A série Börü – Esquadrão Lobo do Netflix[https://www.netflix.com/br/title/81007175] é muito, muito interessante MESMO. Se eu fosse resumir, pobremente, diria que é uma espécie de Tropa de Elite mais dramático, intelectualizado e nacionalista. Este último ponto é chave. A Turquia é um estado no mundo muçulmano, mas a condição de estado é mais significativa do que ser parte do “mundo muçulmano”, uma vez que os turcos não são árabes e têm com estes, historicamente, uma relação conflituosa. O mesmo se pode dizer com relação aos curdos, maior povo apátrida (sem estado próprio) do mundo. E é nesse pano de fundo social e político que se passa a série. Estou no 4º episódio (faltam mais dois para terminar a 1ª temporada) e acho que só ouvi mencionarem a palavra “curdo” uma única vez! Isto deixa claríssimo que a identidade de um povo que tem militantes separatistas é, simplesmente, ignorada. E isto não é gratuito. Desde as primeiras imagens, um atentado em que várias pessoas são alvejadas são mostradas e o tom é claro: Turquia VS. Terroristas. E, na boa, isto não está errado, só há mais do que isto em jogo. Antes que me condenem, eu já me adianto, sim, terroristas têm que ser combatidos com fogo. Eles suprimem qualquer possibilidade de diálogo e negociação, não há negociação possível com um terrorista. É o paradoxo da tolerância, como ser tolerante com um intolerante? Não dá. Só que se uma série quer retratar um panorama do país, esta não dá conta e por isto, só posso concluir que não é o objetivo dela.

É uma série nacionalista, mas o MAIS INTERESSANTE vem agora… Para quem está acostumado com os debates políticos-ideológicos no país e acompanha os do EUA e Europa já há algum tempo sabe que há, travestido de uma oposição entre Direita VS. Esquerda, uma oposição entre Nacionalistas VS. Internacionalistas (estes chamados equivocadamente de “globalistas”). E, para meu espanto, que pensava que a divergência seria entre laicistas herdados do seu antigo presidente Ataturk que eliminou o poder religioso do estado turco versus os fundamentalistas do atual governo, Erdogan. Mas, não! A religião não é o foco mesmo e se esta série retrata minimamente a realidade, posso ver como eu estava mal informado sobre a realidade interna do país.

Há manipulação? Sempre há, mas não vejo como algo intencional e sim reflexo de uma cosmovisão e esta é que me interessa. Os soldados da tropa de elite, Esquadrão Lobo tem seus motivos e vidas expostas, discutidas até de uma maneira irreal, só que ao invés de estarem em um divã, estão de pé com fuzil na mão, debaixo de escombros de um prédio detonado por rebeldes, sangrando em colinas ao mesmo tempo que flertam com colegas… A cena em que Marut, “o Urso” se sacrifica por seus colegas e pede ajuda a uma tenente em seu caça, mas pergunta se ela é bonita e fala de universos paralelos em que a encontraria para tomar chá e se apaixonaria é uma cantada de mestre. Tão foda que a moça sabendo de seu sacrifício ainda vai à cantina depois da operação e senta sozinha na mesa com seu copo de chá olhando para o céu negro. Esta série tem seus momentos de sublimação.

Defeitos? Para O MEU GOSTO, tem algo que vejo nas novelas da Globo, que é a encenação/dramatização meio forçada e meio irreal, mas é um detalhe que passa perante o enredo forte e de conteúdo denso. As cenas em que os criadores do esquadrão discutem na cadeia onde um deles está detido por acusações de conspiração é como uma auto-análise do que é o país, do que é a identidade turca e dos rumos do país. Ameaçados por… “Liberais”, no sentido americano do termo, i.e., a Esquerda Internacionalista, “globalista”, como querem os olavetes. Vale a pena ver porque há muito mais do que tiros e bombas. Aliás, os episódios se diferenciam muito, quem vê o primeiro não imagina que há outros com “pouca ação” e mais introspecção.

Agora, se você é daqueles que gosta de indicações de intelectuais pra ver uma bosta de produção franco-iraniana de um cara que quer se suicidar e muda de ideia até provar uma cereja* não assista nem perca tempo comigo.

Boa série,
Anselmo Heidrich
13 jan. 19

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* Refiro-me ao “Gosto de Cereja”, um dos piores filmes que vi em minha vida. Cf. https://www.youtube.com/watch?v=lGKVrHTOAbE