Na década de 30, o médico endocrinologista, Josué de Castro fez um estudo sobre a população de baixa renda da cidade de Recife, o que significava 1/3 do total. Esses pobres eram migrantes do interior que não conseguiam área mais adequada para residir e viviam em beiras de rios inundáveis e mangues se alimentando, basicamente, dos crustáceos encontrados ali e na vazante das marés. Como a principal fonte de alimento desses animais era constituída pelos dejetos humanos ali encontrados, as fezes se formava um ciclo descrito por Josué, o “ciclo do caranguejo”, responsável pela alimentação com baixo valor nutricional para a população local.

Com o passar das décadas, alguma coisa mudou, as submoradias foram subindo os terrenos formando as favelas como conhecemos no Rio de Janeiro e outras grandes cidades brasileiras, mas os ‘ciclos’ são constantemente recriados: se hoje não são caranguejos e fezes temos no país inteiro bolsas-família e populismo que ‘nutrem’ estas populações com renda, mas de baixa qualidade, pois não provém de um papel produtivo e mesmo que fosse maior não produziria a dignidade que só quem trabalha sabe o que significa. Por isso, o terceiro elemento ausente nos antigos mocambos recifenses, mas abundante nas atuais periferias brasileiras: a ideologia que se faz necessária para nossos miseráveis finalmente acreditarem que merecem as esmolas e toda sua dignidade se resume numa equação assistencialista.

Rompa com isto, rompa com o PT.

 

Anselmo Heidrich