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Anselmo Heidrich

Defendo uma sociedade livre baseada no governo limitado e estado mínimo.

Categoria

Justiça

O que se espera que o governo faça quanto a Amazônia

O que se espera de um governo em um momento de crise?

Um plano de contigenciamento, de socorro e um preventivo. O caso dos fogos da Amazônia, particularmente em Rondônia tem servido para uma coisa: mostrar a total incompetência e inabilidade deste governo federal.

Antes que me acusem de “petista” deixe-me dizer, os governos petistas mantiveram médias de incêndios maiores do que em 2019 (Bolsonaro), ligeiramente maiores, mas maiores. Então o problema vem de longa data e a incompetência não é exclusividade deste ou daquele partido, desta ou daquela liderança, da “direita” ou da “esquerda”, ela é institucional.

Há uma farta, eu disse farta literatura sobre desenvolvimento sustentável e não me venha com essa de “papo de ecochato”, “ambientalista melancia” (verde por fora e vermelho por dentro), apenas ouse entender, deixe de ser ignorante e se debruce em cima do material científico que realmente existe.

Propostas de como capitalizar pequenas comunidades inserindo-as no mercado para lucrar mantendo uma produção não predatória que vai das bases de Amartya Sen até técnicas de produção que unem conceitos agronômicos e ecológicos.

A biomassa da floresta equatorial é rica em compostos que podem ser aproveitados pela indústria farmacológica, de cosméticos à medicamentos. Frutas podem ser comercializadas em cadeias produtivas para atender os mercados das cidades brasileiras ou do exterior através de vias fluviais e sistema portuário, tudo bem alinhavado com suporte de marketing, promoção via relatórios e press releases de agências não governamentais, incluindo a própria ONU, documentários etc. Mas, não, o que prefere nosso governo de estúpidos?

O que prefere? Acusar ONGs de atear fogo na mata, o que não é impossível, mas qual animal pode acusar sem provas e deixar por isso mesmo pondo a cabeça debaixo da areia? Qual?

Estes exemplos que dei não tem nada a ver com um suposto “retorno à natureza intocada”, nada, até porque esses métodos de “limpeza do terreno” para o plantio são herança indígena – a coivara – e não há nada de eficaz neles para se manter a produtividade que queremos. Mas endossar o desflorestamento para introdução de pastagens para pecuária extensiva é mais uma garantia de ampliar a propriedade (via usucapião) do que propriamente de produção lucrativa. Já houve tempo em que o Brasil tinha mais cabeças de gado bovino do que população humana e aqui ninguém come um boi por ano.

Então, há mais desconhecimento e irregularidades no meio amazônico que em outras regiões brasileiras. Ora, se aqui mesmo na Ilha de Santa Catarina há muita irregularidade na obtenção de terrenos (por meio de posse) com “contratos de gaveta” imaginem nesses grotões do interior do Brasil.

Agora, é uma tosquice que enche o saco ver gente se aproveitando de um problema para disseminar sua agenda política e nada mais: a esquerda dizendo que “este governo está promovendo a destruição da floresta”, ajudada por um inábil ministro do meio ambiente que não sabe propor nada sobre a pasta que comanda e a direita simplesmente acusando a esquerda de fazer drama ridicularizando-a porque uma moça tatuou uma girafa no rosto onde escreveu “pray for the Amazon”.

A primeira medida que gente séria deveria adotar é:

1) conhecer os fatos;

2) propor soluções de curto prazo;

3) planejar medidas de longo prazo.*

No mínimo.

Depois se critica o que o idiota do Boulos disse, o que a Gleisi comentou, o que fulaninho ou sicraninha disseram.

Ficar nesta bola dividida de “antes foi pior” ou “agora é que é o caos” não mostra nada além de picaretagem explícita de ambos os lados.

Pelo menos eu ficaria feliz se soubesse que esta crise prejudicaria estes dois pólos de extremistas inúteis, mas não, apenas quem tiver o melhor esquema de marketing sobreviverá espalhando sua deturpação mais emotiva.

