Após meu último texto li por aí que o nazismo não pode ser de direita porque é coletivista, autoritário, intervencionista, anticonservador (revolucionário no sentido da mudança de ordem vigente para outra pior, no caso) etc. Tudo isto é verdade, exceto por não poder ser de direita. Direita e Esquerda são termos relativos, assim como os polos geográficos, um inexiste sem o outro. O erro que vemos por aí, seja em textos, áudios, vídeos etc. é considerar uma direita especifica, a liberal na economia e conservadora nos costumes como a verdadeira direita. Isto é uma bobagem, pois este conceito específico se limita a uma dada conjuntura e realidade especifica. Transportar algo de determinado contexto para outro é o que chamamos em ciência social de anacronismo e é exatamente isto que grupos que levantam a bandeira da direita, assim como os postulantes da verdadeira esquerda fazem contra seus pares moderados. Lembremos que durante muito tempo, a chamada socialdemocracia era demonizada pelos radicais comunistas, ao passo que hoje ela é vista como a esquerda, manipuladora e que está por trás de todos os movimentos mundiais de “esquerdização” da política. Como as coisas mudam, não? Assim, quando se procura encaixar uma ideologia como o nazismo dentro de posições políticas na sociedade, como direita e esquerda, se corre o risco, não observadas as particularidades de cada época em deturpar o que era o objeto central – no caso, o nazismo – para que assim caiba dentro de uma visão dicotômica e simplista do mundo. Análoga e simetricamente, se o nazismo supera a simples posição de ‘esquerda’, também não se adéqua ao que hoje entendemos como ‘direita’. O impressionante, no entanto, é ver a empolgação daqueles que preferem discutir este par abstrato Direita VS Esquerda deixando de enfocar o próprio Nazismo, o que ajuda na ignorância da perenidade deste fenômeno sociopata até hoje, até mesmo em um país como o Brasil.

Segue aqui um excelente texto que versa sobre o assunto.

Boa leitura,

Anselmo Heidrich

 

Essas confusões sobre esquerda e direita se devem a vários fatores.

Movimentos políticos sustentam em seu momento histórico conjuntos de ideias que não guardam necessariamente muita relação entre si, e até mesmo podem parecer contraditórios mais tarde. Por exemplo, a independência americana foi um movimento de esquerda em sua época, porque pregava o fim da nobreza, defendendo a supremacia de “Nós, o povo”. Mas a maioria preferiu manter a escravidão, excluindo os negros do conceito de povo, e só os grandes fazendeiros tinham direito a voto.

A Revolução Francesa, por seu lado, pouco fez para conquistar a igualdade feminina, que em muitos casos até regrediu. O grande objetivo oculto dessas grandes e importantes revoluções foi transferir o poder das mãos da aristocracia e do clero parasitários para a nascente burguesia agrícola e mercantil.

O resultado foi uma grande democratização e o início da sociedade moderna, mas não tão completa então como a maioria imagina.

Se direita implica principalmente em ser conservador, mantendo o status quo social, e esquerda em nivelamento das classes sociais, como geralmente é entendido, é preciso não esquecer que em cada momento histórico esses eixos agregam em torno de si ideias e valores marcantes, mas não conceitualmente essenciais. Um exemplo é a diferença ente fascismo e nazismo com relação aos judeus, fundamental aos primeiros, mas não aos fascistas a que tomaram como exemplo em seu início. Ambos eram totalitários, ambos hegemônicos em seus delírios de grandeza, mas o antissemitismo só foi introduzido na Itália por pressão alemã.

Além do reconhecimento de que cada ideologia em marcha é formada por vários vetores nem sempre afins, há ainda a deriva histórica dos movimentos, em função dos acidentes que lhes atravessam no caminho e alteram seu próprio eixo.

Há um bom exemplo aqui no Brasil. Se compararem a política social e econômica dos militares de 64, verão que era muito mais afim com os trabalhistas, seus inimigos de morte de então, que com os liberais de mercado da época, como Lacerda, e muito mais com a direita liberal de hoje. Eram nacionalistas, acreditavam na ação positiva do governo na economia, e na implantação de leis e programas de proteção social.

Como, então, decidir se este ou aquele movimento foi de esquerda ou direita? Eram de esquerda os militares de 64?

Uma boa pista para sair do imbróglio é observar qual o foco daqueles movimentos em sua ação política, no tempo em que atuaram.

O movimento de 64 se colocou como barreira ante o crescimento da ação da esquerda, que vinha assustando as classes médias brasileiras. Igualmente, o fascismo e nazismo se alimentaram em seus países do temor de que a hegemonia das esquerdas fosse implantada, tanto pela via democrática, aonde vinham conquistando benefícios, como férias remuneradas, semanas de 44 horas de trabalho, quanto pela via revolucionária, que alguns partidos pregavam.

Mas nazismo e fascismo, como notam alguns direitistas, estabeleceram algumas medidas de proteção aos trabalhadores, a “Carta del Lavoro” de Mussolini é um bom exemplo e modelo de nossa CLT. A razão é simples, não se pode simplesmente estancar benefícios para 90% da população e sair incólume, o que era preciso no momento era que alguém controlasse o processo, que então parecia caótico aos olhos de muitos, e se fixasse como mediador, definindo o que poderia e o que não poderia ser concedido.

O resultado é que se deram algumas garantias aos trabalhadores italianos que, unidos a forte repressão, fragilizaram o movimento de esquerda naquele país.

Não há dúvida de que aqueles movimentos foram a arma da direita para enfrentar as forças de esquerda.

Olhar os programas que defendiam sob a ótica de hoje leva a grandes equívocos.

Até por que os esquerdistas e direitistas de hoje têm grandes diferenças com os daqueles movimentos do passado.

Um exemplo curioso é a integração das esquerdas latino-americanas com a cúpula da Igreja e muitos países, contra a antiga tradição anticlerical.

E se você se diz de direita, porque defende o estado mínimo, e também a igualdade de gênero e das mulheres, não se meta numa viagem do tempo para a Itália dos anos 30, pois os fascistas iriam prender você e fazê-lo beber muito óleo de rícino, como perigoso esquerdista.

É a deriva política, meus caros.

Por fim cabe mais uma observação importante: cada homem de ideias, em cada momento acredita que conseguiu atingir o “Fim da História”, ou seja, a visão universal e permanente do Direito Natural. Assim acreditam os bem intencionados de hoje, de todos os matizes… Inutilmente.

 

Carlos Bertomeu

2017-08-16