se sabe, estes continuam a chegar àquele país por terra, no deserto, ou por mar, em meio aos tubarões.

O Brasil, entre tantas outras nações, deve muito aos seus imigrantes e a migração de capitais. A questão que vejo é outra: trata-se de se adequar às nossas leis e, quando isto não procede, aí reside o problema, real problema.

Este pavor que muitos dos nacionalistas de ocasião nutrem pelas multinacionais, simplesmente, não faz sentido. Trata-se de uma herança preconceituosa de nossa elite intelectual dos anos 60 que já deveria ter sido extinta. Reitero o que digo: o problema não é a multinacional em si, mas o desrespeito à lei ou abuso de poder, quando da formação de cartéis ou trustes,[1] por exemplo. Aí, o malfeitor é malfeitor independente de ser estrangeiro ou brasileiro.

Usamos madeira e papel continuamente. Se realmente quisermos manter a “floresta em pé” temos que apoiar em outras tantas e abundantes áreas do Brasil, “matas de eucalipto” ou pinus. Só esta espécie de agricultura pode combater o simples extrativismo.[2] Agora, por outro lado, querer manter a floresta intacta é uma utopia que não tem (nem nunca teve) lugar nem lógica no mundo. A floresta tem todos os requisitos para ser uma incomensurável geradora de riquezas ao nosso país. E nem me refiro aos minerais em seu subsolo, mas aos fármacos que são produzidos a partir de compostos orgânicos nela encontrados.

Se não se quer, realmente, perder grandes áreas da biomassa amazônica, um plano de ocupação tem que ser executado. Mas, diferentemente, da época do regime militar, ele precisa contar com maior agregação da sociedade civil, isto é, tem que ser apoiado na ideia da propriedade privada.

Por que, tal como a China faz com sua gigantesca mão de obra, não atrairmos capitais (nacionais e internacionais) para produzir na Amazônia? Entre eles, laboratórios e cobramos o que nos é devido, com o subproduto desejável de empregar gente que, hoje, sem opção está usando uma motosserra?

Anselmo Heidrich

 

[1] Em conluio com burocracias estatais, diga-se de passagem.

[2] Na verdade não é a única, mas quis manter o texto em sua forma original. Apenas substitua, “só esta” por “uma das formas”.

[i] Link da publicação original: http://www.rplib.com.br/index.php/artigos/item/2153.

A Primavera Que Praga Deu Ao Mundo

21 de agosto, 49 anos atrás, tanques soviéticos arrastam tudo pela frente em Praga, capital da então Tchecoslováquia pondo fim ao período de abertura democrática conhecido como “Primavera de Praga”. Duas décadas depois, os efeitos desse pequeno experimento que tentou mudar o “rosto do socialismo” conseguiu mudar a face de um continente, como se um antídoto contra o totalitarismo ressurgisse das cinzas.

O comunismo foi derrotado e mesmo tentem trazer este lixo histórico pela porta dos fundos de nossas nações, ele será novamente extirpado como uma célula cancerosa. A Tchecoslováquia nos forneceu o protocolo médico para curarmos esta patologia social, mas depende de nós diagnosticá-lo.

Cf. https://youtu.be/P76FtHq7mL4

Os tchecoslovacos acreditavam em algo que chamavam de “socialismo com rosto humano”. Independente de haver alguma contradição nisto, seu país foi invadido brutalmente pela URSS mostrando claramente ao mundo quem mandava naquela região entendendo ‘região’ por quase todo centro-leste europeu. Diferentemente dos dias atuais, nos quais as fronteiras são muito mais diluídas e a migração entre nações é intensa, o continente europeu encontrava-se fortemente dividido entre dois sistemas econômicos opostos, um que defendia a propriedade privada e outro, cuja propriedade dos meios de produção era totalmente controlada pelo estado. No entanto, esta verdade é parcial, pois exceções como a Iugoslávia, que permitiam algum grau de (pequena) propriedade privada eram regidos politicamente por um único partido, o Comunista. Ou seja, a ditadura fazia parte de seu DNA político-ideológico e essa diferença substancial foi constantemente relegada a segundo plano por nossos acadêmicos esquerdistas. A oposição entre democracia do chamado “mundo livre” e a “ditadura do proletariado” que, na verdade era do partido único era uma diferença que coroava o processo de monopólio da propriedade ao seu total controle pelo estado.

Após a II Guerra Mundial, os partidos comunistas foram alçados ao poder com facilidade no leste europeu e se entende por que. Assim como os EUA foram responsáveis pela libertação do jugo nazista no ocidente, no leste foi a URSS pouco importando se o comunismo era tão totalitário ou genocida quanto o nazismo, para os povos locais se tratavam de libertadores. Lembrem que o acesso à informação não era como nos dias de hoje onde uma simples busca revela dados e diversas interpretações que nos permite decidir e julgar com maior facilidade. Vivíamos épocas em que se demorava anos, décadas para que informações alternativas viessem a público.

Vejam este vídeo: https://youtu.be/OgaL-wJMWQU, Nikita Krushev, o líder soviético da época era avesso à formalidade e queria que a URSS, gradualmente, se abrisse (ele foi uma espécie de antecessor de Gorbatchev), mas ainda acreditava no sucesso do socialismo. Ele ordenou uma mostra da produção americana no país… Veja os comentários (hilariantes) sobre a Coca-Cola e que os homens esperavam dela: será que deixa bêbado?!

Neste vídeo aí acima vejam a “segurança no trabalho” aos 3:50…

Logo depois aos 5:30 mostra a desigualdade permitida sob a ideologia da desigualdade em que militares qualificados ganhavam bem mais e recebiam imóveis do estado soviético.

Aos 7min vejam o que diz um líder operário: a cada provocação dos militares americanos produziremos mais aço. Era claro que sua produção se destinava à indústria armamentista, o país se tornava uma máquina de guerra.

E revelador, um ex-chefe da KGB (o serviço de inteligência soviético) dizendo que “o ocidente nos ajudou”, pois sua política criou medo que nos permitiu exigir mais de nosso povo. Se entenderam, ambas as máquinas de guerra americana e soviética formavam um ciclo vicioso que incentivavam-se mutuamente a aumentar seus arsenais e poder.

