Quando vcs falam que levar apenas dados macroeconômicos como o PIB não dá um bom retrato da sociedade chilena, eu concordo, mas não é tão complexo assim avaliar o chamado ‘bem estar’ de modo objetivo, para isso temos o IDH e a desigualdade, bem como a pobreza. Esta, vcs mesmos mostraram a grande queda de seu índice na sociedade chilena, então NÃO FAZ O MENOR SENTIDO que as manifestações violentas sejam por conta disso. Há algo mais aí e é o modo como a sociedade funciona… Não, não tem nada de “esquerda por trás disso tudo” como querem os direitistas. Aqui também tivemos a esquerda se aproveitando da situação em 2013 e não foi muito além, aliás, o tiro saiu pela culatra com o impeachment que viria depois. A diferença entre como funciona a movimentação civil no Brasil e no Chile tem muito a ver com sua história e como a sociedade de cada país aprendeu com seus governos. No Chile, como se sabe, a repressão foi muito mais abrangente e incisiva com o governo de Pinochet. Não é de estranhar que agora, os estudantes reajam dessa forma. Outro dado importante de se levar em conta é que o Chile, apesar de tão elogiado por aqui, não é tão capitalista como imaginamos, pois se fosse, seus professores não induziriam estas revoltas. Como eu sei que eles influenciaram isto? Ora! Se não fosse por eles, vocês acham que haveria tamanha adesão desses estudantes-militantes? Uma coisa é a população mais pobre protestar pelo aumento da passagem, outra bem diferente são os estudantes universitários.

Historicamente, quando ocorriam protestos na Europa do século XIX, o relógio-ponto das fábricas e as instalações dessas eram quebradas, onde o cidadão era anônimo, um número em que se sentia controlado e reprimido nas fábricas com sistema gerencial taylorista, mas depois que o ambiente de trabalho mudou no Pós-Guerra do séc. XX, as fábricas e o ambiente de trabalho se humanizou, diferentemente das nossas cidades… Perceba: antigamente, as sociedades eram piores, mas as cidades eram acolhedoras, hoje é o oposto, as sociedades são bem melhores (consumo, direitos), mas as cidades são opressivas e boa parte da reação violenta a esta opressão anônima que nos achata ocorre no sistema de trânsito. Portanto, não é de estranhar que a maioria dos conflitos ocorra justamente nos e contra os meios de transporte.

Cf. Protestos no Chile: o que está por trás da fúria em país “modelo” na Amé… https://youtu.be/u9ETR84qnCk via @YouTube

Anselmo Heidrich

23 out. 19

Imagem: “Chile Grunge Flag” (fonte): https://www.flickr.com/photos/80497449@N04/7382892174