Tente entender uma visão deturpada para depois debater e convencer.

Quando eu era criança fui o que chamávamos, depreciativamente, de “guri de apartamento”, superprotegido não aprendi a jogar bola e ser bom em outras atividades físicas. A própria Educação Física na escola era uma tortura para mim e naquela época, em Porto Alegre não tínhamos esse corpo mole de hoje em dia… Os professores eram, muitas vezes, jogadores do Inter ou do Grêmio fazendo extra nas escolas. Sim, difícil de crer, não?

Começávamos com corrida, 20 ou mais voltas, depois muito polichinelos, apoios (flexões no chão) e o pior, agachamentos para depois de outros exercícios, se desse tempo haver uns 15 min de jogo para relaxar. Imagine chegar com isto hoje em dia, tem aluno (e pais) que irão denunciar o professor na primeira oportunidade. Mas minha relação com o futebol sempre foi triste, eu gostava, mas não sabia jogar. Se detestasse, estava bem, mas infelizmente não era o caso.

Nos meus 17 anos por aí tinha um baita grupo de amigos que se reunia, religiosamente todas terças-feiras para jogar. Vinha gente até de cidade vizinha e fizesse Sol, chuva, frio, não importava, estávamos lá naquela quadra de areião. Eu, como sempre e um amigo, sem agilidade a quem chamavam de “Robô” sempre éramos os últimos a serem escolhidos. Eu ainda conseguia ser pior do que o Robô e quando o cara me escolhia fazia um meneio com a cabeça, tá, vem… Enquanto o capitão do outro time dava uma risada por já levar uma vantagem ao não me ter na equipe.

Mas nem sempre era assim. Eu na zaga, pois corria muito pouco atrapalhava e sempre tive uma coisa, aliás, minha família de sentir menos dor. Não estou me gabando não, meu filho não é assim, mas minha filha me puxou e fico impressionado como ela não reclama de cada tombo ou machucado que toma. Sei lá, não sei explicar. Então, como eu dizia, na zaga, eu não me importava com as pancadas e atrapalhava mesmo. Não era bom, mas era útil. E o mais engraçado é que quando meu time ganhava, os colegas tinham uma dupla satisfação, não só de ganharem a partida, mas de “ganharem com o Anselmo!”

Bem, saí de casa aos 20 e poucos, fui pra S. Paulo e lá virei mais gaúcho e gremista que era na terrinha. Esse fenômeno é bem mais comum que imaginamos. Note que os conflitos nacionalistas, étnicos etc. ocorrem, justamente, quando há mistura e atritos entre diferentes grupos. Claro que não vivi uma Guerra da Bósnia, mas os paulistas veem a nós, gaúchos como argentinos, o que soa muito estranho, ainda mais sabendo que os gaúchos têm muita rivalidade com nuestros hermanos.

Tudo faz sentido e tem lógica, pois em regiões de fronteira temos dois tipos de homens, aquele que diz “o que será que tem lá do outro lado?” e aquele, talvez mais comum que afirma “não quero nem saber daquela porcaria, aqui é melhor”. E para quem é de fora, os dois bicudos que não se beijam são muito parecidos. Vi isso quando disse a um irlandês que eles se pareciam muito com os ingleses e ele, com um ar estupefato me retrucou “sim, o clima”.

Essa coisa de se colocar no outro lugar, de migrar, de experimentar compreender o ponto de vista alheio se chama relativização. É um exercício muito útil e só te faz crescer intelectualmente. Não adianta ler livros e citar nomes de autores para se envaidecer se tu não é capaz de refletir minimamente sobre as próprias condições de vida e dos outros ao teu redor. Sei, sei que dirão que a “relativização moral” está na raiz de nossos males, com o que concordo, aliás, mas quando falo em se relativizar é para compreender antes de julgar.

O que você já fez nesse sentido? Quando procurou compreender quem pensa de modo diverso e por que o faz? Lembre-se, isto não significa concordar com ele, mas… Tente.

Anselmo Heidrich

23–08–2018