E la nave va.

Anselmo Heidrich


*Tenho algumas sugestões que vão além da “economia verde” para a região. Na sequência…🙃

Devido Processo Legal, pra que, né?

Por que defender o devido processo legal? Por que defender a lisura da justiça? Sei que isso soa como uma tentativa de defender a soltura de bandidos condenados pela Lava-Jato, especialmente Lula, mas não é… Este, creiam-me, é o menor dos problemas. A oposição JÁ capitalizou politicamente em cima de tudo que aconteceu e não nos deixará esquecer. O problema mesmo é outro e muito maior. O que está por vir, por causa desta “tecnicalidade”, como querem diminuir a gravidade do fato da ausência, não é escassez, mas total ausência de isenção de Moro é muito, muito pior do que tudo que ganhamos ou, supostamente, ganhamos no combate à corrupção.
Seguindo o exemplo de Moro, logo teremos vários juízes torcendo e manipulando processos contra empreendedores porque são favoráveis a organizações de classe sindicalizadas. Daí é que eu quero ver o tiozão patriota comemorar. Quero ver comemorarem quando tudo que é juiz espalhado pelos rincões do país, filhos diletos do coronelato regional achar que tem cheque em branco para fazer o que bem entender com os casos que lhes caírem no colo na defesa de seus interesses e do seu clã.
E quem acha que não irá surgir uma verdadeira “indústria de processos”, muito mais lucrativa do que a alegada “indústria de sentenças” não sabe como a venda parcelada se torna muito mais lucrativa do que vender a vista.
Em um futuro não muito distante, os lúcidos de gerações que ainda não pisaram nesta terra ainda se dividirão em vários grupos políticos, tendências ideológicas como sempre ocorreu, mas serão unânimes em um ponto:
Combater a corrupção com métodos corruptos tem efeitos colaterais tão ou mais deletérios do que a primeira forma.
Não sei como definir o sentimento que tenho por quem idolatra mitos e não enxerga o que está por vir. Só sei caracteriza-lo como um misto de pena e nojo de quem vive para servir, mas não serve para viver.

Anselmo Heidrich
6 jul. 19

DesMOROnou

Sabe qual é a merda? Que enquanto nós, latino-americanos não aprendermos a respeitar as instituições pode colocar o governo que for, com qualquer coloração ideológica, nada vai mudar. Eu estive pensando qual é a razão de um juiz experiente e conhecedor da Lei cometer um erro tão fundamental? É porque esse tipo de conluio deve ser comum entre eles. Te lembra do caso do Flávio Bolsonaro e o amigo do pai, o Queirós que recebia uma verba muito maior do que era sua renda? Ouvi várias vezes esse tipo de argumento ”sempre foi assim, por que só agora?” Porque calhou de ser agora, oras! Se a gente acha que pode porque “vale tudo contra o PT”, qual é o nosso argumento MORAL contra o petista quando ele nos disser a mesma coisa “por que só agora?” Cara, nós simplesmente falhamos enquanto povo que deve seguir a Lei. A Lei é ruim, fraca, ineficaz? Então que se mude a Lei, mas ficar nesses atropelos, nesses atalhos? Sabe o que vai acontecer? Lula será solto. Parabéns Moro, parabéns Dallagnol. Parabéns Lava-Jato, MPF.

Se a bandeira da direita fosse Reinaldo tem razão, ao invés de Olavo tem razão, o Brasil estaria em melhores mãos.

Falar em direito constitucional, mas fica no processo e se lixa pro desvio de processo que o próprio Moro tomou. Engraçado que a ética vale para um lado, mas não vale para outro. Agora vem com a mesma conversa dessa Direita débil-mental de só criticar a origem das denúncias, porque era “de esquerda”. E a verdade onde fica aí? Fica na lata do lixo da História. Agora é bonito ver liberais (aqui ainda existem) babando ovo de cara que defende o estado, que defende a submissão da liberdade individual. Foda-se se o jornalista é de esquerda, atente: ele mostra ou não mostra dados verdadeiros????