“Tínhamos um país inteiro com muitos recursos em mãos, então por que nos vestíamos tão mal, por que não comíamos o que queríamos, mas o que havia? A resposta era simples: o Tio Sam estava construindo uma Bomba Atômica e tínhamos que construir duas; se ele construía duas tínhamos que construir quatro…” – homem que fora adolescente nos 60.

Uma professora da época disse que “vivíamos em apartamentos comunais, com 1, 2 ou até 4 quartos e em cada um havia uma família”. Sim, com uma cozinha e um banheiro para todos.

Kruschev se guiava pelo seu senso comum, não tinha conhecimento da economia e do liberalismo, óbvio, mas percebeu esta insatisfação e guiou a indústria para a produção de bens de consumo produzindo apartamentos pré-fabricados, mas ainda assim as prateleiras dos mercados tinham pouca comida. Qualquer cereal, massa ou pão tinha filas para se conseguir comprá-lo.

Era um líder dotado de romantismo, que inspirava os soviéticos, mas como todo comunista, equivocado para não dizer burro mesmo… Ao invés de permitir a livre-empresa que levaria ao aumento da produção pela concorrência – o que é, essencialmente, anticomunista, claro -, sua campanha de aumento da produção de carne, leite e grãos se baseou na exploração das chamadas “terras virgens”, i.e., a Ásia Central. E cá entre nós, terra era o que não faltava na ex-URSS.

Esqueceu, no entanto, que elas ficavam distantes e faltavam vagões, caminhões para seu transporte, silos para armazenagem e fertilizantes para alcançar a produtividade necessária. A consequência óbvia: grande parte da colheita foi perdida.

Para comprar certos gêneros tinha que se viajar, como até Moscou que concentrava a maioria dos mercados distribuidores. Crianças passavam o dia ajudando suas mães carregando mochilas com o peso das compras. Era como uma cerimônia. Mas a subversão tem outros caminhos. Nos anos 60, as “calças pantalonas” entraram no país e eram proibidas! Jovens eram reprimidos pela polícia ao usarem-nas.

A “guerra das calças” consistia na repressão policial ao ver um jovem vestido a moda ocidental, “estilo inglês” e não soviético. O garoto era tirado da multidão e levado a uma delegacia onde cortavam as calças e o cabelo, depois devolvido. As pessoas hoje em dia não têm mais ideia do que a moda representava em termos de contracultura e como isto ajudava a revolucionar mentes e padrões de comportamento que podiam atingir o cerne da política. Enquanto que conservadores americanos diziam que os hippies eram “sinal de influência subversiva comunista”, os soviéticos por seu turno acusavam-nos de “sintoma da decadência do capitalismo”. Claro que nenhum deles estava certo.

“A sociedade estava tentando se arrastar debaixo das pedras do totalitarismo”… Discos não podiam ser importados ou produzidos livremente, mas isto não impedia o contrabando de rádios. Não é a toa que na recente campanha do Afeganistão, os EUA lançaram rádios a corda para que os afegãos pudessem ouvir notícias sobre a guerra que não passassem pelo crivo e controle do Talebã. A propaganda e a informação não costuma ser bem analisada como arma de guerra que é, mas regimes caem com sua força. Lembram-se da derrocada de Nicolau Ceuacescu na Romênia. O ditador tentou esconder de seu povo, as transformações que ocorriam no Leste Europeu até que os protestos cresciam em suas aparições públicas. Numa dessas, a repressão levou milhares a morte para depois executarem o tirano e sua mulher em praça pública. A pergunta é, como o povo já sabia o que acontecia e exigia o mesmo? Como? Quem pensou em contrabando e parabólicas acertou em cheio. Sim, não é a toa também que a Romênia tem hoje a 2ª melhor rede de internet do mundo, pois quando as companhias entraram no país já puderam encontrar uma rede previamente estabelecida de intranet que facilitou o trabalho. Alguém aí já ouviu falar em liberdade de empresa? Os romenos derrubaram o comunismo exercendo ela e todos seus benefícios decorrentes, como a liberdade de opinião. Pena que Ceaucescu não estava conectado ou não… Assim ele pode ficar de fora sem reprimir ninguém no acesso à informação. O que, diga-se de passagem, Pequim sabe muito bem ao impedir que se acesse qualquer link com a palavra democracia de seu país.

Algumas coisas soam inauditas para nós, em nosso tempo e sociedade. Imagine o poder revolucionário de poesias amorosas: aos 22min um poeta russo disse como se tornou popular ao usar o termo eu ao invés de nós, “eu te amo” ao invés de “nós amamos”, como isso tocou fundo no coração da população. Se vocês perceberem era o advento do indivíduo em contraposição a um longo período da história dominado por uma ideologia coletivista. Analogamente, esta é uma das (uma das) razões do sucesso dos Beatles no ocidente, que usava e abusava do termo _me colocando intimidade via rádio dentro dos lares britânicos. É uma torrente que estava reprimida e viria como uma inundação após o rompimento de diques. Subterraneamente as sensibilidades estavam sendo preparadas para derrubar um regime opressivo. Faltava o estopim.

É impressionante o grau de loucura ideológica quando este poeta contou como teve uma poesia sua acusada de “antisoviética” porque falava de solidão. Como podia ele, um homem do povo, da imensidão coletiva se sentir sozinho?! Assim raciocinava o membro do partido, o comitê que perseguia jovens censurando-os pelo seu comportamento e chamando para reuniões de “orientação” exatamente como criaram agora na nova constituição venezuelana – centros de correção para quem divergir dos ideias revolucionários-bolivarianos.

Em 1962, a linha dura do Partido Comunista da União Soviética (PCUS) queria apertar o cerco a qualquer forma de dissidência ou traço cultural que a incentivasse. Então convidou Nikita Kruschev para uma mostra de arte moderna. Vocês já podem imaginar que o Secretário Geral do Partido ficou chocado, muito chocado. “Algumas telas estão inacabadas…” – disse Kruschev. – Por que não pintam as paisagens da nossa pátria? Onde estão os rostos dessas pessoas pintadas nos quadros? E por aí foi. – Por que eles odeiam os rostos dos nossos trabalhadores soviéticos…, foi o que ouviu.

