O imbróglio diplomático entre o Ocidente e a Rússia, decorrente das conturbações políticas na Ucrânia nos últimos meses, deixou claro que a dinâmica de confrontação e dissuasão da Guerra Fria foi substituída por um mundo mais complexo e mais interdependente. Um autor realista diria que a anexação da Crimeia pela Rússia não aconteceria no mundo da Guerra Fria, pois as superpotências tinham suas zonas de influência bem delimitadas e suas capacidades nucleares preveniam, via de regra, intervenções de uma nos países aliados da outra. Já um autor neoliberal diria que a confrontação só não foi maior porque a interdependência complexa entre União Europeia e Rússia é profunda o bastante para tornar demasiado custosa uma escalada da violência. Nas linhas a seguir, pretende-se demonstrar que ambas as visões estão parcialmente corretas, mas são insuficientes para compreender a natureza do conflito.

A perspectiva realista estaria correta em afirmar que, em tempos de União Soviética, a questão ucraniana não seria um assunto propriamente “internacional”, pois a dinâmica regional específica da Europa esteve congelada entre alianças militares que englobavam a porção ocidental (OTAN) e a cortina de ferro (Pacto de Varsóvia). Logo, uma insurreição ucraniana seria, provavelmente, tratada nos moldes da Hungria em 1956 ou de Praga em 1968 – por meio de chumbo e repressão.

O conflito russo-ucraniano, o gás natural e a segurança energética na Europa