Então, se o vazamento dos áudios do Temer trouxeram a alegria da Direita, por que agora não? Se defenderem isso de cara limpa, Ok, nem discuto, mas não me venham falar em construir nossas instituições ou fazer qualquer coisa em função de um Estado de Direito. Isto morreu, o que não morreu foi o ‘Estado de Direita”. O estado brasileiro foi mesmo encampado, é como uma bola de basquete que ficou muito tempo sendo quicado pela Esquerda e agora está com a Direita. Isto é republicanismo? Para mim, não.

Pois é… Imagine um juiz mantendo conversas e ORIENTANDO a defesa de um réu. Bacana né? Nããããããoooooo! Mas e com o promotor pode?! Nem um nem outro, leia a Constituição e o Código de Ética da Magistratura. Este é o Brasil que pensa ser primeiro mundo procurando uns atalhozinhos inocentes…

Mas vai dizer isto que te chamarem de “liberal limpinho” é barato.

Anselmo Heidrich

11 jun. 19

Weber, Mussolini e o Falso Liberalismo do MBL

Lembro-me como se fosse hoje, quando jovens de periferia marcavam encontros em massa nos shoppings paulistanos em 2014. E em liminar polêmica, juiz determina que os jovens de periferia seriam multados em R$ 10.000,00 pela prática de “rolezinho”, independente de danificar qualquer objeto nas dependências do estabelecimento privado. Na verdade, o que se viu, foi que havia “direitos distintos em choque”, o dos lojistas do referido espaço e o dos usuários que não estavam ali para gastar ou consumir qualquer produto que não fosse seu espaço gratuito.

O povo que sempre procura na legislação, brechas para seu ativismo considerou a decisão um “direito a segregação”, mas o que está em jogo aí não é só o direito de ir e vir, mas como ir e vir. É um caso análogo ao dos ambulantes, que querem trabalhar e procurar meios de sobreviver, mas não raro o fazem se apropriando de um espaço público, passeio, calçada que permite às pessoas garantir o seu direito de ir e vir e acesso aos lojistas e comerciantes que pagam suas taxas e tributos para estarem ali.

Max Weber considerava, como é bem sabido, a dominação como tipificada em três tipos-ideais (modelos), a carismática, tradicional e a racional-legal. Para sermos didáticos, a primeira poderia ser de um líder religioso, uma aiatolá, p.ex.; a segunda, da monarquia; a terceira, comum nas modernas sociedades burocratizadas e dependentes de um corpo jurídico bem extenso. Análogo a isso, seu estudo sobre a cidade enfatizava formas de domínio não clarificados por nenhum dos modelos dessa tipologia. Na sua obra Economia e Sociedade, ele considera a tipologia das cidades através do conceito de “dominação não legítima”, isto é, não especificada por nenhuma norma legal explícita. Assim como isto ocorre no meio urbano, formas de domínio através da estruturação da cidade, outros se formam no atual ambiente virtual e não são devidamente contemplados pela legislação. Aí se insere a confusão em relação à postura do Facebook (FB) e a acusação de que esteja “influenciando as eleições”, enquanto que foi justamente o contrário.

Em primeiro lugar, o FB é uma empresa pública? Foi tombado como Patrimônio Mundial da Humanidade? Assim como comemoramos que a LATAM puniu um funcionário que assediou turistas russas porque ela tem esta autonomia, por que discordamos do mesmo princípio ao FB de deletar contas de quem entenda como discordando de seus princípios de convivência? Veja… Muitos liberais brasileiros que atualmente se enquadram como “de direita” no Brasil se posicionaram à época dos “rolezinhos” contrários a tais manifestações porque, afinal de contas, o espaço dos shoppings era privado. Então, por que diabos agora deveria ser diferente? Por quê? Só por que os envolvidos são de grupos e páginas das quais eu concordo? Além do mais, grupos como o Movimento Brasil Livre (MBL) sempre tão zelosos de erguer o estandarte do liberalismo parecem ter esquecido (ou nunca leram e se leram não entenderam) o que disse Milton Friedman em seu Capitalismo e Liberdade, no qual defendia que qualquer forma de contratação deveria ser válida em nossa sociedade fosse ela baseada em premissas positivas ou negativas de quem fosse o contratado, seja por critérios racistas, anti-racistas, homofóbicos, transgêneros, feministas, machistas, nacionalistas, multiculturalistas etc., o que fosse! Os governos simplesmente não deveriam se intrometer na livre contratação e atuação das empresas, então por que cargas d’água deveria o FB agir segundo uma norma estipulada por algum estado? E o MBL não está dando azo ao controle estatal? Ao contestar a liberdade empresarial do FB está sim. Está se comportando de modo anti-liberal e profundamente intervencionista, para regozijo de Mussolini.

