O sociólogo Heinz Bude faz uma análise interessante sobre o papel do medo, constante, em nossas sociedades atuais:

 

“O problema é que as exigências e os medos cada vez se estendem mais. Já não é só o medo de fracassar no trabalho. É também o de escolher o parceiro errado, falhar como pai… O indivíduo é cada vez mais exigido. Agora é preciso ter inteligência emocional, e até para morrer é preciso fazer a coisa certa. A pessoa tem que saber aceitar a morte em vez de temê-la. O medo te acompanha até o final. Os recursos que seus pais te deixaram, inclusive a herança intelectual, podem te ajudar, mas não garantem que você vai conseguir, que não cairá em desgraça. Isso gera muita ansiedade. Não basta ter uma boa educação ou boa renda para ter status social, pois em qualquer momento você pode cair. Na sociologia, a questão do status adquiriu muita importância.”

 

Gostei bastante, aliás, gosto mais dessas análises teorizantes do que a política mundana, chata e sem perspectivas. Só lamento pela pobreza do entrevistador que, ao final, não teve mais o que dizer e perguntou sobre o “gênero”, como se as mulheres tivessem mais problemas com o medo do fracasso do que os homens. Acho isto uma baita bobagem porque as vejo com muito mais ímpeto e, principalmente, resistência do que os homens. Talvez porque, entre outras coisas, não se cobre tanto delas quanto dos homens… Cobrança esta que os próprios homens se auto-impõem. Mas de resto, o que importa, é que o entrevistado dá dicas interessantes. No fundo, o que ele diz, é que fazemos tempestade em copo d’água. Só o que precisaria ser melhor explicitado na entrevista (ou extrato dela, pois é pequena a publicada) é como se inseriu a classe média na relação com o medo e não outras classes. Deduzo que seja por que esta é a cobrada, uma vez que se presume a classe baixa como assumindo um fracasso e a classe alta como vitoriosa. Também acho esta uma premissa pobre, pois descarta o conceito de mobilidade social e há muita “classe baixa” que ascende tomando o lugar das classes médias. Portanto, qual classe média se deixa levar pelo medo do fracasso? Não seria aquela que já nasceu em bom berço tendo condições de ascender e não conseguiu? Outra coisa, que é um ponto para o sociólogo entrevistado é que ele não limita sua análise ao sucesso econômico falando, inclusive, do sucesso nas relações pessoais, “ser um bom pai, marido” etc. Este tipo de cobrança se torna cada vez mais frequente também.

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Entrevista | “Há muita amargura e ressentimento na classe média” https://brasil.elpais.com/brasil/2017/06/27/cultura/1498577124_706748.html?id_externo_rsoc=TW_CC via @elpais_brasil

Anselmo Heidrich

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