Para um camponês alçado ao cargo máximo do país, o máximo em arte era a música clássica, a música folclórica, um quadro realista onde uma floresta era uma floresta, não essa arte de vanguarda que requeria poder de interpretação que lhe era alheio. E os ideólogos de partido tripudiaram em cima de sua ignorância ao lhe dizer que era bom que não entendesse, pois esta era “uma forma da decadência burguesa atacar nossa sociedade pura”.

Vejam o que está em jogo aqui, a censura que os soviéticos impunham internamente passou a se refletir, ferozmente no cenário doméstico de seus aliados. O líder tchecoslovaco impedia qualquer reforma com mão de ferro e todos jovens que tinha na produção cultural sua lida não encontravam saída: sabiam que criticar o comunismo era suicídio. Mais fácil enfocar temas abstratos, longe da crítica ideológica, o que não era fácil, pois isso os obrigava a serem desonestos consigo próprios, pois o subproduto da censura era a autocensura e a hipocrisia. Vaclav Havel, quem iria se tornar o chefe de estado com o fim do comunismo no país era um desses, um jovem dramaturgo.

Enquanto isso Kruschev não desistia, se no plano cultural o comunismo apertava com punho de aço a liberdade de expressão, no campo seus arados eram frágeis e insuficientes, sem tecnologia agrícola que levasse ao aumento de produtividade. A imposição para que todos plantassem milho nos rigores do clima russo era uma asneira digna de um Q.I. de ungulado. Só para se ter uma ideia da insanidade, meninos e meninas no campo tinham que acender fogueiras no campo a noite para impedir que o milho se congelasse. Como eram obrigados a controla-la, dormiam e acordavam com as mãos ou rosto sendo queimados. Tudo em nome de uma ideologia estúpida, uma ignorância que é repetida até os dias de hoje para nossos jovens por sanguessugas nas universidades que escondem a verdade sob este rosário de mentiras que foi o comunismo, uma ideologia contrária a liberdade e ao indivíduo onde decidir o que e como produzir eram vistos como pecado e traição.

Um ano após Kruschev ter censurado seus artistas, o inverno foi inclemente e quebrou suas safras de milho e trigo. Crianças choraram no campo ao ver que suas táticas não venceram o clima russo, o mesmo que derrotou Napoleão, Hitler a ainda mantém a horda islâmica afastada do heartland asiático, o coração da Mãe Rússia. Entendam o seguinte: por mais nacionalista e comunista que fosse um russo, neste ano ele amaldiçoou Kruschev por que embora fossem pobres em um país imensamente rico, os russos nunca tinham ficado sem pão. Não, até aquele ano… E o impensável aconteceu, a Rússia foi obrigada a importar comida, trigo mais especificamente e de quem? Deles, dos Estados Unidos da América. A História é mesmo surpreendente, não? Enfie este orgulho no C*, seu comunista de B**! A economia não obedece ideologias, ela se faz e nós temos que aprender com ela.

Enquanto que o Ocidente se divertia com sua figura simplória e divertida, internamente Kruschev era visto como um PALHAÇO e pior, um IRRESPONSÁVEL. Além da crise interna, o país quase foi a guerra nuclear após uma desastrada crise tendo beneficiado um pústula como Fidel Castro por colocar mísseis soviéticos em Cuba ameaçando os EUA. Sem sangue, a cúpula do PCUS o depôs preparando o caminho para seu sucessor, Leonid Brejnev.

Um ano antes de eu nascer, em 1964 Kruschev foi deposto e nunca mais voltou. Se retirou em sua dacha (casa de campo dos líderes soviéticos) e curtiu uma depressão temporária. Na URSS, o regime se estabilizava, mas só internamente… No plano externo, a inquietação tomava conta do império e o líder tchecoslovaco não conseguia mais conter os reformistas. O “socialismo com rosto humano” inaugurado em 1968 na Tchecoslováquia só tinha um rosto e humano porque perdera seu poder comunista, o partido governava com consentimento, a liberdade de expressão nascera junto com… Uma Economia de Mercado. Era demais para os soviéticos.

A liberdade vinha em espasmos e a sensação de poder falar o que quisesse vinha acompanhada da paranoia (necessária) de olhar por cima dos ombros para ver se não era espionado. Eram surtos de alegria intercalados pelo medo. Alexander Dubcek, primeiro ministro tchecoslovaco fora avisado durante meses e quando tentou atender às ordens soviéticas já era tarde demais. Não era só uma questão de que opiniões anticomunistas e antissoviéticas estivessem a luz do dia em jornais, mas que isto significava um claro enfraquecimento do poder tecido durante anos na Guerra Fria e cedo ou mais tarde levaria as tropas da OTAN chegarem às fronteiras soviéticas. Desta vez era um ganha-perde territorial e não uma simples mostra de arte de vanguarda fracassada. No dia 21 de agosto de 1968 paraquedistas russos desceram dos céus empunhando suas AK-47 e uma simples verdade se tornou óbvia: não é possível ter comunismo e liberdade. Na manhã seguinte, os tanques soviéticos deslocavam-se pelo centro da capital e a população atônita perguntava o que tinha acontecido, afinal eram aqueles que se diziam seus irmãos por anos. Os disparos começaram e o primeiro corpo, de um menino foi ao chão. A repressão comunista não começara, ela já existia, mas agora quem tinha alguma dúvida poderia abandona-la. Em 1939, os tchecos tiveram seu país invadido por Hitler e podiam esperar o pior, mas agora se sentiam traídos, mortos no que acharam ser possível, enganados por uma ideologia.

Em 1968, a primavera morreu para o povo daquele pequeno país encravado no coração da Europa, mas as sementes das flores iriam germinar por todo o continente duas décadas após carregadas pelos ventos da liberdade.