Anselmo Heidrich

(Continua…)

Hernando de Soto e a Propriedade

5/6 da humanidade compreendidos pelos países ex-comunistas e países subdesenvolvidos não alcançaram o sucesso dos países capitalistas na geração de capital, mas:

“Por que no mundo em desenvolvimento as pessoas respeitam contratos e honram compromissos relacionados com a propriedade, acordados por elas e seus vizinhos, e ao mesmo tempo não respeitam aqueles que tentam lhes impor seus governos? Por que as pessoas aceitam assumir responsabilidades individuais dentro desses contratos sociais extralegais ao mesmo tempo em que se afastam – ou resistem a aceitar – as leis que seus governos desejam impor?” (p.13).

Hernando de Soto nos ajuda a compreender porque as leis que apoiam o capital não são tão diferentes da moeda. A chave do sucesso se estabelece, fundamentalmente, numa relação de confiança. Em suas palavras:

“Não é sua própria mente que lhe confere direitos exclusivos sobre um determinado ativo, mas outras mentes pensando em seus ativos no mesmo sentido em que você o faz. Por isso, a propriedade em qualquer de suas formas é um conceito construído a partir do consenso de muitas mentes pensando em seus ativos no mesmo sentido em que você o faz. Por isso, a propriedade em qualquer de suas formas é um conceito construído a partir do consenso de muitas mentes sobre como e por quem as coisas são possuídas; por isso a propriedade é uma trama de relações que propicia a criação de capital” (p. 14).

 

SOTO, Hernando de. O Mistério do Capital. Rio de Janeiro: Record, 2001.

O PRINCIPAL INGREDIENTE NA LUTA CONTRA A CORRUPÇÃO

(Imagem: For Brazil's white-collar criminals, 2015 was the Year of the Snitch chicagotribune.com)

ANSELMO HEIDRICH[i]

A rigor, a corrupção não é uma doença identificada em alguma classificação estatística de doenças como o CID,[1] mas ela se relaciona a estes efeitos orgânicos em vários sentidos. Em Serra Leoa, país da costa ocidental africana e portador de um dos menores índices de desenvolvimento humano (IDH) mundiais, os protestos contra a inação governamental contra surtos de Ebola resultaram em aprisionamento de seus manifestantes (The Guardian, 2016). Portanto, quando criticamos a situação econômica e social de países pobres lembre-se que isto é pior do que um mau arranjo institucional ou péssimos índices de desenvolvimento humano, mas sim a repressão bruta a toda liberdade de expressão que visa apontar a ineficiência e corrupção governamentais.

Pode se argumentar que estamos longe deste cenário, que o Brasil reagiu a um quadro de corrupção sistêmica, quando este atingiu seu ápice. Isto tudo pode ser verdade, mas para uma parte do país, a sociedade. A outra parte, nosso estado não tem o mesmo tipo de imunidade. Lembre-se que a maior parte das andanças do ex-presidente Lula por Cuba, República Dominicana, Gana e Angola foram bancadas pela Odebrecht, a principal beneficiária de obras licitadas pelo governo petista. Foram bilhões em projetos só para esta empreiteira e mais outros de financiamento pelo “banco público” mais conhecido como BNDES. Mas o que faltou aqui para os manifestantes anticorrupção terem o mesmo destino de serraleonenses? O que quase tivemos, um Estatuto da Imprensa.

