Por que sexo e comércio têm um papel preponderante na paz entre as nações? Por que ambos, sexo e comércio, são mais relevantes do que o que chamamos de ‘amor’? E, finalmente, por que o sexo pode ser subversivo e construir novas identidades que confrontam o instinto tribal que leva aos conflitos?


Parece palhaçada, mas acredito mesmo nisso… É comum ouvir “faça amor, não faça guerra”, pois bem, amor tem um sentido muito vago, ainda mais hoje em dia. Já, se substituirmos por outros termos, como sexo ou comércio, todos saberemos exatamente do que se trata e não por acaso, eu acredito que estas duas atividades, amor e sexo é que evitam mesmo a guerra.

Sabe aquela história de que países democráticos não entram tanto em guerra quanto não democráticos (o que é verdade), mas o fato é que são democráticos porque são mais livres econômica e socialmente (imprensa, religião etc.) e, consequentemente, se tornam democráticos porque este regime permite lidar melhor com os dissensos políticos. A democracia, assim como a paz não é a causa, mas uma das consequências de uma estrutura econômica que permite menor dependência de um poder autocrático.

Fica fácil entender porque mais comércio leva a menos guerras, mas e o sexo?

Há quase quarenta anos atrás, quando eu estudava em uma escola na Av. Alberto Bins, em Porto Alegre, tive um amigo de ascendência árabe, o que pouco me importava, pois eu não estava nem aí para esse tipo de identidade étnica. Minhas preocupações com meus 15 anos se resumiam à garotas e música, rock’n’roll para ser mais exato. Era, basicamente, só o que eu tinha na cabeça. Bem… Na verdade, não só isso, já começava minhas divagações com livros como o de George Woodcock, Os Grandes Escritos Anarquistas, mas era algo muito abstrato para me preocupar com a política internacional e seus reflexos na capital gaúcha.

Meu amigo, que vou chamar de Rahid, para proteger seu nome verdadeiro e me livrar de um processo, caso ele não tenha amadurecido porra nenhuma nesses anos todos, era um entusiasta da causa pan-árabe e como tal, um ferrenho anti-semita. Não era só anti-sionista não (anti-Israel), mas odiava judeus ou, ao menos, dizia que odiava…

Com o tempo fui começando a sacar que havia outros ‘envolvidos’ em causas distintas na minha turma e, dentre eles, garotos judeus bem conscientes da sua situação. Havia muitas garotas e não vou me alongar em detalhes aqui para não dar uma de Bukowski, mas eis que chega na nossa turma uma aluninha transferida. Em seu peito, diferente de um crucifixo como muitos portavam, uma bela Estrela de Davi. Óbvio que Rahid começou a resmungar e fingir raiva.

Só que enquanto a doutrinação que lhe foi impingida se reproduzia pela sua língua, muito provavelmente, seus hormônios não ligavam para aquela bobajada. A gurizada logo sacou que ali estava uma espécime que ultrapassava qualquer limite fronteiriço territorial ou mental, uma guria, quase mulher e, como eu disse, não vou dar uma de Bukowski, mas… Seu cabelo castanho claro caindo nos ombros, sardinhas e corpo esguio afetavam Rahid mais do que qualquer um. Porque nós só víamos uma garota e ele não conseguia ver nela só um inimigo, ele estava seduzido por ela.

Aquilo se tornava uma obsessão doentia, não aguentava mais ver o cara só falar da menina. Puxávamos conversa sobre qualquer coisa, futebol, festas, drogas, bebidas, música, até AULAS, mas não queríamos mais vê-lo falar mal de uma guria que não saía da mente dele.

Outro dia, ele e seu grupo, pelo que entendi, seu pai estava envolvido, colaram cartazes da OLP (Organização de Libertação da Palestina) pela cidade. Melhor, por parte dela, no Centro e no chamado Bonfim, bairro boêmio com concentração judaica. Não deu um dia e os cartazes deles foram cobertos com outros denunciando o que era e o que fazia a OLP. Ele ficou puto.

Gostava de ostentar um medalhão, sim, já não era anos 70, mas ele usava um medalhão com a efígie de Muamar Kadafi, ex-Primeiro Ministro Líbio, na verdade um ditador financiador do terrorismo internacional. E como tal, os judeus da turma olhavam discretamente para ele e riam, inclusive a ninfeta da qual falei. Mas o tempo passa… E numa dessas, eles caíram em um grupo de trabalho juntos. Eh eh, a biologia venceu e os dois “ficaram juntos”.

Bem, por que não dá para fazer mais desses encontros? Bem que a ONU podia organizar algum encontro às escuras em zona fronteiriça etc. e tal, mas não dá por isso, por esse apartamento territorial. Sei que isso parece brincar com coisa séria, mas o problema ali é mais behaviorista que religioso de verdade. Se formos puxar lá detrás quem tem razão, ela, a Razão vai mudar de lado conforme a perspectiva histórica. Só sei que não dá para apagar a vida e suas possibilidades porque nos cegamos a essas circunstâncias.

Queria, a essa altura do campeonato encontrar o tal Rahid e tomar uma cerveja com o cara rindo disso tudo e de outras coisas, mas como não dá, só sobra um desejo de que tenham fornicado o suficiente para abafar os estampidos de bomba em suas mentes.

Quando você estiver ouvindo os estouros dos rojões no Ano Novo lembre-se que eles podem ser substituídos por gemidos frêmitos de luxúria. E os mísseis e crateras abertas substituídos por… Bem, vocês sabem o quê.

Boa noite e Breve Feliz Ano Novo,

Anselmo Heidrich

29 dez. 19


Imagem “Slightly Feminine” (fonte): https://www.flickr.com/photos/21935306@N08/2734821900