O objetivo é neutralizar, e não corrigir nossa capacidade de discriminação. E o ônus dessa ruptura pesa sempre para um lado da equação. (Outra ironia: se a transvalorização implícita na campanha do “ponto de vista” realmente obtivesse sucesso, uma das primeiras vítimas seriam empresas competitivas como o HSBC). O princípio ostensivo desse catecismo é que todas as culturas são igualmente importantes e, portanto, preferir uma cultura, uma herança intelectual ou uma ordem moral e social a outra é ser culpado de etnocentrismo. Entretanto, não é um princípio tão igualitário quanto parece, pois você logo percebe que a doutrina do relativismo cultural é sempre um relativismo ponderado: preferir a cultura ocidental ou a herança intelectual é condenável de tal forma que preferir outras tradições não o é.

Costuma-se dizer que o relativismo é a convicção de que, quando se trata de moral, não existe isso de valores absolutos, e, quando se trata de conhecimento, não existe isso de verdade absoluta. Vale a pena meditar sobre o uso da palavra “absoluto” aqui. Se houvesse uma lei contra o abuso de palavras inocentes, seria justificável entrar em contato com a OSHA sobre esta exploração injusta do “absoluto”.

A Ditadura do Relativismo

Na minha opinião, ele traz verdades, mas recheadas de equívocos. Ele afirma que o relativismo moral foi a porta de entrada para regimes despóticos, totalitários, como o fascismo e o comunismo, mas se observarmos bem, em que pese a tese de “engenharia social” de ambos, eles partiam da premissa do “verdadeiro”. O Nazismo, com o retorno à pureza, inclusive para a própria religião (que o texto defende, implicitamente) e o Comunismo, com o “novo homem”, mas um homem que descobre “suas necessidades” e faz com que a única classe sobrevivente do conflito passe de “em si” (sem consciência) para “para si” (com consciência). Sua consciência foi alienada, então, ela já existia. O que quero dizer é que esses movimentos são “relativistas” aos nossos olhos, mas para eles são puros e verdadeiros.

Ele também fala das metáforas da Ciência, particularmente da Física e seu princípio de Entropia, de Einstein etc. Bem, como sou da área de Humanas vejo toda hora o pessoal usando esses termos sem saber sua real extensão (como eu também não o sei, diga-se de passagem). Como o próprio autor o diz, são usados como metáforas, mas ele procura estabelecer uma causalidade entre o atual caos relativista e estas ideias que “tiraram nosso chão moral”, por assim dizer. Não estou insinuando que o autor esteja dizendo que a ciência foi negativa, mas ele procura mostrar um vínculo entre o que as pessoas percebem, os intelectuais, e os efeitos disso na composição da sociedade. Eu vou por outro caminho…

Para mim, a coisa é muito mais simples, a mudança de paradigmas e relativização de valores morais se deve, basicamente, a dois fatores:

(a) a mudança na composição demográfica de sociedades economicamente mais avançadas, que atraem imigrantes, com diferentes culturas e valores;

E, sobretudo, (b) o crescimento e expansão da indústria cultural que lá, lá atrás já anunciava o que viríamos a ter hoje com as redes sociais, só que o fluxo de informações era mais unidirecional.

E neste ponto, as mudanças vieram também para bem. Cresci em uma sociedade, fim dos anos 70 que era plenamente lícito e bem visto ou, na melhor das hipóteses, crianças brincarem de torturar animais: matar insetos a esmo, moluscos, torturar pequenos animais, roedores, p.ex., atirar pedras nos maiores demonstrando suas habilidades como menino em fase e desejo de se tornar “homem” etc.[1] Houve excessos, sem sombra de dúvida, mas esta “humanização do mundo natural”, animal, p.ex., nos levou à técnicas mais produtivas na criação de animais, com avanços na zootecnia que melhoraram a produtividade e a qualidade na pecuária e, em termos substantivos, o melhor trato com animais nos distanciou de comportamentos que predispunham pessoas a matar semelhantes, já que há quem ateste que os maus-tratos à animais são fatores que desinibem crianças à práticas violentas entre seus pares.[2]

Outra questão candente é a da mulher, p.ex., Francis Fukuyama em A Grande Ruptura, fala dessa mudança abrupta que levou a várias adaptações incompletas e perda de papéis tradicionais entre homem e mulher. Número crescente de divórcios, filhos sem pais, violência urbana etc. a partir do Pós-Guerra, mas ele também é enfático em afirmar que, os níveis de violência e discriminação contra a mulher no passado estavam longe do paraíso idílico “enxergado” (na verdade, imaginado) pelos conservadores atuais. Se eles estão certos em apontar a imaginação social dos ambientalistas atuais em querer ver um mundo paradisíaco do passado, de total harmonia entre as espécies, também deveriam assumir esta mesma ilusão quando às relações intra-familiares.

Entendo a indignação do autor com a hipocrisia da propaganda do HSBC pondo em pé de igualdade culturas tão distintas como a da liberdade ocidental com a da mulher com seu niqab, tratando-os como dotados do mesmo valor e beleza, mas cá entre nós, se for para sermos literais com o sentido de “relativismo”, isto não é ser nada relativista, e sim absolutista, pois se determinamos que coisas diferentes sejam iguais porque algum de nós assim o quer, não há nada de relativo aí.

Quanto ao jovem líder de calça surrada e rasgada e botas gastas, sinceramente, o autor passa a imagem desses conservadores engomadinhos com gravatinha borboleta e cheios de pose que ficam correndo atrás de empresários nos encontros liberais-conservadores se insinuando atrás de suas fortunas para financiar think tanks. O que há de errado, para quem produz e viaja o tempo todo, em andar mais a vontade? Pareceu-me um certo despeito do autor e nesta publicidade especificamente, vejo que o HSBC acertou em cheio. Gostei.

Olha… Eu concordo que alguns valores se perderam em seu apoio da maioria, mas por outro lado, deveria haver uma relativização de posições tomadas irrefletidamente. Se há um abuso por privilégios calcados no racialismo ou nos LGBeTc., não há nada de errado em exigirem tratamento igual. Se por “igual” não querer dizer diferenciado, com cotas, p.ex. Relações sexuais ou amorosas entre quem quer que seja, se não houver coação, para que fique bem claro, não são um problema. Ao invés de enxergar um “infecção relativista”, como vê o autor, eu vejo, simplesmente, uma decorrência lógica da evolução do liberalismo para outras áreas.

Anselmo Heidrich

16 fev. 20


[1] Cf. http://www.rplib.com.br/index.php/artigos/item/1710-
[2] Cf. https://www.nytimes.com/2010/06/13/magazine/13dogfighting-t.html