21 de agosto, 49 anos atrás, tanques soviéticos arrastam tudo pela frente em Praga, capital da então Tchecoslováquia pondo fim ao período de abertura democrática conhecido como “Primavera de Praga”. Duas décadas depois, os efeitos desse pequeno experimento que tentou mudar o “rosto do socialismo” conseguiu mudar a face de um continente, como se um antídoto contra o totalitarismo ressurgisse das cinzas.

O comunismo foi derrotado e mesmo tentem trazer este lixo histórico pela porta dos fundos de nossas nações, ele será novamente extirpado como uma célula cancerosa. A Tchecoslováquia nos forneceu o protocolo médico para curarmos esta patologia social, mas depende de nós diagnosticá-lo.

Cf. https://youtu.be/P76FtHq7mL4

Os tchecoslovacos acreditavam em algo que chamavam de “socialismo com rosto humano”. Independente de haver alguma contradição nisto, seu país foi invadido brutalmente pela URSS mostrando claramente ao mundo quem mandava naquela região entendendo ‘região’ por quase todo centro-leste europeu. Diferentemente dos dias atuais, nos quais as fronteiras são muito mais diluídas e a migração entre nações é intensa, o continente europeu encontrava-se fortemente dividido entre dois sistemas econômicos opostos, um que defendia a propriedade privada e outro, cuja propriedade dos meios de produção era totalmente controlada pelo estado. No entanto, esta verdade é parcial, pois exceções como a Iugoslávia, que permitiam algum grau de (pequena) propriedade privada eram regidos politicamente por um único partido, o Comunista. Ou seja, a ditadura fazia parte de seu DNA político-ideológico e essa diferença substancial foi constantemente relegada a segundo plano por nossos acadêmicos esquerdistas. A oposição entre democracia do chamado “mundo livre” e a “ditadura do proletariado” que, na verdade era do partido único era uma diferença que coroava o processo de monopólio da propriedade ao seu total controle pelo estado.

Após a II Guerra Mundial, os partidos comunistas foram alçados ao poder com facilidade no leste europeu e se entende por que. Assim como os EUA foram responsáveis pela libertação do jugo nazista no ocidente, no leste foi a URSS pouco importando se o comunismo era tão totalitário ou genocida quanto o nazismo, para os povos locais se tratavam de libertadores. Lembrem que o acesso à informação não era como nos dias de hoje onde uma simples busca revela dados e diversas interpretações que nos permite decidir e julgar com maior facilidade. Vivíamos épocas em que se demorava anos, décadas para que informações alternativas viessem a público.

Vejam este vídeo: https://youtu.be/OgaL-wJMWQU, Nikita Krushev, o líder soviético da época era avesso à formalidade e queria que a URSS, gradualmente, se abrisse (ele foi uma espécie de antecessor de Gorbatchev), mas ainda acreditava no sucesso do socialismo. Ele ordenou uma mostra da produção americana no país… Veja os comentários (hilariantes) sobre a Coca-Cola e que os homens esperavam dela: será que deixa bêbado?!

Neste vídeo aí acima vejam a “segurança no trabalho” aos 3:50…

Logo depois aos 5:30 mostra a desigualdade permitida sob a ideologia da desigualdade em que militares qualificados ganhavam bem mais e recebiam imóveis do estado soviético.

Aos 7min vejam o que diz um líder operário: a cada provocação dos militares americanos produziremos mais aço. Era claro que sua produção se destinava à indústria armamentista, o país se tornava uma máquina de guerra.

E revelador, um ex-chefe da KGB (o serviço de inteligência soviético) dizendo que “o ocidente nos ajudou”, pois sua política criou medo que nos permitiu exigir mais de nosso povo. Se entenderam, ambas as máquinas de guerra americana e soviética formavam um ciclo vicioso que incentivavam-se mutuamente a aumentar seus arsenais e poder.

