Não é desistindo de sua vontade de ação e colocando suas avaliações em suspenso, mas no confronto e no exame de si mesmo, que o homem consegue objetividade e conquista um self com referência a sua concepção de seu mundo. O critério para este auto-esclarecimento é o de que não só o objeto, mas nós mesmos entramos totalmente em nosso campo de visão.

Karl Meinheim, Ideologia e Utopia

 

Não dá para fugir desse assunto. No vídeo a seguir, vemos um livro interessante que trata da atual polarização que marca os EUA (e o mundo) entre ‘direita’ e ‘esquerda’ e a imputação de todo o mau, bad guys ao que eles chamam de right wing. Fatos, sim FATOS, como a Ku Klux Klan ter nascido no sul dos EUA, região de maior força política do Partido Democrata leva o autor, Dinesh D’Souza a trata-la como criação deste. É ler para conferir sua fundamentação, mas até aí cuidado com a disseminação desta argumentação como sendo fato consumado. “Na dúvida, não ultrapasse,” é o que se dizia, certo? Pois bem, o mesmo vale para um debate que tem como fim precípuo (ou deveria ter), a busca pela verdade. Confiram aqui:

Algumas considerações, como Mussolini ser marxista foram novidade para mim. Outra coisa para conferir. É possível, no entanto, devido à ideologia que grassa em determinada época e lugar se fazer afirmações ou manter crenças que podem ser classificadas de um determinado modo sem que o seu apologista ou crente se identifique com o conjunto da obra que é raiz daquele pensamento. Vejo isto a toda hora, gente que afirma que a desigualdade é a pior chaga social, que a violência decorre dela e que há exploração entre classes sociais, mas que nega veementemente uma utopia comunista sem que percebam que suas crenças mais recônditas surgiram atreladas àquilo que é objeto de rejeição. Enfim, mesmo que seja possível dissecar os objetos de crença fazendo recortes analíticos e distinguindo valores a cada seção desta ideologia é bom verificar sempre como aquilo que se acredita pode ser sustentado. É possível, por isso mesmo que Mussolini tenha acreditado ou proferido algo que endossasse Karl Marx sem, contudo, apostar no fim do estado como condição para criação de uma sociedade igualitária e justa. Analogamente, é possível como, aliás, foi de fato o que ocorreu, que adeptos da filosofia marxista, mas ligados à política, a sua práxis abandonassem, estrategicamente, os sonhos de uma utopia sem estado, sem nenhum tipo de ordem política hierarquicamente imposta para se dedicar ao controle do capital pelo (próprio) estado e a repressão de grupos de oposição identificados como da (ex-)classe dominante.

A percepção dos fenômenos políticos, como ele é absorvido, sobretudo pelas pessoas comuns e não necessariamente intelectuais organizados é que faz algo ser mais ou menos impactante na sociedade. Quando consideramos o longo prazo é que vemos ideias plantadas na cabeça de nossos alunos por décadas germinarem agora numa sucessão de explosões de fanatismo ideológico. Acontece que com as redes sociais, especialmente aquelas que permitem se comunicar de modo enxuto, nos trouxeram a hecatombe do raciocínio para vitória do discurso seco e raso. Como o Twitter tem mais apelo que os discursos e debates, o ritmo exponencial em que acusações crescem de ambos os lados – hoje todo mundo virou fake news – é fácil perceber que a premissa para um debate que busca objetivar resultados de que “eu também posso estar errado”, simplesmente inexiste. Por isso mesmo estudar esta percepção é fundamental. Vejamos agora um antigo militante da KKK agradecendo o incentivo de Donald J. Trump ao resgate de seu país. Obviamente que o que ele entende por ‘resgate’ não é necessariamente o que entendeu o presidente. Este não seria louco de pensar o mesmo, pois se pensou, é um louco mesmo. Vejamos aqui:

A causa próxima seria a remoção de uma estátua do general confederado, símbolo dos tradicionalistas suíços, Robert E. Lee. Claro que não seria só isso, a antinomia dos grupos é crescente e não vem de hoje, mas vamos a esta estátua da discórdia. Em que pese o fato do general confederado ter sido um militar e até após sua derrota ter sido convocado por Lincoln para liderar as forças armadas é irrelevante. Porque a questão não é a pessoa do general, mas sua figura pública que nunca se encerra em sua personalidade, histórico ou psicologia. Se ele lutou por estados, cujas elites dependiam e defendiam a escravidão basta para tirar uma estátua que é a antítese do que se discursa nos EUA, ao menos pelo discurso dominante na sociedade e em ambos os principais partidos. Se ele incentivou a união após ter sido derrotado, então, ao menos, sua estátua deveria especificar este ato, com uma placa na base. É simples de entender: mesmo que tenha havido um bom soldado alemão na II Guerra Mundial cabe manter uma estátua de um nazista em Berlim, muito embora o homenageado não tenha matado nenhum judeu? Claro que não! E qual é o problema de se retirar uma estátua? Se isto tem que ser decidido legalmente, que se faça, pois a mesma não seria retirada na marra. Agora sim é que a questão será atropelada graças à cizânia instaurada. Aliás, as estatuas de Lenin, Saddam et caterva também não foram retiradas na marra? Algum leitor aqui gostaria de rever esta atitude? E até mesmo províncias argentinas consideram retirar estátuas de Che Guevara. Como Trump disse ao defender a permanência do símbolo no campus, “não se muda a história”. Correto, mas se muda nossa reverência e leitura em relação a ela. E de mais a mais, se esta oposição entre esquerda e direita nos EUA se tornar insustentável, que se faça como querem aqui nos tribunais brasileiros: se retirem todos os símbolos que não sejam isentos ideológica e religiosamente. Sei que rumamos para um mundo mais regrado, mas ou é isto ou se discute mais de forma civilizada. O que vai ser? O que cansa o fígado é ver gente acusando a esquerda de mimimi (óbvio que ela aproveitou o episódio) porque uma direita autoritária formada por nazistas, alt-right e Ku Klux Klan querem manter uma estátua como pretexto de união das direitas. Ambos os extremistas irão aproveitar qualquer fato que sirva de discórdia para o embate, mas o poder público não pode ficar acuado simplesmente pela possibilidade e medo deste embate. Tem que se por as cartas na mesa e dizer quem é que manda no espaço público.

Acho que como post está suficiente. O assunto irá render mais, mas por ora encerro com a excelente declaração do governador da Virgínia que resumiu bem o que penso. Ah, sim! Dirão que por ser democrata, o governador esconde o passado racista de seu partido. Digamos assim, caro idiota… O sujeito não esconde nada, está tudo aí para quem quiser ver. O fato é que opiniões mudam, percepções mudam, principalmente quando estas se constroem ao longo da história, da longa história, o que torna possível, hoje termos gente que luta contra o racismo no sul dos EUA, lócus das leis racistas que chegaram a inspirar o III Reich na Alemanha. Agora, o discurso do governador:

 

Aproveitem o dia de sol que este fim de semana será de chuva.

Anselmo Heidrich

2017-08-17

 

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