 

Anselmo Heidrich

Boa noite,

2017-08-21

 

(Fonte da imagem: http://www.tresbohemes.com/2015/08/the-day-the-tanks-came/)

Lições de Charlottesville: quando a ideologia vira fake news

Não é desistindo de sua vontade de ação e colocando suas avaliações em suspenso, mas no confronto e no exame de si mesmo, que o homem consegue objetividade e conquista um self com referência a sua concepção de seu mundo. O critério para este auto-esclarecimento é o de que não só o objeto, mas nós mesmos entramos totalmente em nosso campo de visão.

Karl Meinheim, Ideologia e Utopia

 

Não dá para fugir desse assunto. No vídeo a seguir, vemos um livro interessante que trata da atual polarização que marca os EUA (e o mundo) entre ‘direita’ e ‘esquerda’ e a imputação de todo o mau, bad guys ao que eles chamam de right wing. Fatos, sim FATOS, como a Ku Klux Klan ter nascido no sul dos EUA, região de maior força política do Partido Democrata leva o autor, Dinesh D’Souza a trata-la como criação deste. É ler para conferir sua fundamentação, mas até aí cuidado com a disseminação desta argumentação como sendo fato consumado. “Na dúvida, não ultrapasse,” é o que se dizia, certo? Pois bem, o mesmo vale para um debate que tem como fim precípuo (ou deveria ter), a busca pela verdade. Confiram aqui:

Algumas considerações, como Mussolini ser marxista foram novidade para mim. Outra coisa para conferir. É possível, no entanto, devido à ideologia que grassa em determinada época e lugar se fazer afirmações ou manter crenças que podem ser classificadas de um determinado modo sem que o seu apologista ou crente se identifique com o conjunto da obra que é raiz daquele pensamento. Vejo isto a toda hora, gente que afirma que a desigualdade é a pior chaga social, que a violência decorre dela e que há exploração entre classes sociais, mas que nega veementemente uma utopia comunista sem que percebam que suas crenças mais recônditas surgiram atreladas àquilo que é objeto de rejeição. Enfim, mesmo que seja possível dissecar os objetos de crença fazendo recortes analíticos e distinguindo valores a cada seção desta ideologia é bom verificar sempre como aquilo que se acredita pode ser sustentado. É possível, por isso mesmo que Mussolini tenha acreditado ou proferido algo que endossasse Karl Marx sem, contudo, apostar no fim do estado como condição para criação de uma sociedade igualitária e justa. Analogamente, é possível como, aliás, foi de fato o que ocorreu, que adeptos da filosofia marxista, mas ligados à política, a sua práxis abandonassem, estrategicamente, os sonhos de uma utopia sem estado, sem nenhum tipo de ordem política hierarquicamente imposta para se dedicar ao controle do capital pelo (próprio) estado e a repressão de grupos de oposição identificados como da (ex-)classe dominante.

A percepção dos fenômenos políticos, como ele é absorvido, sobretudo pelas pessoas comuns e não necessariamente intelectuais organizados é que faz algo ser mais ou menos impactante na sociedade. Quando consideramos o longo prazo é que vemos ideias plantadas na cabeça de nossos alunos por décadas germinarem agora numa sucessão de explosões de fanatismo ideológico. Acontece que com as redes sociais, especialmente aquelas que permitem se comunicar de modo enxuto, nos trouxeram a hecatombe do raciocínio para vitória do discurso seco e raso. Como o Twitter tem mais apelo que os discursos e debates, o ritmo exponencial em que acusações crescem de ambos os lados – hoje todo mundo virou fake news – é fácil perceber que a premissa para um debate que busca objetivar resultados de que “eu também posso estar errado”, simplesmente inexiste. Por isso mesmo estudar esta percepção é fundamental. Vejamos agora um antigo militante da KKK agradecendo o incentivo de Donald J. Trump ao resgate de seu país. Obviamente que o que ele entende por ‘resgate’ não é necessariamente o que entendeu o presidente. Este não seria louco de pensar o mesmo, pois se pensou, é um louco mesmo. Vejamos aqui:

A causa próxima seria a remoção de uma estátua do general confederado, símbolo dos tradicionalistas suíços, Robert E. Lee. Claro que não seria só isso, a antinomia dos grupos é crescente e não vem de hoje, mas vamos a esta estátua da discórdia. Em que pese o fato do general confederado ter sido um militar e até após sua derrota ter sido convocado por Lincoln para liderar as forças armadas é irrelevante. Porque a questão não é a pessoa do general, mas sua figura pública que nunca se encerra em sua personalidade, histórico ou psicologia. Se ele lutou por estados, cujas elites dependiam e defendiam a escravidão basta para tirar uma estátua que é a antítese do que se discursa nos EUA, ao menos pelo discurso dominante na sociedade e em ambos os principais partidos. Se ele incentivou a união após ter sido derrotado, então, ao menos, sua estátua deveria especificar este ato, com uma placa na base. É simples de entender: mesmo que tenha havido um bom soldado alemão na II Guerra Mundial cabe manter uma estátua de um nazista em Berlim, muito embora o homenageado não tenha matado nenhum judeu? Claro que não! E qual é o problema de se retirar uma estátua? Se isto tem que ser decidido legalmente, que se faça, pois a mesma não seria retirada na marra. Agora sim é que a questão será atropelada graças à cizânia instaurada. Aliás, as estatuas de Lenin, Saddam et caterva também não foram retiradas na marra? Algum leitor aqui gostaria de rever esta atitude? E até mesmo províncias argentinas consideram retirar estátuas de Che Guevara. Como Trump disse ao defender a permanência do símbolo no campus, “não se muda a história”. Correto, mas se muda nossa reverência e leitura em relação a ela. E de mais a mais, se esta oposição entre esquerda e direita nos EUA se tornar insustentável, que se faça como querem aqui nos tribunais brasileiros: se retirem todos os símbolos que não sejam isentos ideológica e religiosamente. Sei que rumamos para um mundo mais regrado, mas ou é isto ou se discute mais de forma civilizada. O que vai ser? O que cansa o fígado é ver gente acusando a esquerda de mimimi (óbvio que ela aproveitou o episódio) porque uma direita autoritária formada por nazistas, alt-right e Ku Klux Klan querem manter uma estátua como pretexto de união das direitas. Ambos os extremistas irão aproveitar qualquer fato que sirva de discórdia para o embate, mas o poder público não pode ficar acuado simplesmente pela possibilidade e medo deste embate. Tem que se por as cartas na mesa e dizer quem é que manda no espaço público.

