Observem:

Por fim, resumindo e voltando à discussão sobre as sucessivas derrotas americanas no período em que os Estados Unidos estiveram no epicentro do sistema mundial e do seu movimento permanente de expansão: do nosso ponto de vista, o sistema mundial é um “universo em expansão”, onde todos os Estados que lutam pelo “poder global” – em particular, a potência líder ou hegemônica – estão sempre criando, ao mesmo tempo, ordem e desordem, expansão e crise, paz e guerra. Por essa razão, crises, guerras e derrotas não são, necessariamente, o anúncio do “fim” ou do “colapso” da potência derrotada. Pelo contrário, podem ser uma parte essencial e necessária da acumulação de seu poder e riqueza, e anúncio de novas inciativas, guerras e conquistas. O que passou já ficou para trás, como se fosse uma perda de estoque que não altera necessariamente o fluxo do seu poder dirigido para frente e para novas competições e conquistas. E é isto exatamente que está acontecendo, agora, do nosso ponto de vista, quando os Estados Unidos estão realinhando suas forças, suas velhas alianças, e preparando todos os seus estados vassalos, para a disputa de poder e riqueza que já em curso dentro do novo eixo asiático do sistema mundial.

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Acho que a indústria militar precisa dos conflitos para se manter lucrativa, mas não vejo os EUA como UM, isto é, com um cérebro e ação uniformes, concatenados, vejo o país como uma arena de conflitos e interesses, onde o Pentágono (nem me refiro ao Congresso) é um lugar de lobbies, dentre os quais, a indústria militar, claro. A análise do professor de “economia política”[*] dá a entender que as derrotas são quase que intencionais, que o que importa é gerar instabilidade para vender mais, o que é um típico raciocínio funcionalista[**], de que os efeitos são, na verdade, causas, isto é, de que guerras perdidas são a causa das operações, cujo objetivo é a instabilidade que reforça o sistema and move and on reforçando o sistema que precisa disso. Qualquer semelhança com a explicação marxista de como o Capital se reproduz não é mera semelhança. Por essas e outras que no marxismo chegamos a ler coisas como “a greve mal sucedida pode parecer ruim aos trabalhadores no curto prazo, mas é benéfica no longo prazo porque ao piorar suas condições de vida se reforça a necessidade de uma revolução contra os detentores do capital”. Quanto às guerras, claro que os EUA, de um ponto de vista clássico, perderam guerras como a do Vietnã, mas POR QUE PERDERAM? Pela superioridade bélica dos vietcongs? Claro que não e sabemos bem porque perdeu. Analogamente, o Afeganistão, onde TODOS PERDEM, mas a questão é, valeu a pena o tempo de ocupação? Sobre este caso, eu não sei dizer, mas se observarmos o arranjo federalista e o regime implantado no Iraque, podemos dizer que está pior do que a ditadura clânica de Saddam Hussein? Mesmo com todos os defeitos, eu diria que está melhor hoje, mesmo pelas razões erradas que foram alegadas (ADMs nunca descobertas no governo GWB). Agora, retrocedamos mais no tempo, a 1ª Guerra do Golfo, em 1991, não foi muito bem sucedida? As forças iraquianas foram retiradas do Kuwait e o comércio de petróleo do Golfo Pérsico assegurado. Eu não consigo ver derrota nisto, sinceramente.
Agora, se o debate for para a esfera MORAL, eu concordo que essas guerras sequer deveriam ter começado, afinal guerras gente morre, inclusive inocentes, mas daí uma crítica justa e ponderada não teria os EUA como foco, né? Ainda mais se observarmos bem, quanto tempo na História foi tomado pelos estados-nações? Uns 70 anos, mais? O que é isto em termos de História Mundial? Um mundo cuja maior parte do tempo foi dominado por impérios pode retornar, não é uma ilusão e quando vemos países como Rússia e China se imporem à diversas nacionalidades e culturas como a única fonte de ordem vigente, como ficam os EUA? Os EUA é que são a anomia, uma força descomunal que combina poder, opressão com democracia e daí os conflitos internos é que são sim a maior ameaça àquele país. Esta excepcionalidade é ignorada quando as relações externas são enfocadas, o que não poderia ser diferente, mas daí, quando se parte para a ideia de que há uma cúpula com um plano que processas as coisas de forma para gerar crises e capitalizar mais só pode ser explicado de duas formas:

  • uma bela e baita teoria da conspiração
    OU
  • um processo funcionalista do sistema que evolui teleologicamente para um fim preconcebido, a expansão do capital, ou seja, o velho marxismo, não tem outro nome.

[*] “Economia Política” é como a escola marxista chama sua visão do funcionamento da economia, capitaneada pela política, que se resume, no fim das contas, à luta de classes e suas variações (lutas entre estados ricos vs pobres, centro vs periferia, norte vs sul, esta a mais medonha).

[**] Funcionalismo é escola sociológica americana do pós-guerra (Dall, Parsons), mas cujas características se encontram na ecologia antiga (que muitos ainda usam em detrimento de formas mais resilientes e evolutivas) e também no marxismo quando, como já comentado, os fins funcionam como ‘causa’ ao serem motivadores e cujo feedback, retroalimentação do sistema, induz a novos movimentos. Isto existe na escala individual (incentivos), mas quando se adapta ao marxismo, os agentes são categorias coletivas, ou seja, as classes sociais. Daí a conhecida balela de “consciência de classe” e com ela, na prática, a manipulação decorrente de sindicatos que induzem seus membros (ou forçam) a acatar suas decisões porque, afinal, são os agentes revolucionários da única consciência que se pode ter.