“Tínhamos um país inteiro com muitos recursos em mãos, então por que nos vestíamos tão mal, por que não comíamos o que queríamos, mas o que havia? A resposta era simples: o Tio Sam estava construindo uma Bomba Atômica e tínhamos que construir duas; se ele construía duas tínhamos que construir quatro…” – homem que fora adolescente nos 60.

Uma professora da época disse que “vivíamos em apartamentos comunais, com 1, 2 ou até 4 quartos e em cada um havia uma família”. Sim, com uma cozinha e um banheiro para todos.

Kruschev se guiava pelo seu senso comum, não tinha conhecimento da economia e do liberalismo, óbvio, mas percebeu esta insatisfação e guiou a indústria para a produção de bens de consumo produzindo apartamentos pré-fabricados, mas ainda assim as prateleiras dos mercados tinham pouca comida. Qualquer cereal, massa ou pão tinha filas para se conseguir comprá-lo.

Era um líder dotado de romantismo, que inspirava os soviéticos, mas como todo comunista, equivocado para não dizer burro mesmo… Ao invés de permitir a livre-empresa que levaria ao aumento da produção pela concorrência – o que é, essencialmente, anticomunista, claro -, sua campanha de aumento da produção de carne, leite e grãos se baseou na exploração das chamadas “terras virgens”, i.e., a Ásia Central. E cá entre nós, terra era o que não faltava na ex-URSS.

Esqueceu, no entanto, que elas ficavam distantes e faltavam vagões, caminhões para seu transporte, silos para armazenagem e fertilizantes para alcançar a produtividade necessária. A consequência óbvia: grande parte da colheita foi perdida.

Para comprar certos gêneros tinha que se viajar, como até Moscou que concentrava a maioria dos mercados distribuidores. Crianças passavam o dia ajudando suas mães carregando mochilas com o peso das compras. Era como uma cerimônia. Mas a subversão tem outros caminhos. Nos anos 60, as “calças pantalonas” entraram no país e eram proibidas! Jovens eram reprimidos pela polícia ao usarem-nas.

A “guerra das calças” consistia na repressão policial ao ver um jovem vestido a moda ocidental, “estilo inglês” e não soviético. O garoto era tirado da multidão e levado a uma delegacia onde cortavam as calças e o cabelo, depois devolvido. As pessoas hoje em dia não têm mais ideia do que a moda representava em termos de contracultura e como isto ajudava a revolucionar mentes e padrões de comportamento que podiam atingir o cerne da política. Enquanto que conservadores americanos diziam que os hippies eram “sinal de influência subversiva comunista”, os soviéticos por seu turno acusavam-nos de “sintoma da decadência do capitalismo”. Claro que nenhum deles estava certo.

“A sociedade estava tentando se arrastar debaixo das pedras do totalitarismo”… Discos não podiam ser importados ou produzidos livremente, mas isto não impedia o contrabando de rádios. Não é a toa que na recente campanha do Afeganistão, os EUA lançaram rádios a corda para que os afegãos pudessem ouvir notícias sobre a guerra que não passassem pelo crivo e controle do Talebã. A propaganda e a informação não costuma ser bem analisada como arma de guerra que é, mas regimes caem com sua força. Lembram-se da derrocada de Nicolau Ceuacescu na Romênia. O ditador tentou esconder de seu povo, as transformações que ocorriam no Leste Europeu até que os protestos cresciam em suas aparições públicas. Numa dessas, a repressão levou milhares a morte para depois executarem o tirano e sua mulher em praça pública. A pergunta é, como o povo já sabia o que acontecia e exigia o mesmo? Como? Quem pensou em contrabando e parabólicas acertou em cheio. Sim, não é a toa também que a Romênia tem hoje a 2ª melhor rede de internet do mundo, pois quando as companhias entraram no país já puderam encontrar uma rede previamente estabelecida de intranet que facilitou o trabalho. Alguém aí já ouviu falar em liberdade de empresa? Os romenos derrubaram o comunismo exercendo ela e todos seus benefícios decorrentes, como a liberdade de opinião. Pena que Ceaucescu não estava conectado ou não… Assim ele pode ficar de fora sem reprimir ninguém no acesso à informação. O que, diga-se de passagem, Pequim sabe muito bem ao impedir que se acesse qualquer link com a palavra democracia de seu país.

