O que tem Praga, a capital da Rep. Tcheca e da ex-Tchecoslováquia? Quando o país cindiu, nos anos 90 foi uma calmaria só, decidida através de plebiscito e se separaram numa boa, como um velho casal que já não mais praticava o santo ofício sexual, Tcheca pr’um lado, Eslováquia pro outro. Mas se observamos em outros mundos foi tudo bem diferente.

A Iugoslávia, caldeirão multi-étnico, religioso, linguístico e todos governados por um partido, o comunista se desestruturou após a morte de seu general, Josip Broz, vulgo “Tito”. Bem que tentaram a democracia, mas o poder era sérvio. Croatas brigaram com sérvios, depois muçulmanos na Bósnia com eles e até hoje, a relação com regiões e países vizinhos não é tranquila. Todos os anos, sérvios, os eslavos do sul marcham para o Kosovo onde há uma população muçulmana que quer autonomia para celebrar uma batalha perdida na Idade Média onde seus cavaleiros tentando defender a região foram trucidados por tropas turcas, isto é, muçulmanas. O carnaval dos caras ou algo equivalente, aguardado todo ano é uma ode a uma batalha em que perderam, uma lamentação, uma lamúria sem fim entre cristãos ortodoxos para repassar sem falta o ódio aos muçulmanos que os escravizaram, torturaram, estupraram mulheres e filhas. Mas o que diabos isso tem a ver com os descendentes que acreditam em Alá e não em Jesus? É um símbolo. É o que mantém a identidade daquele povo, o ódio.

Mais a leste durante o período dos sultões muçulmanos, a Turquia tinha uma rígida hierarquia militar, de modo que era lícito ser sodomizado por um superior, mas nunca por um subordinado, pois daí já era viadagem demais! Convenhamos… O massacre perpetrado pelos turcos aos cristãos da Armênia também é lembrado até os dias atuais - um genocídio - e a reprodução deste sentimento se dá até com a celebração de crianças e bebês turcos suspensos em ganchos de açougue. Tudo em nome de deus. “Não!” Direis vós a este pobre infiel. Bem, vocês que têm fé que discutam as leituras e interpretações, eu só relato.

Mais ao sul, nas planícies da Mesopotâmia, o pobre perseguido por Bush filho, Saddam ceifou a vida de 5.000 em uma vila curda num único dia com gases tóxicos. Mais ao sul secou os mananciais da seita xiita, sua rival empobrecendo seus campos para cultivo. Durante a Segunda Guerra do Golfo, os aliados turcos da Otan contaminaram as nascentes do Tigre e Eufrates que seguiam para o Iraque matando árabes e de escanteio, curdos. Dois coelhos com uma só cajadada.

Na vilipendiada África pelos europeus, não faz muito tempo, centenas de milhões morreram em sucessivas carnificinas entre tutsis e hutus em Ruanda. Quem era mais alto - sudaneses tutsis - tinha pernas ou cabeça cortadas como símbolo de equivalência com o hutus, da etnia bantu. E agora, já há algum tempo, os muçulmanos haussas do norte da Nigéria sequestram e escravizam mulheres - e matam professores de geografia que insistem revelar que a Terra não é plana - dos ibos mais ao sul. Para o leste, o miserável Sudão foi dividido entre os muçulmanos do norte e kafirs (infiéis) do sul, inclusive com toques medievais de queima destes, regalo igualmente concedido aos cristão. Põe na conta da “dívida histórica” para contentar teu professor de humanas, assim tu tira um 10 na avaliação.

Eu poderia me alongar nisso, mas não posso deixar de comentar sobre nosso patrono do exército brasileiro, Duque de Caxias que mandava contaminar a montante do Rio Paraguai para contaminas as águas que os paraguaios iriam beber. Solano López, por seu turno, era outro projetinho de führer guarany que errou redondamente ao invadir terras do Mato Grosso. Mas quem paga o pato em massa é o índio embebido de nacionalismo, um conceito alienígena para aculturá-lo. Talvez pôr fim a essas vidas seja melhor do que o estupro em massa ordenado pelo condenado e executado criminoso de guerra sérvio, Slobodan Milosevic. Diferentemente fizeram os portugueses que se acasalaram com as índias litorâneas para usarem os sobrinhos como braços no extrativismo. Bem, não se pode dizer que não uniram o útil ao agradável e a herança de crianças criadas sem pais ou de pais que não são homens para assumir nada é uma de nossas singularidades.