A abertura de mais um congresso do PT, em 2011 marcava uma antiga obsessão do partido, que é o controle da imprensa, sob o eufemismo de “democratização dos meios de comunicação” (Veja, 2011). Este é um risco enorme que ainda temos, caso os mesmos agentes que lideraram o maior esquema de corrupção mundial possam retornar aos postos de direção de nosso Executivo (já que ainda persistem no Legislativo e têm notória influência no Judiciário). Por isso é um erro achar que a corrupção é só financeira. Nossa complacência com ações que levam ao totalitarismo, o total controle da sociedade começam com o ataque sistemático a nossa liberdade de expressão, este é o ponto. Quando se torna a manifestação de qualquer opinião como, necessariamente favorável ao estado, não há mais separação nítida entre setor privado e público. E aí pouco importa se o que veio primeiro foi o ovo ou a galinha, se o poder público engolfou o privado ou se o privado embolsou o público, o resultado negativo é o mesmo. Ao invés de termos menos interferência de interesses escusos, o contrário ocorre e para nos iludirmos ganhamos conceitos como “participação política” de brinde. Se por acaso, um de seus resultados é adverso aos interesses em jogo, simplesmente se ignora os mesmos resultados, tal como aconteceu com o Estatuto do Desarmamento.

Tentou-se avançar no controle da sociedade com o Estatuto da Imprensa, temporariamente suspenso e depois o Decreto dos Conselhos Populares, no qual um membro do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) ou qualquer outro grupo subsidiado pelo estado teria tanta voz quanto um parlamentar revelando a clara intenção de solapar a verdadeira democracia representativa. É evidente que a corrupção não é um produto exclusivo Made in PT, mas se há alguma agremiação política que sintetizou melhor esta anomia social, esta foi o partido de Mr. Lula e por isso mesmo não foi casual que a luta contra a corrupção começasse atacando este partido. Só que agora não pode se limitar a ele… Quando sabemos que a polícia federal acusou o Instituto FHC de receber 975 mil em doações da Odebrecht fica claro que alguns dos principais partidos políticos do país não podem se destacar de um dos seus principais financiadores, que não há autonomia de fato e isto mina a estrutura que deveria garantir uma mínima isenção política. Mas antes a raiz do problema se limitasse ao âmbito federal…

O Brasil possui mais de 5.500 municípios. Se o Congresso Nacional e o Executivo, mais visados apresentam flagrantes casos de corrupção já investigados e em julgamento imaginem o que não encontraríamos diluídos em todas as municipalidades? Em 2015, a Polícia Federal investigou a Câmara de Florianópolis, na qual cerca de 14 vereadores teriam recebido quase 900 mil de propina para aprovar um novo projeto de publicidade para a cidade. Isto, em uma operação, dois anos atrás em uma capital.

É verdade que quanto maior o estado, maior a corrupção. Trata-se de um enunciado plenamente lógico, mas há mais do que isto em jogo. 80% dos municípios brasileiros são avaliados como tendo péssimas administrações (Melo et al., 2018). As denúncias vão de desvios de verbas da merenda escolar a fraudes nas desapropriações passando pelo superfaturamento e excesso nas compras de materiais de consumo, nos combustíveis, irregularidades em licenciamento de obras, falsos orçamentos para manutenção da frota de veículos, acusações de nepotismo, existência de funcionários fantasmas, superfaturamentos na construção de escolas, hospitais, ginásios e outros prédios públicos, compras de carros de luxo disponibilizados ao gabinete do prefeito e muitas vezes utilizados com fins particulares, compras superfaturadas de medicamentos, material e equipamento hospitalares. Nos maiores centros urbanos também há irregularidades nas concessões de transporte coletivo, nos aumentos dos preços das passagens, fraudes nos serviços de coleta de lixo e limpeza urbana, desvios de verbas federais oriundos de convênios específicos, e a clássica alteração financeira e patrimonial de prefeitos após o término de seus mandatos em comparação ao período de sua entrada sem que se investigue como isto foi possível.

