Olavo de Carvalho em entrevista para o Estadão diz:

“O presidente (Donald) Trump disse que tem US$ 267 bilhões esperando para investir no Brasil, eu acho que isso é muito bom. Não adianta nada dizer “ah, isso vai desagradar a China”, como disse aquele idiota do Mino Carta, “ano passado o comércio com a China nos deu 20 milhões de superávit”, muito bem. A China só fez isso porque o governo Lula e Dilma e o Temer também estavam distribuindo dinheiro para os amigos deles, os amigos da China: Cuba, Angola, Venezuela, etc: 1 trilhão. Levamos 20 milhões e distribuímos 1 trilhão. Que beleza, né? Claro que se o governo parar de representar vantagem política para a China, acaba o comércio na mesma hora. Comércio com a China é escravidão. Isso é óbvio e todo mundo deveria saber disso. Vai perguntar para o Tibet se é bom conversar com a China. Agora, para os EUA, é bom, porque a riqueza da China é quase feita toda de dinheiro americano. Outra coisa, tem gente que chega a ser tão idiota que ultrapassa a medida do acreditável.”

É o contrário, idiota. Se temos como expectativa, uma expectativa de Donald Trump investir aqui, não é o mesmo que ter poder com o comércio externo com quem quer que seja, que no caso são 20 milhões com a China (desconfio que sejam muito mais). No primeiro caso se depende de concessões, de regulamentações e de troca de favores na dependência (mercantilista) de um governo que amanhã ou depois pode não estar mais aí, no segundo, com a China, poder real devido a dependência deles em relação aos nossos produtos, notadamente, a soja. E a pauta deveria aumentar, qualitativamente.

Quanto à distribuição de recursos para países africanos e Cuba, ela seguiu uma linha equivocada na política externa, para não dizer estúpida mesmo de que o relacionamento “sul-sul” seria mais vantajoso para o país. E claro, isto provavelmente contou com uma rede de propinas e subornos que traria de volta parte dos recursos para permanência do PT no poder. Neste sentido, a indicação de Ernesto Araújo para Ministro das Relações Exteriores que pretende pôr a nu tudo isto é uma excelente notícia, mas quem pensa que a dependência e papel de fiel escudeiro dos EUA é uma “agenda de direita” não passa mesmo é de um fiel idiota.

O argumento de que a China só comercializa com o Brasil ou o faz porque vê vantagem nesta associação no apoio brasileiro a ditaduras, inclusive a Cubana não manja nada, nada nadica de nada de relações externas, muito menos de interesses de estado (imagine um acéfalo como Olavo como embaixador…), pois a China segue um roteiro imperialista pautado na acumulação de capital dirigida pelo PCCh, ou seja, são eles em primeiro lugar e sua inserção na economia africana, p.ex., é puro business, não segue pauta ideológica nenhuma. Só um completo ignorante acha que eles favorecem ditaduras de países pobres que não têm nada a dar em troca (veja a participação quase nula deles em Cuba, p.ex.).

Usar o caso do Tibet é estúpido, esta imensa região já pertencia ao domínio chinês que foi perdido com o fim do império e mudança para a república, para depois ser retomada pelos comunistas. Não justifica, não, mas se entende que é muito anterior e só um ignorante para achar que a China segue sendo maoísta. Como, aliás, assinalou o próprio chanceler indicado…

Recomendo que os súditos mentais do astrólogo aiatolavo leiam tratados e artigos mesmo falando do realismo político nas relações externas e como a China faz, muito parecido aliás, com os próprios EUA antes desses se firmarem como centro econômico mundial, centro este que tem mais de 80% dos produtos na sua maior rede de lojas de departamentos vindos da… China! Guerra entre eles? Rende bons filmes.

Guerras existirão, são o consumo de uma indústria poderosíssima, mas por procuração, como se monta no Mar da China Meridional, região disputada por suas reservas petrolíferas onde se instalam ilhas artificiais como estratégia de domínio pelo governo chinês. Apesar de toda ligação comercial da China com os EUA, Taiwan ainda permanece como forte aliada americana e não será cedida para os chineses em troca de um acordo. O Japão, milenar rival da China já requer investimentos em forças armadas e assim segue a toada, com mais arpejos da maior marinha do mundo, a americana. A China segue com suas limitações militares e tem seus imensos problemas internos. Não achem que os países, ainda mais os gigantes são todos harmônicos e de interesses homogêneos, isto não funciona assim.

 

Anselmo Heidrich

25 nov. 18