O editorial The Geopolitics of Russia: Permanent Struggle da Stratfor contém uma análise “bastante geográfica” da Rússia, isto é, calcada em sua cartografia. É como se o próprio mapa apresentasse determinações. A posição intermediária do país entre Ocidente e Oriente levou a um tipo de política reativa quando pensamos nas invasões ocidentais, de Napoleão à Hitler no passado ou a expansão da OTAN na atualidade. Isto sem contar com as invasões mongóis, turcas, suas frágeis fronteiras com o Islã ao sul e a hegemonia chinesa tomando corpo na orla do Pacífico.

Outro ponto é o que o que preenche este espaço, vasto espaço, diga-se de passagem, a sua população. A história russa entremeada de conflitos se reflete em uma pirâmide etária toda recortada, na qual cada reentrância decorre de uma queda da natalidade devido ao drástico aumento da mortalidade durante a guerra. Hoje em dia, a Federação Russa sofre com um módico declínio demográfico.[1]

Se compararmos esta situação com a de países vizinhos do mundo muçulmano, particularmente na Ásia Central[2] ou na distante China, cuja política de controle de natalidade não é suficiente para conter um aumento significativo de sua população absoluta,[3] a Rússia é um gigante extenso e pouco povoado. A forma efetiva de controle de um território nacional se dá pela base demográfica condizente, sem a qual pode ficar inviável.

Estas dificuldades, sejam elas estáticas, como sua geografia, sejam elas dinâmicas, como sua população levam a uma perspectiva de reação do estado e a Federação Russa parece estabelecer um plano de retomada do antigo espaço soviético. De certa forma, sim, mas não é tão simples como se fosse uma mera reedição dos áureos tempos do comunismo soviético… Na verdade, o “plano russo” estipula tratamentos diferenciados de influência, controle e domínio territorial sobre países em sua órbita de influência. São basicamente quatro formas de atuação:

  • Primeiro grupo: países que a Rússia pretende restabelecer sua influência de modo pleno (Bielorrússia, Cazaquistão, Geórgia e Ucrânia). São países de inquestionável valor estratégico devido a sua posição geográfica. Eles permitem acesso aos mares Negro e Cáspio para um gigante como a Rússia, com poucas saídas marítimas que não congelam durante o inverno e também ligam áreas agrícolas nacionais ao coração industrial da federação;
  • Segundo grupo: países que Moscou deseja ter maior aproximação. Trata-se dos países Bálticos (Lituânia, Letônia e Estônia), Cáucaso (Azerbaijão) e Ásia Central (Turcomenistão e Uzbequistão). Não há grande necessidade de mantê-los sobre influência de Moscou, mas por precaução se deve afastá-los das tentativas de criação de laços com o Ocidente por estarem muito próximos da zona de segurança russa;
  • Terceiro grupo: países sem grande importância econômica ou política, mas que devido a suas instabilidades internas e governos fracos podem se tornar alvos fáceis da influência externa. É o caso da Armênia, Moldávia, Quirguistão e Tajiquistão, países que se apresentam como “presas fáceis” para cooptação externa;
  • Quarto grupo: países que não constituíram parte do espaço soviético no passado, mas que a Rússia entende como possível área de influência futura. Este é, sem dúvida, o grupo mais complexo onde temos Alemanha, França, Polônia e Turquia. Como influenciá-los? Não há perspectiva fácil, ainda mais sabendo que são membros da OTAN, mas que nem por isso se colocam como subservientes ou em relação de submissão aos EUA. Trata-se se uma necessidade e perspectiva de longo prazo para uma estratégia eurasiática se torne possível.

O irônico disto tudo é que justamente a estratégia de contenção utilizada ao longo da história contra a URSS e agora contra a Rússia, que consiste na criação de estados-tampões está sendo agora utilizada por Moscou contra seus rivais. Isto deveria servir de alerta contra a visão de ciclos preestabelecidos como senso comum. O exemplo do fim do comunismo é um que não deveria turvar nossa percepção… É bom lembrar que mesmo tendo reduzido a extensão de seus domínios com o fim da URSS, a Rússia retornou ao seu tamanho do século XVII. Diversamente a um declínio ou decadência, Moscou tem assegurado um domínio de longo prazo.

A perseverança geopolítica da Rússia é ainda mais notável quando se leva em consideração o enorme gasto para manter seu território, que a pôs em desvantagem frente a seus competidores ocidentais e asiáticos. E, claro, a competição armamentista com os EUA sufocou sua capacidade de desenvolvimento deslocando importantes recursos para este setor, vital para sua manutenção como império. Ainda, a perda de toda Europa Oriental, partes da Ásia Central e do Cáucaso como área de influência exclusiva, são provas inegáveis da vitória do capitalismo ocidental. Mas, de certo modo, a sorte de um país como a Rússia é não ter como vizinho próximo uma China aventureira e com planos expansionistas.

Parece difícil uma maior fragilização do cenário russo, mas a história tem lá suas mudanças dramáticas… Agora, com a expansão da OTAN sobre o Cáucaso e Leste Europeu, o sentido de autodefesa russa se torna ainda mais aguçado. Apesar do crescente destaque internacional do país, a Rússia não tem logrado sucesso em suas investidas: não está segura no Cáucaso; perdeu influência na Ucrânia, na Moldávia e na Ásia Central; bem como amarga o recolhimento da linha de segurança nos Cárpatos e no Báltico, o que é inaceitável, assim como a neutralidade da Bielorússia; também não obtiveram um porto livre de bloqueios ocidentais. Estes são alguns pontos chave e a disputa pela hegemonia com os EUA no Oriente Médio tem muito a ver com tentativas de deslocar a atenção de Washington para áreas mais distantes do interesse imediato russo.

Por outro lado, também não interessa uma grande fragilidade interna russa que possa levar a convulsões internas e uma política externa mais agressiva, como se viu claramente no caso da Geórgia, Chechenia ou Ucrânia. Apesar de nossas dúvidas sobre o futuro do país, a manutenção de seu heartland tem sido um problema mais geográfico que ideológico. As mentalidades, filosofias políticas e ideologias vêm e vão, se metamorfoseiam, mas se dispensarmos a avaliação em uma escala de tempo geológica, o território da Mãe Rússia é perene.

 

Anselmo Heidrich

27 set. 18

 

[1] Cf. http://worldpopulationreview.com/. Acesso em 27 set. 2018.

[2] Cazaquistão, 1,10%; Uzbequistão, 1,42%, como algumas repúblicas da ex-URSS; E, embora, não tendo fronteira terrestre com a Rússia, potências regionais próximas e, em maior ou menor grau, rivais como Irã e Turquia também apresentam taxas de crescimento demográfico positivas: 1,05% e 1,45%, respectivamente.

[3] Isto significa mais de 5 milhões e meio por ano, em menos de uma década, uma população equivalente a Argentina surge dentro da China.