Acho que como post está suficiente. O assunto irá render mais, mas por ora encerro com a excelente declaração do governador da Virgínia que resumiu bem o que penso. Ah, sim! Dirão que por ser democrata, o governador esconde o passado racista de seu partido. Digamos assim, caro idiota… O sujeito não esconde nada, está tudo aí para quem quiser ver. O fato é que opiniões mudam, percepções mudam, principalmente quando estas se constroem ao longo da história, da longa história, o que torna possível, hoje termos gente que luta contra o racismo no sul dos EUA, lócus das leis racistas que chegaram a inspirar o III Reich na Alemanha. Agora, o discurso do governador:

 

Aproveitem o dia de sol que este fim de semana será de chuva.

Anselmo Heidrich

2017-08-17

 

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Por que dizer que o nazismo é de esquerda é anacrônico?

Após meu último texto li por aí que o nazismo não pode ser de direita porque é coletivista, autoritário, intervencionista, anticonservador (revolucionário no sentido da mudança de ordem vigente para outra pior, no caso) etc. Tudo isto é verdade, exceto por não poder ser de direita. Direita e Esquerda são termos relativos, assim como os polos geográficos, um inexiste sem o outro. O erro que vemos por aí, seja em textos, áudios, vídeos etc. é considerar uma direita especifica, a liberal na economia e conservadora nos costumes como a verdadeira direita. Isto é uma bobagem, pois este conceito específico se limita a uma dada conjuntura e realidade especifica. Transportar algo de determinado contexto para outro é o que chamamos em ciência social de anacronismo e é exatamente isto que grupos que levantam a bandeira da direita, assim como os postulantes da verdadeira esquerda fazem contra seus pares moderados. Lembremos que durante muito tempo, a chamada socialdemocracia era demonizada pelos radicais comunistas, ao passo que hoje ela é vista como a esquerda, manipuladora e que está por trás de todos os movimentos mundiais de “esquerdização” da política. Como as coisas mudam, não? Assim, quando se procura encaixar uma ideologia como o nazismo dentro de posições políticas na sociedade, como direita e esquerda, se corre o risco, não observadas as particularidades de cada época em deturpar o que era o objeto central – no caso, o nazismo – para que assim caiba dentro de uma visão dicotômica e simplista do mundo. Análoga e simetricamente, se o nazismo supera a simples posição de ‘esquerda’, também não se adéqua ao que hoje entendemos como ‘direita’. O impressionante, no entanto, é ver a empolgação daqueles que preferem discutir este par abstrato Direita VS Esquerda deixando de enfocar o próprio Nazismo, o que ajuda na ignorância da perenidade deste fenômeno sociopata até hoje, até mesmo em um país como o Brasil.

Segue aqui um excelente texto que versa sobre o assunto.

Boa leitura,

Anselmo Heidrich

 

Essas confusões sobre esquerda e direita se devem a vários fatores.

Movimentos políticos sustentam em seu momento histórico conjuntos de ideias que não guardam necessariamente muita relação entre si, e até mesmo podem parecer contraditórios mais tarde. Por exemplo, a independência americana foi um movimento de esquerda em sua época, porque pregava o fim da nobreza, defendendo a supremacia de “Nós, o povo”. Mas a maioria preferiu manter a escravidão, excluindo os negros do conceito de povo, e só os grandes fazendeiros tinham direito a voto.

A Revolução Francesa, por seu lado, pouco fez para conquistar a igualdade feminina, que em muitos casos até regrediu. O grande objetivo oculto dessas grandes e importantes revoluções foi transferir o poder das mãos da aristocracia e do clero parasitários para a nascente burguesia agrícola e mercantil.

O resultado foi uma grande democratização e o início da sociedade moderna, mas não tão completa então como a maioria imagina.

Se direita implica principalmente em ser conservador, mantendo o status quo social, e esquerda em nivelamento das classes sociais, como geralmente é entendido, é preciso não esquecer que em cada momento histórico esses eixos agregam em torno de si ideias e valores marcantes, mas não conceitualmente essenciais. Um exemplo é a diferença ente fascismo e nazismo com relação aos judeus, fundamental aos primeiros, mas não aos fascistas a que tomaram como exemplo em seu início. Ambos eram totalitários, ambos hegemônicos em seus delírios de grandeza, mas o antissemitismo só foi introduzido na Itália por pressão alemã.

Além do reconhecimento de que cada ideologia em marcha é formada por vários vetores nem sempre afins, há ainda a deriva histórica dos movimentos, em função dos acidentes que lhes atravessam no caminho e alteram seu próprio eixo.

Há um bom exemplo aqui no Brasil. Se compararem a política social e econômica dos militares de 64, verão que era muito mais afim com os trabalhistas, seus inimigos de morte de então, que com os liberais de mercado da época, como Lacerda, e muito mais com a direita liberal de hoje. Eram nacionalistas, acreditavam na ação positiva do governo na economia, e na implantação de leis e programas de proteção social.

Como, então, decidir se este ou aquele movimento foi de esquerda ou direita? Eram de esquerda os militares de 64?

Uma boa pista para sair do imbróglio é observar qual o foco daqueles movimentos em sua ação política, no tempo em que atuaram.

O movimento de 64 se colocou como barreira ante o crescimento da ação da esquerda, que vinha assustando as classes médias brasileiras. Igualmente, o fascismo e nazismo se alimentaram em seus países do temor de que a hegemonia das esquerdas fosse implantada, tanto pela via democrática, aonde vinham conquistando benefícios, como férias remuneradas, semanas de 44 horas de trabalho, quanto pela via revolucionária, que alguns partidos pregavam.