Se fosse apenas uma questão do tamanho do estado, isto não deveria existir porque os orçamentos municipais são bem menores, mas há outro motivo: a centralização dos recursos na capital federal cria uma distância entre o cidadão munícipe e seu poder executivo. É como se os recursos fossem “doações federais” e que não lhes cabem gerir ou fiscalizar, mas que tudo depende de acordos e bom relacionamento entre o prefeito e instâncias superiores como o governo estadual e o federal. O grau de corrupção de uma sociedade depende do tamanho da máquina pública, isto é fato, mas não é algo autoexplicativo. O tipo de relação que levou a esta fusão entre bens públicos e interesses privados é chamado na literatura por patrimonialismo. É algo que deriva das sociedades em que os estados, seja na figura do monarca ou de alguma oligarquia, comuns na Europa Oriental não tiveram seus estados criados por uma base contratual com derrubadas de antigos regimes.

Se formos analisar o modus operandi do estado brasileiro, muito mais que um cenário de disputas interclassista, ocorre é uma verdadeira apropriação da máquina pública que deveria ser uma “coisa pública” (res publica). Neste processo de constituição do estado, ele tem muito pouco a ver com a formação de estados em sociedades liberais. Não se trata de uma excrescência, mas o patrimonialismo moderno, o chamado neopatrimonialismo que caracteriza estados como o brasileiro, vai além de formas de sobrevivência de antigas estruturas tradicionais. São formas bastante atuais de dominação política por um estrato social que não necessariamente detém propriedades como meio de dominação: a burocracia.

Em Bases do Autoritarismo Brasileiro, Simon Schwartzman explica nossa estrutura estatal de acordo com a linha de continuidade que Max Weber via entre a dominação patrimonial tradicional e a dominação neopatrimonial burocrática. Esta deve ser vista em contraste com outra linha de continuidade, que se deu entre o feudalismo e a dominação racional-legal que vigorou na Europa Ocidental. Ambas têm seus estados formados, mas apresentam diferenças na sua constituição. Enquanto que a primeira se caracterizou por forte centralização de poder, a segunda se pautou em “relações contratuais estabelecidas entre unidades relativamente autônomas” (1988, p.60).

Para melhor nos situarmos, vejamos o quadro esquemático abaixo:

Tipologia de dominação política em Weber Relação de poder
 

 

Sistema normativo

  Absoluta Contratual
Tradicional Patrimonialismo Feudalismo
Moderno Patrimonialismo burocrático (neopatrimonialismo) Dominação racional-legal

Apud Schwartzman, op.cit.

Como bem observou Raymundo Faoro em seu Os Donos do Poder, nem os críticos liberais, nem tampouco os marxistas deram conta de analisar o fenômeno do patrimonialismo, entendendo-o como meramente transitório (1989, p.735). Diversas especialidades de cientistas sociais, até bem pouco tempo relutaram em reconhecer este fenômeno como fator de força de uma sociedade. Se considerarmos as características do pensamento nos cursos de humanidades no Brasil que são basicamente marxistas, não é possível mesmo que seus pesquisadores entendam isto, pois para as teorias e metodologias que fazem uso constante, tudo se resume ao par dialético forças produtivas/relações de produção proposta por Karl Marx. Aqueles que foram adestrados a crer que “a história da humanidade é a história da luta de classes” ou que os agentes históricos por excelência são apenas duas classes fundamentais, a burguesia e o proletariado não conseguirão mesmo compreender a dimensão do poder de estado, que é um agente social dividido internamente em vários grupos de interesses, se tratando de uma arena por disputa de poder. O caminho para nos livrar do tipo de servidão que este Leviatã nos impõe não é uma revolução para tomarmos seu poder de assalto, mas reformas que o reduzam, substancialmente e, muito importante, o descentralize.

