Você acha que que os habitantes de áreas pobres estão lá por serem vítimas do racismo ou pela dificuldade de se inserirem no mercado?

1. O mercado é formado por um conjunto de relações interindividuais, óbvio ululante;

2. O que é produzido e vendido depende, essencialmente, do que é procurado, das demandas que surgem por influências diversas, não importa. O fato é que é assim que funciona.

Entonces, se alguém vende mais bonecas brancas ou se as promoções para vendas utilizam mais modelos brancos não é porque “o mercado”, enquanto uma entidade abstrata prefere isto ou aquilo. Não é “a coisa”, mas as pessoas que têm recursos para gastar. Se você não gosta desta relação assim como está constituída, com os objetos a venda e a forma como se apresentam para venda É UM DIREITO SEU, mas também É IGNORÂNCIA SUA tentar mudar isto na marra sem procurar entender PORQUE ISTO CHEGOU A ESTE ESTADO DE COISAS.

Se você é do tipo que acha que uma canetada, uma “lei de cotas para o marketing” ou algo assim seja suficiente para alterar a situação etnicamente desigual no mercado, sinto dizer, vc não passa de mais um iludido. Então, o que se faz? Comece perguntando o que pode ser feito para facilitar a entrada das pessoas de diversas origens raciais, composições fenotípicas, culturas, religiões etc. para entrar no mercado. Ou seja, sabe aquela balela de “o capitalismo exclui isso e aquilo”? Está, fundamentalmente, errada, pois estas pessoas QUEREM entrar no mercado, ou seja, não se trata de serem excluídas, elas é que não conseguiram ser incluídas devido aos obstáculos. Obstáculos…

Quais seriam? Além da óbvia instrução (educação para o trabalho e não esta merdaiada ideológica que temos hoje na escola pública), a desburocratização e simplificação jurídica permitiriam a geração e desenvolvimento de um movimento de empreendedores de pequeno porte que dispondo de mais capital iriam gradativamente investir em si próprios, ou seja, consumindo, bens e serviços, como é o caso da educação também. Se há dificuldades elas estão na burocracia e impedimentos para se abrir empresas e contratar funcionários e nosso país é reconhecidamente um dos mais difíceis de se trabalhar e produzir. Outros fatores como a insegurança jurídica gerados por leis restritivas à circulação do Capital, como é o caso daquelas que preveem a “função social da propriedade” têm sua cota de responsabilidade neste processo.

Como as áreas urbanas mais afetadas são as de menor estoque de capital, as populações pardas e negras são as menos guarnecidas e contempladas por investimentos. Esta espiral descensional de pobreza dificulta o processo de capitalização, justamente, de quem mais necessita dele, mas não por causa do mercado e sim pelo estado, seu peso em tributos, sua dificuldade em regulamentações e condução que impede a agilidade e dinâmica dos negócios. Quando se consegue a licença, quando é exequível devido ao seu custo, muitas oportunidades já passaram e acabaram sendo atendidas pelo mercado informal, isto é, pelo contrabando e ilegalidade.

Isto explica a desigualdade de renda entre grupos raciais e não o racismo, enquanto sentimento de desprezo por outro grupo étnico. Não é o ódio ou o nojo, mas o olhar complacente e arrogante de um burocrata estatista que se vê como “bom gestor” que gera a miséria.

E é aqui que o Enem perde mais uma vez a chance de não imbecilizar a massa de estudantes que toma suas asneiras como sintoma da realidade. A irrealidade gerada por suas questões são prova da visão de mundo distorcida de nossos inúteis acadêmicos.

Antes de analisarem a questão com seus próprios olhos cabe a pergunta:

#UniversidadePúblicaParaQuê ?

Agora atente para o fato de que a questão trata do Racismo, mas não pergunta sobre o Racismo, o que significa que o Racismo na propaganda é intencional, planejado, de acordo com o estudo feito e retratado através do texto. Ou seja, o conteúdo passa batido, como se fosse consensual, como se todos concordassem com isto, pois, afinal de contas, a questão é outra, sobre a forma de apresentação do texto e não sobre seu conteúdo. Entendeu como a coisa funciona? Você tem que concordar, pois eu te empurro uma interpretação e o que você pensa não é importante. Claro que se não fosse por esta conclusão, de que há racismo na publicidade e suponhamos, pelo contrário, que a conclusão fosse oposta de que não há racismo, a interpretação também estaria sendo empurrada tua goela abaixo. Mas daí é que vem a questão a que me proponho desde o início: por que este tipo de interpretação que sempre prima por vítimas de um sistema é a que predomina? Pense.

Anselmo Heidrich

15 nov. 18