Mas nazismo e fascismo, como notam alguns direitistas, estabeleceram algumas medidas de proteção aos trabalhadores, a “Carta del Lavoro” de Mussolini é um bom exemplo e modelo de nossa CLT. A razão é simples, não se pode simplesmente estancar benefícios para 90% da população e sair incólume, o que era preciso no momento era que alguém controlasse o processo, que então parecia caótico aos olhos de muitos, e se fixasse como mediador, definindo o que poderia e o que não poderia ser concedido.

O resultado é que se deram algumas garantias aos trabalhadores italianos que, unidos a forte repressão, fragilizaram o movimento de esquerda naquele país.

Não há dúvida de que aqueles movimentos foram a arma da direita para enfrentar as forças de esquerda.

Olhar os programas que defendiam sob a ótica de hoje leva a grandes equívocos.

Até por que os esquerdistas e direitistas de hoje têm grandes diferenças com os daqueles movimentos do passado.

Um exemplo curioso é a integração das esquerdas latino-americanas com a cúpula da Igreja e muitos países, contra a antiga tradição anticlerical.

E se você se diz de direita, porque defende o estado mínimo, e também a igualdade de gênero e das mulheres, não se meta numa viagem do tempo para a Itália dos anos 30, pois os fascistas iriam prender você e fazê-lo beber muito óleo de rícino, como perigoso esquerdista.

É a deriva política, meus caros.

Por fim cabe mais uma observação importante: cada homem de ideias, em cada momento acredita que conseguiu atingir o “Fim da História”, ou seja, a visão universal e permanente do Direito Natural. Assim acreditam os bem intencionados de hoje, de todos os matizes… Inutilmente.

 

Carlos Bertomeu

2017-08-16

CHRIS ROCK, a ESQUERDA e a DIREITA

Nenhuma pessoal normal e decente é só uma coisa. Ok?! Em um monte de bosta, eu sou um conservador e em um outro monte de bosta, eu sou um liberal. No crime, eu sou conservador. Na prostituição, eu sou um liberal. 

Chris Rock

 

Quatro dias atrás, uma manifestação racista acabou em violência no estado da Virgínia, EUA. Ativistas da Supremacia Branca, Alt-Right (Alternative Right) e a renascida Ku Klux Klan marcharam até o campus local onde havia uma estátua do General Lee, um dos líderes confederados que defendia a escravidão na Guerra de Secessão (1861-1865) e que ameaça ser retirada, pois é vista como um “símbolo racista”. Claro que o evento serviu a outros propósitos que não a mera preservação de uma ingrata memória: a “união das direitas”, como asseverou um de seus membros era a real motivação da marcha de celerados. Aí, por causa disto, os antiesquerdistas brasileiros surtaram.

Por quê? “Porque nos igualaram a nazistas,” alguém diria. Vem cá, há uma essência inabalável no conceito da palavra Direita? Se há, me provem. Da mesma forma, há uma essência inabalável no conceito da palavra Esquerda? Eu digo que não. Esse é um dos temas que mais me apaixona e não é a discussão de filosofia política ou mais simplesmente, ideologia, mas sim, em como as pessoas percebem as mesmas ideologias e seu papel nelas. Ou seja, como as pessoas se imaginam vinculadas a certos conjuntos de ideias.[1]

A birra toda veio porque a esquerda tupiniquim guiada pelos anti-Trumpistas que quiseram associar a presença dos manifestantes racistas que também apoiaram Donald J. Trump à presidência, como uma inabalável prova de sua má influência, o que teria encorajado tais movimentos. Cá entre nós, Trump pode ser um tanto desastrado em suas declarações (embora muito menos do que o nosso Bolsonaro), mas ele não é burro. Aliás, seu governo está se saindo muito bem, mas este é assunto para outro artigo… A questão é que em uma era midiática, que se expressa opiniões em apenas 140 caracteres no Twitter, vocês querem o quê? Altos debates com fundamentação filosófica e teórica? Não dá. Assim como em toda a guerra, a primeira vítima é a verdade, o que mais se viu de ambos os lados foram falsas acusações. E isto não seria diferente aqui no Brasil.

Agora, que nossa esquerda brasileira faça pouco caso das ameaças de um louco na Coreia do Norte que ameaça não só os EUA, mas também ilhas no Pacífico, sua vizinha, a Coreia do Sul e o Japão ou o assassinato de mais de 120 jovens que protestaram contra o fim da democracia na Venezuela na semana passada ou contra a pior corrupção do planeta capitaneada pelo PT aqui no Brasil, eu não me admiro. Obviamente que ela tentará encobrir estes e outros fatos, FATOS com a morte de uma militante antirracista por um canalha assassino que furou sua marcha batendo em um carro que colidiu com seu corpo. Uma morte sim, mas uma morte estúpida feita por um fanático que trouxe a ira de americanos contra seu protesto a favor da preservação da estátua de um militar a serviço dos escravocratas. Claro que Trump poderia ter sido rápido no gatilho ao condenar o protesto e o timing dele, por vezes tão ágil no Twitter falhou. Acabou se manifestando, só que depois de vários congressistas de seu próprio partido se anteciparem. Dentre todos que li, a melhor foi do senador veterano pelo estado de Utah:

“Meu irmão não deu a vida lutando contra Hitler por suas ideias nazistas para que elas fossem aceitas aqui em casa.”