A importância desta observação reside no fato de que o desenvolvimento da sociedade pautada na propriedade privada não prescinde da máquina pública, pois afinal de contas, quer queira quer não é afetada por ela. O que tem que se levar em conta é que mais que a propriedade privada, a marca de uma sociedade livre da corrupção reside na existência de bases contratuais transparentes, cuja segurança jurídica não incentive contratos escusos, conluios, complôs, conspirações que são marcas indeléveis da corrupção. O ataque a legitimidade dessa sociedade baseada na confiança adquirida através de seus contratos é que traz a insegurança a nossa propriedade privada motivando muitos de nós a buscar refúgio em outras nações.

Não nos enganemos, nenhuma lei de “função social da propriedade” resolve o que o efeito do medo traz a quem dedica toda sua vida a trabalhar e gerar riqueza, conforto e bem-estar quando se tem a mais breve visão de perda total. Insegurança jurídica, inchaço da máquina pública, falta de transparência, expansão do poder burocrático, perda de autonomia dos contratos entre grupos, leis que regulamentam o que era livre, perda de incentivos em investir no país, desconfiança trazida com “direitos sociais” que são base da expropriação, demonização do empreendedorismo, aparelhamento político das funções de estado, sucateamento autoimposto pelas administrações municipais, populismo assistencialista na esfera federal, relação de dependência e submissão entre os entes federativos da união, estados e municípios, tudo isto leva aos caminhos ilícitos da corrupção. Só que antes disso tudo vem o ataque e censura à liberdade de expressão. Esta é que nos garante que todas as chagas associadas à opressão contra a liberdade se espraiem.

Hoje em dia temos com a descentralização da informação que não passa mais pelo monopólio de meios de comunicação ligados aos grupos de pressão hegemônicos, o principal ingrediente na luta contra a corrupção. Se podemos ver luzes distantes que nos apontem alternativas, tudo começou com a crítica e exposição de agentes que abusam de sua condição de homens públicos. Mesmo que libertados por um tribunal corrupto, suas vidas com os demais podem se tornar intoleráveis perante a censura individual de cada cidadão. A renovação cultural nasce da vergonha alheia, da indignação e da comunicação que adubam o solo da mudança e resistência contra a praga da corrupção.

Referências:

FAORO, Raymundo. Os Donos do Poder: formação do patronato político brasileiro. 8a ed. São Paulo: Globo, 1989.

MELO, Clóvis Alberto Vieira de; SOUZA, Saulo Santos de; BONFIM, Washington Luís de Sousa. Federalismo e bons governos: uma análise política da gestão fiscal dos municípios. Opin. Publica,  Campinas ,  v. 21, n. 3, p. 673-692,  Dec.  2015 . Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-62762015000300673&lng=en&nrm=iso . Acessado em: 15  Feb. 2018.

SCHWARTZMAN, Simon. Bases do Autoritarismo Brasileiro. 3a ed. Rio de Janeiro: Campus, 1988.

The Guardian. “Free speech becomes a talking point in Sierra Leone as WhatsApp storm ages.” Disponível em: https://www.theguardian.com/global-development/2016/nov/24/free-speech-talking-point-sierra-leone-whatsapp-storm-rages?CMP=share_btn_tw . Acessado em: 18 Dez. 2017.

Veja. “Mais do mesmo: PT quer controle da imprensa.” Disponível em: https://veja.abril.com.br/brasil/mais-do-mesmo-pt-quer-controle-da-imprensa/# . Acessado em: 18 Dez. 2017.

[1] Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde, publicado pela Organização Mundial da Saúde e referência básica da medicina.

[i] Professor de Geografia, licenciado pela UFRGS em 1987 e mestre em Geografia Humana pela USP em 2008.