Algumas coisas soam inauditas para nós, em nosso tempo e sociedade. Imagine o poder revolucionário de poesias amorosas: aos 22min um poeta russo disse como se tornou popular ao usar o termo eu ao invés de nós, “eu te amo” ao invés de “nós amamos”, como isso tocou fundo no coração da população. Se vocês perceberem era o advento do indivíduo em contraposição a um longo período da história dominado por uma ideologia coletivista. Analogamente, esta é uma das (uma das) razões do sucesso dos Beatles no ocidente, que usava e abusava do termo _me colocando intimidade via rádio dentro dos lares britânicos. É uma torrente que estava reprimida e viria como uma inundação após o rompimento de diques. Subterraneamente as sensibilidades estavam sendo preparadas para derrubar um regime opressivo. Faltava o estopim.

É impressionante o grau de loucura ideológica quando este poeta contou como teve uma poesia sua acusada de “antisoviética” porque falava de solidão. Como podia ele, um homem do povo, da imensidão coletiva se sentir sozinho?! Assim raciocinava o membro do partido, o comitê que perseguia jovens censurando-os pelo seu comportamento e chamando para reuniões de “orientação” exatamente como criaram agora na nova constituição venezuelana – centros de correção para quem divergir dos ideias revolucionários-bolivarianos.

Em 1962, a linha dura do Partido Comunista da União Soviética (PCUS) queria apertar o cerco a qualquer forma de dissidência ou traço cultural que a incentivasse. Então convidou Nikita Kruschev para uma mostra de arte moderna. Vocês já podem imaginar que o Secretário Geral do Partido ficou chocado, muito chocado. “Algumas telas estão inacabadas…” – disse Kruschev. – Por que não pintam as paisagens da nossa pátria? Onde estão os rostos dessas pessoas pintadas nos quadros? E por aí foi. – Por que eles odeiam os rostos dos nossos trabalhadores soviéticos…, foi o que ouviu.

Para um camponês alçado ao cargo máximo do país, o máximo em arte era a música clássica, a música folclórica, um quadro realista onde uma floresta era uma floresta, não essa arte de vanguarda que requeria poder de interpretação que lhe era alheio. E os ideólogos de partido tripudiaram em cima de sua ignorância ao lhe dizer que era bom que não entendesse, pois esta era “uma forma da decadência burguesa atacar nossa sociedade pura”.

Vejam o que está em jogo aqui, a censura que os soviéticos impunham internamente passou a se refletir, ferozmente no cenário doméstico de seus aliados. O líder tchecoslovaco impedia qualquer reforma com mão de ferro e todos jovens que tinha na produção cultural sua lida não encontravam saída: sabiam que criticar o comunismo era suicídio. Mais fácil enfocar temas abstratos, longe da crítica ideológica, o que não era fácil, pois isso os obrigava a serem desonestos consigo próprios, pois o subproduto da censura era a autocensura e a hipocrisia. Vaclav Havel, quem iria se tornar o chefe de estado com o fim do comunismo no país era um desses, um jovem dramaturgo.

Enquanto isso Kruschev não desistia, se no plano cultural o comunismo apertava com punho de aço a liberdade de expressão, no campo seus arados eram frágeis e insuficientes, sem tecnologia agrícola que levasse ao aumento de produtividade. A imposição para que todos plantassem milho nos rigores do clima russo era uma asneira digna de um Q.I. de ungulado. Só para se ter uma ideia da insanidade, meninos e meninas no campo tinham que acender fogueiras no campo a noite para impedir que o milho se congelasse. Como eram obrigados a controla-la, dormiam e acordavam com as mãos ou rosto sendo queimados. Tudo em nome de uma ideologia estúpida, uma ignorância que é repetida até os dias de hoje para nossos jovens por sanguessugas nas universidades que escondem a verdade sob este rosário de mentiras que foi o comunismo, uma ideologia contrária a liberdade e ao indivíduo onde decidir o que e como produzir eram vistos como pecado e traição.