Quem não tem um tio no churrasco que com a boca cheia de carne mal assada e com pança obscena ao lado da mãozinha pequena segurando uma Skol vagabunda já não vociferou “o problema no Brasil é que não teve nenhuma guerra, nenhuma revolução, por isso que somos pacíficos!” Então, para compensar esse nosso gap histórico está na hora da caça às bruxas, Ok? Saiamos às ruas, nobres guerreiros, os moleques de videogame com suas roupas de marca compradas no AliExpress e bem nutridos com leite desnatado devido a sua intolerância à lactose e os corôas com suas calças camufladas e roupas com as cores nacionais. Em uníssono clamam por um herói que expie seu medo ao marchar contra o inimigo. Livrinho do Ustra no criado mudo, camiseta do candidato, lições assistidas exaustivamente nos canais de YouTube que misturam análise com tretas e muita teoria conspiratória na cabeça. Essa química funciona e não vai faltar quem a alimente. Do outro lado do espectro político, magrinhos com lábios sujos de tanto palheiro e meninas que se deterioram aceleradamente com a comida de bandejão são subsidiados por nós para serem doutrinados em universidades públicas. Como Yin e Yang, os imbecis são retroalimentados com a manifestação de ódio comum a ambos.

Velhos cinquentões que passaram a vida assistindo a luta romantizada de assassinos eficazes, fossem eles snipers, mercenários ou meros soldados anônimos lutam de verdade motivados pela próstata tamanho bola de boliche ao levantarem de suas camas todas as noites tentando acertar o vaso sanitário para não sujá-lo com seus pênis murchos e incompetentes. Esses são os justiceiros sociais ou neocruzados conservadores que abundam na selva da internet, mas cujos políticos que admiram, nutrem o respeito necessário aos idiotas úteis que são.

O Brasil de hoje mais parece um carro desgovernado descendo a anticlinal na banguela, batendo no guard-rail ora a esquerda ora a direita. Que vai chegar ao destino, isso vai, mas sem a certeza de ter valido a pena. Enquanto isso, o primeiro presidente na antiga Tchecoslováquia, o dramaturgo Vaclav Havel falava em entrevista logo após que ele não estava preocupado em denunciar o antigo amigo que trabalhara para o Partido Comunista, mas em costurar o seu futuro. Naquela época era sobrevivência e hoje, ironicamente, ambos países Tcheca e Eslováquia discutem uma possível reunificação. O excelente Morgan Freeman ao comentar sua participação em Mandela também falou sobre o sentido do perdão, ao comentar o fim do Apartheid na África do Sul: é necessário em algum ponto de nossas vidas estabelecer uma linha a partir da qual há um novo começo e o passado é esquecido. Se não fizermos isso, nada muda de fato.

Você que está lendo tem a chance de fazer isto nestas eleições. Escolha o candidato pensando nisto. Recentemente, um deles se dirigiu acamado ao adversário dizendo “você também é humano”. Senti pena de verdade, pois a beira da morte, no limbo de sua vida parece ter aprendido algo. Mas eu não vejo isto em seus seguidores e em nome de um futuro, eu não voto nele, não por ele, mas pelo legado que deixa a uma horda insana que quer um macho destruindo tudo sem sentar e raciocinar o que seria um projeto comum. Como eu disse, esta perda de testosterona de alguns faz com que busquem no presidente seu alter-ego. Esqueçam, antes que tudo que vocês tenham seja a visão do Sol se pondo e remorso por ter errado frente a urna. Afinal, quem faz cerveja com a República Tcheca deve ter muito a nos ensinar.

Anselmo Heidrich
17–09–2018