Marielle Franco e os Oportunistas

Em primeiro lugar, ainda não se sabe quem matou a vereadora do PSOL, Marielle Franco, se foi um criminoso comum ou um miliciano ligado ou não à PM, qualquer aposta no atual momento é irresponsável; em segundo, quem mata por divergência ideológica é um criminoso, não importa qual sua convicção ou motivação. Agora, quem quer que faça uso político deste fato, sem saber de onde vieram e porque vieram os tiros não passa de um hipócrita, independente de compartilhar ideais comuns comigo, como o livre-mercado, estado mínimo etc., pois seus métodos se submetem aos fins a qualquer custo e com este tipo de gente vai chegar uma hora em que você mesmo será um obstáculo a ser ultrapassado e/ou eliminado. Tudo pela causa.

Anselmo Heidrich

Caso de Continental Arrogância

No mapa acima, a Austrália dentro do continente chamado de Oceania.

Cara… Nem tudo está perdido. Um estudante de uma universidade americana corrigiu um professor sobre uma questão banal de Geografia. Em um trabalho de Sociologia, sobre mídias, o estudante comparou a Austrália com os EUA, ao que o ignorante com diploma tentou corrigi-lo dizendo que “a Austrália não é um país, mas um continente”. Irritado, o aluno lhe enviou a URL do site oficial do governo australiano provando que se tratava de um país, ao que o mais que ignorante, preguiçoso e injusto instrutor universitário, vulto ‘professor’ aumentou sua nota apenas um pouco mais. Mas não ficou por isso, a direção da universidade demitiu o sedizente professor e ainda pediu desculpas ao estudante.

professor chama austrália de continente

professor chama austrália de continente n

Que fique claro aqui, não se trata de que ninguém possa errar. Todos nós, sem exceção erramos. A questão é não ter admitido o erro e, além disso fazer uso de sua posição para cometer uma injustiça.

Como se não bastasse, o(a) professor(a) ainda mandou o aluno se certificar se o site era sobre o país Austrália ou sobre o continente.

professor chama austrália de continente n'

Sim, algumas pessoas se referem à Austrália como “continente”, não se trata de um erro grotesco. O próprio Brasil é chamado, informalmente, de “país-continente” e continentes são via de regra categorias com definições bastante flexíveis, alguns atlas consideram a América como um continente, outros mais raros como dois, separados pelo istmo do Panamá, assim como a Ásia é separada da África por outro, em Suez. Agora, como dissemos, o grotesco disso tudo foi ter punido o estudante por um detalhe onde o profissional contratado pela universidade que errou.

A arrogância do professor pode ter sido “continental”, mas a correção do aluno foi precisa como o uso de latitude e longitude na busca pela verdade.

*****

É isso pessoal… Assumamos nossos pequenos erros cotidianos e façamos uma auto-crítica constante. Quem sabe assim, menos pessoas cometam atrocidades intelectuais como continuar insistindo em votar em reconhecidos corruptos e apoiar legendas de agremiações políticas que não passam de máfias…

Anselmo Heidrich

 

Sobre o queermuseu, MAM e outras mostras que virão

Pessoal, o negócio é simples e leiam com atenção para não deturpar o que eu digo: quanto mais vocês berrarem, quanto maior for a histeria, MAIS OS CURADORES E ARTISTAS (chame-os do que quiser) VÃO GANHAR COM ISTO, pois seu ofício se baseia no choque, no escândalo e no ti-ti-ti para os círculos de intelectuais militantes. Quanto mais vocês clamarem por censura ou sugerirem algo assim, mais eles terão justificativa para continuarem o que estão fazendo e mais apoio internacional, inclusive, terão.

O negócio é por fim ao negócio deles, secar a fonte, acabar com o financiamento, por isso BOICOTAR é anos-luz melhor que qualquer tipo de censura. O que se fez ao Santander, fechando contas no banco e que SE DEVE fazer igualmente ao Itaú é o caminho certo. Agir assim traz mais resultados e ainda parte de nosso livre-arbítrio, sem burocracias e lerdeza judiciária.

Já quanto à manipulação e uso de menores em exposições do tipo que se acione a lei, mas se adultos quiserem assistir o que pode ser mau gosto para nós, qual o problema? Não tem um monte de gente que ouve Caetano Veloso, Chico Buarque e Gilberto Gil também?

Anselmo Heidrich

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