Um ano após Kruschev ter censurado seus artistas, o inverno foi inclemente e quebrou suas safras de milho e trigo. Crianças choraram no campo ao ver que suas táticas não venceram o clima russo, o mesmo que derrotou Napoleão, Hitler a ainda mantém a horda islâmica afastada do heartland asiático, o coração da Mãe Rússia. Entendam o seguinte: por mais nacionalista e comunista que fosse um russo, neste ano ele amaldiçoou Kruschev por que embora fossem pobres em um país imensamente rico, os russos nunca tinham ficado sem pão. Não, até aquele ano… E o impensável aconteceu, a Rússia foi obrigada a importar comida, trigo mais especificamente e de quem? Deles, dos Estados Unidos da América. A História é mesmo surpreendente, não? Enfie este orgulho no C*, seu comunista de B**! A economia não obedece ideologias, ela se faz e nós temos que aprender com ela.

Enquanto que o Ocidente se divertia com sua figura simplória e divertida, internamente Kruschev era visto como um PALHAÇO e pior, um IRRESPONSÁVEL. Além da crise interna, o país quase foi a guerra nuclear após uma desastrada crise tendo beneficiado um pústula como Fidel Castro por colocar mísseis soviéticos em Cuba ameaçando os EUA. Sem sangue, a cúpula do PCUS o depôs preparando o caminho para seu sucessor, Leonid Brejnev.

Um ano antes de eu nascer, em 1964 Kruschev foi deposto e nunca mais voltou. Se retirou em sua dacha (casa de campo dos líderes soviéticos) e curtiu uma depressão temporária. Na URSS, o regime se estabilizava, mas só internamente… No plano externo, a inquietação tomava conta do império e o líder tchecoslovaco não conseguia mais conter os reformistas. O “socialismo com rosto humano” inaugurado em 1968 na Tchecoslováquia só tinha um rosto e humano porque perdera seu poder comunista, o partido governava com consentimento, a liberdade de expressão nascera junto com… Uma Economia de Mercado. Era demais para os soviéticos.

A liberdade vinha em espasmos e a sensação de poder falar o que quisesse vinha acompanhada da paranoia (necessária) de olhar por cima dos ombros para ver se não era espionado. Eram surtos de alegria intercalados pelo medo. Alexander Dubcek, primeiro ministro tchecoslovaco fora avisado durante meses e quando tentou atender às ordens soviéticas já era tarde demais. Não era só uma questão de que opiniões anticomunistas e antissoviéticas estivessem a luz do dia em jornais, mas que isto significava um claro enfraquecimento do poder tecido durante anos na Guerra Fria e cedo ou mais tarde levaria as tropas da OTAN chegarem às fronteiras soviéticas. Desta vez era um ganha-perde territorial e não uma simples mostra de arte de vanguarda fracassada. No dia 21 de agosto de 1968 paraquedistas russos desceram dos céus empunhando suas AK-47 e uma simples verdade se tornou óbvia: não é possível ter comunismo e liberdade. Na manhã seguinte, os tanques soviéticos deslocavam-se pelo centro da capital e a população atônita perguntava o que tinha acontecido, afinal eram aqueles que se diziam seus irmãos por anos. Os disparos começaram e o primeiro corpo, de um menino foi ao chão. A repressão comunista não começara, ela já existia, mas agora quem tinha alguma dúvida poderia abandona-la. Em 1939, os tchecos tiveram seu país invadido por Hitler e podiam esperar o pior, mas agora se sentiam traídos, mortos no que acharam ser possível, enganados por uma ideologia.

Em 1968, a primavera morreu para o povo daquele pequeno país encravado no coração da Europa, mas as sementes das flores iriam germinar por todo o continente duas décadas após carregadas pelos ventos da liberdade.

 

Anselmo Heidrich

Boa noite,

2017-08-21

 

(Fonte da imagem: http://www.tresbohemes.com/2015/08/the-day-the-tanks-came/)