A floresta se agita, as árvores não se entendem e os arbustos clamam por luz, mas quem atinge o dossel ignora seus apelos. Cada espécie está convencida de sua certeza, mas nem todos conseguem uma clareira. “É natural. É assim que é, é assim que fomos feitos e é assim que sempre foi” dizem as maiores espécies. Afinal de contas, por que você não se contenta em viver nas sombras? Enquanto isso, animais que carregam sementes de ambas, animais que se beneficiam de seus frutos e espalham suas sementes, simplesmente fogem. A calma e a estabilidade foram perdidas e ninguém sabe se o amanhã será infértil ou um puro deserto. Os murmúrios que brotam da serrapilheira dizem “opressão!” Mas tudo que se ouve e vê é o som abafado do balançar de suas copas ignorando os apelos na penumbra onde nesgas de claridade são disputadas, enquanto que a maioria fenece.

Nesse mundo de natureza original, o fogo reconstrói permitindo a expansão de quem não conseguia se expandir. A seleção não é uma imposição de alguém, simplesmente existe. Em outros tipos de ‘florestas’, arbustos se unem sem entender que também precisam daqueles troncos finos, cujas copas mal são vistas e se unem carregando machados e serras.

Em tempos sombrios é fácil enxergar árvores sem perceber a floresta e é fácil achar que clareiras devem ser abertas de qualquer jeito. Só que esse jeito revolucionário de cortar árvores acaba com qualquer regeneração até que um dia, velhas ideias abandonadas no solo destruído voltem a germinar. E se não souberem como fazer este manejo político, um incêndio se imporá a todos que ignoraram a necessidade de reformas. Estas podem ser uma simples sequência de podas de galhos, trilhas para obter madeira ao invés de quadras, espera pela regeneração, florestamento em outras regiões etc., mas para nossa imensa ‘floresta’ seria o corte de privilégios que não são conquistas individuais.

Hoje, dia 21 de setembro se comemora o Dia Mundial da Árvore, mas no dia 7 de outubro, o que comemoraremos? Depois disso, quem sabem a mata não se expande e possamos ouvir os ruídos de novos animais que voltaram a investir nela?

Anselmo Heidrich
21–08–2018
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Adaptado de The Trees, Rush.