Este foi um dos vídeos que meu filho (7 anos) assistiu hoje a tarde: “O que é VOCÊ?” [https://youtu.be/tJEoR79nTvs]. O guri adora biologia… Mas, meus questionamentos vão além (ou aquém, dependendo do ponto de vista) da biologia. “O que somos NÓS?” eu perguntaria.

O youtuber, cujo nome me escapa fez uma analogia da regeneração celular de nossos corpos com a substituição do barco de Teseu, da Grécia Antiga, cujas peças são todas novas e prova que um barco não é mais o mesmo barco depois. O mesmo ocorreria conosco, portanto, nós não somos “nós” mesmos como enxergávamos antes. O erro me parece óbvio, pois o que somos nós não é apenas orgânico, físico, já que temos consciência e esta é uma outra questão.

Esses dias eu me debati com vários “adicionados”, como prefiro chamá-los, os “amigos” do Facebook, uma vez que não faz sentido ter um amigo que nunca vi pessoalmente. Bem… Corrijo-me, não faz sentido até certo ponto: já conheci alguns que se mostraram mais próximos do que outros que vi de perto. Mas, me causou espécie como eu parecia um peixe fora d’água para os dois principais grupos que se embatem na internet, a saber, bolsonaristas e petistas. Estes últimos já abandonei faz tempo, pois não admito a defesa de uma máfia cleptocrata que aparelhou o estado brasileiro e que ainda que não fosse a principal representante da corrupção terceiro-mundista, ela ainda mantém a crença em um modelo econômico estatizante e distributivista-clientelista que não se sustenta, não desenvolve a economia e é embrião da estagnação do mercado de trabalho.

Mas os primeiros estão em destaque atualmente, talvez porque na minha “bolha” (meio virtual criado para cada um de nós pelos algoritmos que nos aproxima de quem pensa ou “curte” os mesmos temas e opiniões nos dando uma falsa sensação de maioria). Os bolsonaristas ou “bolsominions”, mistura de apoiadores de Jair Messias Bolsonaro com os “minions”, agregado de fanáticos que acompanham seu líder na animação “Meu Malvado Favorito” se esmeram na agressividade, citação de motes, clichés e chavões típicos de grupos organizados, cujos elementos se retroalimentam, concordando e repetindo uns aos outros. São como… Para uma analogia apropriada, um câncer.

Observando estes dois grupos cheguei a conclusão de que nada muda na dinâmica grupal, que isso sempre foi assim, é assim e sempre será. Se trata de uma busca por poder e por isso a sedução de estar ao lado de quem pensa igual. Ambos os grupos, petistas e bolsonaristas são revolucionários, se veem como capazes de mudar tudo rapidamente, solapando as estruturas do status quo. Isto é uma ilusão e o Presidente da República teve um breve vislumbre disso ao entrar em choque com o Congresso e poder do Presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Nosso Presidente, como sabemos, provém do “baixo clero” da política e não tem experiência em círculos mais elevados do establishment. Sua atuação é calcada em um marketing político marginal e que preza pelo estardalhaço e situações vexatórias. O ataque ad hominem feito aos seus adversários, internamente e no exterior prova como lhe falta flexibilidade e inteligência para lidar com adversidades.

Mas se somos isto mesmo, elementos atomizados em busca de um grupo com espírito tribal para nos protegermos, não é a toa que a Filosofia Liberal, apesar de simples e verdadeira em suas premissas é tão difícil de ser entendida… A dificuldade está na aceitação interna de nós enquanto indivíduos. Partir do pressuposto que somos sós, que temos interesses individuais e não devemos contar com um grupo para fazer valer nossos interesses, direitos e deveres coloca a responsabilidade em nosso colo. Bem, pensando assim parece que a humanidade se encontra, como sempre esteve em um beco sem saída civilizacional. Ou seja, não funcionamos sem repressão. Parece isso, mas tem uma maneira sim de atuarmos de modo mais racional uns com os outros que é deixarmos de usar a estrutura coercitiva chamada estado diminuindo seu poder, o que significa, diminuir seu tamanho e extensão.

O sistema de pesos e contrapesos, típico das modernas democracias é um caminho para atingir um modelo de sociedade mais livre, a chamada “sociedade aberta”, mas podemos adicionar outros ingredientes a esta receita, como, por exemplo, a descentralização administrativa levando o governo mais próximo ao cidadão. Neste excelente texto, reproduzido aqui neste blog hoje temos um exemplo.

Não temos muito mais “consciência” do que o homem em seus primórdios, mas podemos elaborar estruturas onde o poder decisório não se concentre ao ponto de gerar conflitos internos na sociedade, o que, dentre outras coisas significa não levar a família em peso para dentro da política.

Quem sabe mais alguns anos, este governo cronicamente instável consiga separar as coisas e diagnostique o que são atritos desnecessários derivados de uma absurda concentração de poder nas mãos de filhos do Presidente. Empresas familiares costumam ser ruins, mas política familiar tem tudo para ser bem sucedida na corrupção ou para ser um fracasso em termos gerenciais.

Mas então, o que nós somos? Somos seres propensos a se encaixar em um sistema com facilidade, mas cuja somatória gera conflitos devido a sobreposição de poderes e concentração do mesmo nas mãos de um déspota. Família é tudo, logo todas as outras categorias devem se submeter a ela. O que vemos hoje em dia é um espraiamento do conceito de grupo, família, clã em detrimento de organismos maiores, como a sociedade, o país, a nação.

Vamos mudar isto secando a fonte que alimenta esses grupos. Vamos privatizar ao máximo e diminuir a extensão da política governamental e estatal em nossas vidas.

Anselmo Heidrich

03, jul. 2019

Photo by Trace Hudson from Pexels