Por que um cara desses não é escalado para ser um POTUS (President Of The United States) com uma firmeza moral destas é um mistério para mim. Enfim, Trump condenou a marcha sim, mas considerou que retirar a estátua do General Lee seria o mesmo que então tirar as de George Washington ou Thomas Jefferson, alguns dos Pais Fundadores da nação por que estes também tiveram escravos. Erro, presidente, o senhor está errado. Ou sofismou ou caiu vítima do próprio equívoco em misturar épocas. Fazendo uma analogia: John Locke foi um dos maiores pensadores do liberalismo econômico que se conheceu na história. Só que na sua época, século XVII, a escravidão era vista como algo totalmente lícito, no que lhe permitia ser acionista de uma empresa que traficava escravos. Absurdo, não? Sim, plenamente, mas não para os padrões da época. Assim como não para os próprios padrões de africanos antes de meados do século XX, quando ter escravos era tão comum e normal que os próprios conterrâneos caçavam e vendiam seus ‘irmãos’ aos europeus em troca de mercadorias; assim como não para os povos da Mauritânia, país africano acusado pela ONU de ainda manter nos dias de hoje, a prática da escravidão entre os seus. Leiam com atenção, a escravidão não tem desculpas, não se justifica, mas se compreende e compreender NÃO é aceitar. O caso é que se aproveitamos John Locke ou Thomas Jefferson em alguma coisa, não foi por sua relação com a escravidão, mas sim pela defesa da liberdade que, inclusive serviu para acabar com a escravidão. Entendam que as ideias superam, vão além desses mortais que, por acaso, as enunciaram. Agora, me digam aqui, quais ideias eu posso aproveitar de um General Lee? Alguma tática militar talvez, mas é por isto que tem uma estátua dele no campus? Acho que não.

Donald J. Trump erra e erra feio porque depois da derrota do sul escravagista, manter símbolos desse período e de quem lutou para manter o status quo não é só preservar um símbolo de independência, mas de dependência de um ser humano visto e condenado ao status de ser “uma coisa de alguém,” este sim livre. Em minha opinião, a estátua do General Lee deveria ser posta abaixo e construída uma do presidente Lincoln, o abolicionista em seu lugar. Sei, sei que a guerra não teve seus propósitos limitados a isto, que houve motivações, predominantes dir-se-ia, estritamente econômicas, como a manutenção de um mercado (sulista) protegido para os manufaturados do norte yankee. No entanto, isto não demove um milímetro, o fato de que a guerra acabou com a escravidão, malgrado o racismo não termine com guerras, mas sim com miscigenação. E a miscigenação nos EUA, comparativamente a países como o Brasil é muito tímida, embora tenha mudado de alguns anos para cá, lentamente. E é isto que apavora a KKK, os supremacistas e toda esta escória. Se não podemos saber o que pensariam George Washington e Thomas Jefferson de tudo isso, não quer dizer que não sabíamos o que pensava o General Lee. Sabemos sim e manter a bosta da estátua que serve para acumular merda de pombo no campus é uma provocação.

Bem, o que fez nossa direita? Indignou-se por chamarem os racistas de ‘direita’ e se empenhou em produzir textos e textos, vídeos e vídeos chamando nazistas de esquerdistas pela palavra Nazismo ser um acrônimo de “Nacional-Socialismo” do Partido Nacional-Socialista Alemão. A dedução lógica é se o nazismo se originou na esquerda, então “o racismo é socialista”. Reparem, a defesa dos direitistas foi do mesmo quilate da acusação dos esquerdistas “vocês liberais são direita e a direita nos EUA é racista, logo…” Algum comentário ou análise sobre o caso em si? Isto foi de passagem, mas se concentraram em “limpar a barra da direita”, como se eles fossem responsabilizados pelo que ocorreu em Charlottesville, VA. Pessoal, vocês da Direita, sinto lhes dizer, mas vocês morderam a isca! A questão de se os nazistas eram direitistas na Alemanha, caso alguém se interesse em saber minha opinião, não se responde pela filosofia política (ideologia) e sim pela história: havia algum grupo “mais a direita”? Os liberais econômicos? Estes eram expressivos na composição política alemã do pré-II Guerra? Se não, então os nazistas entram como direita e não importa que sejam estatistas, pois o socialismo como organização econômica não vincula seus membros e apologistas, necessariamente, com o racismo. Até os anos 70, na América Latina, quando o comunismo era visto como alternativa viável pelos seus intelectuais, o keynesianismo, hoje chamado de ‘esquerda’ por liberais(-econômicos) era encarado como de direita porque, ao final das contas servia como um conjunto de políticas destinadas a salvar o capitalismo e não permitir que suas crises levassem a sua ‘superação’. Entendam de uma vez por todas que os diabos dos termos Esquerda e Direita são RELATIVOS! Não confundamos divergência econômica com cizânia racial ou social. São coisas distintas. É possível termos liberais em termos econômicos que não apreciem negros ou negros liberais que não gostem de hispânicos e por aí vai. POR ISTO, tanto faz se o nazismo é de direita ou de esquerda, DEPENDE do que estejamos considerando. Pense, o mundo não precisa ser manipulado por inteligentes e sábias cúpulas dirigentes, basta que seja normalmente estúpido, como de fato o é. E é aí que está a matéria-prima de quem apoia a estupidez, nos estúpidos que vão apoiar comunistas, que vão apoiar nazistas, independente de que numa dada conjuntura, eles estejam mais a direita ou mais a esquerda. Isto é irrelevante. Nunca subestime a ignorância, o racismo é uma constante mundial mitigada em sociedades, locais, cosmopolitas e em raros casos de países onde as tribos se miscigenam tendo casamentos interétnicos como padrão. Afinal, filhos amam seus pais, independente se são judeus ou palestinos. Daí se forem os dois, se importarão menos com os deuses de cada um e sim com quem lhes afaga e beija antes de dormir.

Minha posição política? Depende. Neste caso, ninguém melhor do que Chris Rock, ator e comediante americano para responder por mim:

“The whole country’s got a fucked up mentality. We all got a gang mentality. Republicans are fucking idiots. Democrats are fucking idiots. Conservatives are idiots and liberals are idiots.

Anyone who makes up their mind before they hear the issue is a fucking fool. Everybody, nah, nah, nah, everybody is so busy wanting to be down with a gang! I’m a conservative! I’m a liberal! I’m a conservative! It’s bullshit!

Be a fucking person. Listen. Let it swirl around your head. Then form your opinion.

No normal decent person is one thing. OK!?! I got some shit I’m conservative about, I got some shit I’m liberal about. Crime – I’m conservative. Prostitution – I’m liberal.

Chris Rock on Liberals And Conservatives”

 

Perspicaz, o rapaz. Um excelente dia a todos.

