Segundo mapeamento realizado pela Polícia Militar e o Exército, 850 de 1.025 “comunidades” no Rio de Janeiro estão sob o controle do crime organizado. Algumas das atribuições dele vão além do simples tráfico de drogas, não sendo exagero dizer que este crime substitui o estado formal:

“O tráfico de drogas continua como atividade criminosa principal. A receita dos bandidos também advém da cobrança de impostos de comerciantes e da distribuição de carvão, botijões de gás e água mineral – importante em locais sem rede de distribuição regular. Também exploram serviços de transporte por vans e há cobrança de pedágio para entrega de produtos como pizzas, eletrodomésticos e materiais de construção.”[1]

Se pensarmos em termos de uma curva normal, o que pode acontecer se aumentar a cobrança de impostos é o descontentamento da população sitiada que vive nas favelas cariocas, cuja relação custo/benefício não ser suficientemente satisfatória para as favelas ou “comunidades”, se preferirem o jargão politicamente correto. Com uma guerra deflagrada entre facções, os traficantes e demais criminosos estão repassando seus custos aos cidadãos,[2] da mesma forma que estados nacionais fizeram aos seus colonos em além-mar em tempos idos.

Por outro lado, como quase tudo neste país, a ingerência do poder público sobre a sociedade é muito desigual. Por que todo este drama agora sobre a favela da Rocinha? Uma pesquisadora aponta a razão:

“[O sociólogo Ignacio] Cano considera que a guerra na Rocinha só está mobilizando a cidade e as autoridades estaduais e federais pelo fato de a favela estar na zona sul, a parte mais rica do Rio. A socióloga Julita Lemgruber, coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Candido Mendes, ressalta o mesmo ponto. ‘O Rio escolheu lidar com o varejo das drogas nas favelas de forma violenta. Aí vêm as Forças Armadas, o que é outra hipocrisia. A gente viu o que aconteceu na Maré: as Forças ficaram 15 meses, gastaram-se R$ 600 milhões e hoje o tráfico está lá de fuzil.’”[3]

Em tempos em que as Forças Armadas começam a se manifestar contra o estado atual da política brasileira, a mesma instituição é usada politicamente para aplacar uma situação que saiu do controle, mas não se vislumbra solução definitiva. Diferente da repressão espasmódica, o criminoso é nativo na área de controle e tão logo os “anticorpos” esvaziem-na, eles retomam seu domínio e não há palavra melhor para descrever do que esta, domínio.

Falando em “domínio”, quem deveria ter, sociologicamente, o monopólio da repressão seria o estado, certo? Mas o que dizer quando este é fraturado? Vejamos: “Maia diz que há conflito entre PM e cúpula da segurança pública do Rio”.[4] A questão é se livrar do “tráfico de drogas” ou do crime organizado como um todo, já que este não se limita, nem nunca se limitou ao tráfico de drogas? Vejamos o quadro geral, enquanto que facções disputam o poder de uma grande fatia deste mercado paralelo, o próprio estado, como mostra a matéria não se entende, havendo divergências entre a cúpula da segurança pública do estado do RJ e o comando da PM. O que acontece no Rio de Janeiro é um capítulo mais a frente do que temos como balão de ensaio em várias outras capitais e estados brasileiros. Mesmo em estados tradicionalmente mais pacíficos, o crime organizado nada de braçada. O aumento de 314% de apreensões de armamento em SC entre 2015 e 2016 nos dá uma ideia da profissionalização do poder paralelo no país.[5]

Se não fica claro qual será o desfecho disto para nós, também não o é para o exército brasileiro que pode, inclusive, contrair o vírus da corrupção ao ficar tanto tempo atuando como força de repressão sem planejamento de qual encaminhamento dar.[6] A dificuldade em vencer a “guerra às drogas” não ocorre somente pelo risco de corrupção das forças de repressão, mas pelos limites impeditivos da ação dos militares, cuja estratégia de combate difere da polícia por não haver lei civil como obstáculo a sua ação. Se esta for imposta, como é o caso em que tem que se esperar por mandados para agir, a própria ação se torna ineficaz. E o crime organizado, obviamente não espera pela lei fazendo de moradores reféns da situação ou até “escudos humanos”. A questão vai além da política em relação às drogas, não basta legalizá-las para se atingir a paz. As quadrilhas não disputam somente isto e continuariam a agir como o que são, quadrilhas sem respeito à lei mesmo com drogas legalizadas ou não.

Claro que não dá para negar a importância, ou melhor, a NECESSIDADE de repressão atual, mas no longo prazo é evidente que isto não basta. Temos gerações sem a devida orientação e o poder público há muito perdeu sua direção, uma vez que foi encampado pela máfia dos sindicatos – outra versão do crime organizado -, como no caso, os sindicatos de professores que há muito abdicaram da sua tarefa precípua de educar verdadeiramente falando. Repito: apesar de necessário o combate ao crime organizado se faz igualmente necessária uma abordagem inteligente dividindo as máfias para reinar sobre as mesmas e, no longo prazo unindo seu “mercado”, isto é, jovens desamparados que são facilmente cooptados por esses criminosos em projetos cívicos que não se limitem à pobreza intelectual atual de nossas escolas. Projetos como esse são desenvolvidos pela polícia militar[7]. Em um de nossos exemplos, a cidade de Juara, MT por onde 500 crianças e jovens já passaram demonstrando que a recuperação é possível também poderiam ser adotados como exemplo de estratégias de prevenção ao crime pelos civis. Mas, por que não se faz? Esta é a questão, quem nos impede? Olhe para os sindicatos e doutores em educação e vejam como se opõem a algo que foge de suas perspectivas ideológicas equivocadas e terá uma resposta para isto.

Em suma, para combatermos o crime organizado temos que solapar o poder das máfias organizadas em sindicatos que impedem nossa ação restauradora. Uma coisa é vencer nas urnas, nos debates, na “guerra cultural”, outra igualmente necessária é vencer a burocracia e associações de classe onde o nefasto “politicamente correto” associado à partidos de esquerda ainda vigora. À luta, então!

 

Anselmo Heidrich

(Imagem: Favela da Rocinha, no Rio de Janeiro.)

[1] Mapeamento mostra que 850 áreas no Rio estão sob domínio do crime – Notícias – R7 Rio de Janeiro http://r7.com/ecYy #R7 via @portalr7

[2] Violência na Rocinha faz preços dispararem https://extra.globo.com/noticias/rio/violencia-na-rocinha-faz-precos-dispararem-21865990.html via @JornalExtra

[3] Idem.

[4] Maia diz que há conflito entre PM e cúpula da segurança pública do Rio https://glo.bo/2xsOztl.

[5] Apreensão de armamento pesado dispara alerta da Segurança em SC – Diário Catarinense http://dc.clicrbs.com.br/sc/noticias/noticia/2017/09/apreensao-de-armamento-pesado-dispara-alerta-da-seguranca-em-sc-9915381.html

[6] Ação de militares na Rocinha está fadada a terminar sem vitória clara https://www.poder360.com.br/opiniao/brasil/acao-de-militares-na-rocinha-esta-fadada-a-terminar-sem-vitoria-clara/ via @Poder360

[7] Projeto social auxilia no resgate de jovens em situação de vulnerabilidade http://www.folhamax.com.br/cidades/projeto-social-auxilia-no-resgate-de-jovens-em-situacao-de-vulnerabilidade/139912