BBC News Brasil – Como os senhores descreveriam o movimento nacional-populista? Roger Eatwell – A primeira coisa que nós precisamos ressaltar é que há grandes diferenças entre os nacional-populistas, e acho que muitos dos críticos deste movimento não mencionam isso. Se você separar os países em dois grupos, naqueles que têm tradições democráticas relativamente fracas, como o Brasil, a ameaça à democracia é diferente da que existe, por exemplo, nos Estados Unidos ou no Reino Unido. Nestes lugares, cujas raízes democráticas são muito profundas, o que estamos vendo não é uma ameaça à democracia, mas à forma como ela se desenvolveu — de maneira relativamente elitista, politicamente correta, dominada por pessoas que tendem a ter maior nível de escolaridade. E elas têm uma pauta política, econômica, social (envolvendo questões como gênero e direitos LGBT) que é bastante diferente das demandas da classe trabalhadora.

Populismo seria mais mecanismo corretivo que ameaça à democracia, dizem pesquisadores britânicos – BBC News Brasil

Sempre que leio algo citando as “demandas da classe trabalhadora” fico com dois pés atrás, porque não acredito em nenhuma demanda prévia, pré-determinada de coletivo nenhum, elas não existem. Mas o livro ganhou meu interesse porque o movimento atual tem que ser estudado… Movimento velho porque se baseia, economicamente, no protecionismo de outrora, com “empregos para os nacionais em primeiro lugar”, mas novo na medida que explora outras justificativas teóricas, talvez velhas também, conspiratórias – o ‘globalismo’ -, mas com novas roupagens. E claro que o intenso e atual fluxo migratório, já alertado desde os anos 60, começa a se tornar uma questão global preponderante.

Outro dado é que esta ‘amarração teórica’, por empregos para os nacionais, contra o LGBTetc., pelo ‘politicamente correto’ etc. não parte de sindicatos, fábricas, campesinatos etc., mas também de elites intelectuais, só que de outra estirpe. No fundo, sempre são intelectuais contra intelectuais que tomam o leme e conduzem demandas para rotas não previstas de antemão.

Talvez a série Man in a High Castle, que mostra um Estados Unidos dividido entre os países do Eixo em uma história alternativa tivesse que ser reeditada para alertar contra os perigos que a exclusão por origem e etnia nos possa levar. Os EUA, p.ex., provavelmente seriam divididos em dois ou três grupos, as áreas costeiras, abertas aos fluxos imigratórios, formando uma federação e no interior, um imenso ‘jesusland’ refratário e fechado em si mesmo e seu passado mítico.

De qualquer forma, com observações sobre a tese dos autores, a única maneira de poder julgar o livro é lendo. Vai para a lista de leituras.

Anselmo Heidrich

16 fev. 20