Aos 1:40, “nas últimas quatro décadas, a economia tem oscilado entre modelos muito diferentes: um que PROTEGE a indústria e outro ENTREGUE aos mercados internacionais” (MAIÚSCULAS minhas). Perceberam o que é MANIPULAÇÃO na mídia? A jornalista aí, bem profissional (sem ironia nenhuma) cai em seu próprio preconceito. Digamos que ela tenha todo o direito de pensar assim, tudo bem, mas daí caberia, já que se trata de jornalismo, de dizer porque disse o que disse, porque adjetivou negativamente um modelo econômico e positivamente outro. E não me venham dizer que não o fez, porque fez sim. Afinal, “proteger” é um ato de preservar a segurança de alguém, no caso de um país inteiro e entregar, por sua vez, um ato de traição (para não dizer, covardia mesmo).

Então, como ela deveria se expressar? Se for com o critério de objetividade, deveria ser algo assim:

“Nas últimas quatro décadas, a economia tem oscilado entre modelos muito diferentes: um que aumenta as tarifas alfandegárias aos produtos importados e outro que reduz as tarifas alfandegárias a esses mesmos produtos.”

E, se o sentido não for, exclusivamente, para a balança comercial, mas também a balança financeira poderia ser assim:

“Nas últimas quatro décadas, a economia tem oscilado entre modelos muito diferentes: um que FECHA a economia ao mercado externo e outro que ABRE aos mercados internacionais.”

O problema é que nesta útlima “fechar” subentende algo, normalmente, ruim, então poderíamos substituir por, p.ex., “diminuir a interdependência” e daí, para compensar, na sentença seguinte “amplia a interdependência” ou “insere a economia nos mercados internacionais”. O fato é que a escolha da jornalista foi deveras valorativa e pouco objetiva.

Continuemos…

Ainda falando sobre os modelos e os malefícios das trocas constantes de modelo econômico, aos 2:10 diz:

“Um FECHA o país, outro ABRE INDISCRIMINADAMENTE. Um IMPÕE CONTROLES, outro DESREGULAMENTA TUDO” (MAIÚSCULAS minhas).

“Fechar”, como eu já disse, aqui tem sentido negativo, mas vejam que “abrir” deveria ser suficiente para contrapor os modelos, sem a necessidade de sobrevalorizar a ação, como em “indiscriminadamente”, o que revela que o bom senso permanece só para o primeiro modelo, o protecionista, que fecha o mercado, o outro abre demais. É isto que fica claro neste subtexto e que entra na mente do ouvinte incauto. Isto meus caros é manipulação e perdura muito mais do que a simples fake news tão em voga, pois não é uma mentira explícita, é uma visão de mundo que já faz parte do pensamento da autora. O problema ainda se repete na segunda frase, “impor” é ruim, “controles” depende, pode ser, pode não ser, depende do objetivo e do resultado, agora, “desregulamentar”, exceto se tu fores um anarquista ou um libertário, não soa bem e ainda é agravado pelo “tudo”, o que, cá entre nós, não deve ser verdade mesmo. Tudo?! Tudinho de tudo?! Claro que não! O exagero aí entrega a jornalista, fica claro o que ela pensa e aprendeu em sua faculdade, que o liberalismo é ruim.

Como ela poderia enunciar? Que tal:

“Um fecha o país, outro abre” e ponto final ou “um fecha o país obtusamente, outro abre indiscriminadamente”. Neste caso, ela estaria sendo justa, compensadora. Adiante: “Um impõe controles, outro retira controles” ou “um ADOTA mais regulamentações, outro EXCLUI regulamentações” e por aí vai, sempre tentando ser equilibrado, mesmo que você tenha uma opinião e opção, o que é irrelevante para quem executa OBJETIVAMENTE a tarefa de jornalista.

Vamos lá, logo adiante ela acerta, aos 2:15:

“Um proíbe as importações, o outro as fomenta”, o que me pareceu bem mais equilibrado, só tenho dúvida se é proibição mesmo ou restrição.

É isso pessoal, deve ter mais algo, mas eu cansei. Só usei o exemplo porque apesar da crítica, EU GOSTO DA BBC e ADMIRO O TRABALHO DELA. Minha crítica, portanto, é sobre algo que está além de nossas opções claras, que não é “um serviço a partir de um grupo” ou “contrato escuso”, nada dessas bobagens olavéticas, bolsonaristas e petistas conspiratórias, mas uma visão de mundo inculcada durante décadas, similar à religião que o foi durante séculos.

Como combater isso? Restringindo por lei, censurando? CLARO QUE NÃO! A solução VERDADEIRA é LENDO MAIS, OUVINDO MAIS E ASSISTINDO MAIS. SEMPRE E SEMPRE BUSCANDO O CONTRAPONTO E DESCONFIANDO DE TUDO.

DESCONFIANDO DE TUDO… Inclusive do que tu mesmo acredita.

Um bom dia,
Anselmo Heidrich
5 nov. 19

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*E sim, dei “like”.

Imagem “Old Car in Argentina” (fonte): https://www.flickr.com/photos/stuckincustoms/6871020719