 

Anselmo Heidrich

2017-08-16

 

[1] Aqui, alguns de meus textos sobre a divergência e definição de Direita e Esquerda:

Interceptor: Kamaradas! http://inter-ceptor.blogspot.com/2017/02/kamaradas.html?spref=tw.

Interceptor: Enquadrando George Orwell http://inter-ceptor.blogspot.com/2016/09/enquadrando-george-orwell.html?spref=tw.

Interceptor: Direita, esquerda, esquerda, direita? O quê? http://inter-ceptor.blogspot.com/2015/06/direita-esquerda-esquerda-direita-o-que.html?spref=tw.

Interceptor: Classificação política e falta de objetividade http://inter-ceptor.blogspot.com/2014/11/classificacao-politica-e-falta-de.html?spref=tw.

Interceptor: Detalhes sobre a crítica ao fanatismo de direita -… http://inter-ceptor.blogspot.com/2013/08/detalhes-que-superam-critica-principal.html?spref=tw.

Interceptor: E o marco ideológico não entende a política no mun… http://inter-ceptor.blogspot.com/2013/07/e-o-marco-ideologico-nao-entende.html?spref=tw.

A noite escura da amoralidade

Anselmo Heidrich

 

A criminologia se apoia em varias ciências para descobrir seu objeto de estudo, o crime. Entre elas está a biologia e a sociologia, das quais derivam diferentes correntes de pensamento. Em sua meta de compreender as causas do crime, a criminologia se distingue do direito penal que, por sua vez, é normativo. Mas, divergências a parte, me parece faltar um pedaço da pizza nesta historia toda… Se a criminologia pressupõe o estudo da sociedade para compreender o comportamento delituoso, temos que admitir a moral ou comportamentos orientados por padrões morais como constitutivos das sociedades. E a moral é claramente normativa, sendo uma base da justiça e, por extensão, do direito. Não levá-la em conta tem como produto (direto) o crime, que começa na imoralidade. Por essa razão temos a sensação que comunidades menores, em priscas eras, havia uma maior estabilidade e repressão espontânea, realmente social e não só estatal ao crime. Portanto, dizer que “tudo é relativo” leva ao universo sem referências onde o próprio estudo das leis perde todo seu sentido. Vejamos esta bizarrice aqui:

Os grupos conservadores, liberais (no sentido brasileiro), cristãos, judeus sionistas etc. têm-se limitado a opor à hegemonia revolucionária nas universidades o combate intelectual, a “guerra cultural” ou “luta de idéias”. Apostam nisso o melhor das suas forças. Mas é estratégia absolutamente impotente, pois o que está em jogo não é realmente nenhuma “luta de idéias” e sim uma luta pela conquista dos meios materiais e sociais de difundir idéias – coisa totalmente diversa. Você pode provar mil vezes que tem a idéia certa, mas, se o sujeito que tem a idéia errada é o dono das universidades, da mídia e do movimento editorial, o que vai continuar prevalecendo é a idéia errada. (…)

A luta pela ocupação de espaços pode comportar uma parte de debate político-ideológico, mas tem de ser uma parte bem modesta. O essencial não é vencer as “idéias” do adversário, mas o próprio adversário, pouco importando que seja por meios sem qualquer conteúdo ideológico explícito. Trata-se de ocupar o seu lugar, e não de provar que ele está do lado errado. Isso se obtém melhor pela desmoralização profissional, pela prova de incompetência ou de corrupção, pela humilhação pública, do que por um respeitoso “debate de idéias” que só faz conferir dignidade intelectual a quem, no mais das vezes, não tem nenhuma. Obviedades estratégicas- Olavo de Carvalho

Aqui temos um Olavo de Carvalho reciclado, maquiavélico agora, uma vez que parece não ter logrado grande coisa com sua cruzada lá na Virgínia… Bem, o que está errado no raciocínio dele? A desconsideração de que os grupos que, atualmente, mais nos influenciam culturalmente começaram no campo das ideias, quase que exclusivamente. E eles eram essencialmente professores que, por sinal, continuam ganhando mal e não sendo proprietários dos meios de produção intelectuais, dos quais Olavo clama pela tomada. O caso é que a ideologia se estendeu, atingindo esferas antes não contaminadas, como é o caso do domínio legal do qual falávamos mais acima. Os grupos que não tinham estratégias claras para obtenção dos recursos materiais tinham o que efetivamente? A força das idéias e muito embora eles não sejam os líderes ou gestores desse processo revolucionário, o corpo de doutrinas esquerdistas está sim no topo da agenda política e jurídica do país (estatizações, direito alternativo, relatividade da propriedade, anticapitalismo etc.). Bem ou mal, a força, o sustentáculo deles foi uma visão apoiada em seus valores morais. Ora, se jogarmos isto fora, esta âncora de ideais que nos mantém vivos na tempestade de dúvidas que é a busca pela compreensão das sociedades, não temos nada. Simplesmente, nada.

Então deixemos a dominação material de lado e vivamos apenas de ideais? Não, mas a visão ideológica que deve ser endossada é justamente a que permite igualdade de direitos para que qualquer um possa deter domínio material próprio, que o torne o mais autônomo possível em relação a quem concentre mais recursos. Tal autonomia não deve significar isolamento ou uma espécie luddita de auto-suficiência, mas aquela que permita reciclar ou mudar a parceria econômica em função de um mercado competitivo, do interesse pessoal, do livre-arbítrio. Só tal sistema é que sustenta também a diversidade e maior autonomia de ideias.

Se não formos por aí, não entraremos nos eixos. A busca por ligações, porém minoritárias de Olavo de Carvalho é uma “obviedade estratégica” similar a do status quo. Sem uma busca e reafirmação moral, não nos diferenciaremos daqueles que já a jogaram no lixo. Se “um respeitoso ‘debate de ideias’ (…) só faz conferir dignidade intelectual a quem, no mais das vezes, não tem nenhuma”, o jogo amoral sem o debate de ideias só faz destituir a dignidade moral de quem, no mais das vezes, tem alguma. Simplesmente, nos torna todos indistinguíveis, impuros e comuns como gatos pardos na noite escura da amoralidade.

 

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