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Nossa produção intelectual tem que produzir mais do que poeira quando teses são abertas…

Não é incomum questionarmos o trabalho de intelectuais e ouvirmos como resposta que “nenhuma sociedade subsiste sem a universidade”, como se estivéssemos dizendo o contrário ou atacando seus críticos por “não terem competência para dizer nada sobre a universidade”. Além de medo, este tipo de defesa é evasiva, pois não enfrenta o que está sendo dito contra a universidade. No texto a seguir, Waldemar Pacheco critica justamente isto, a situação atual de afastamento da universidade em relação à sociedade, uma maneira de não ser visto para não ser cobrado.

RL

Fosso do Saber: Universidade x Sociedade

 

Waldemar Pacheco Júnior

Consultor em Engenharia

 

Não incomum (e não é de hoje, e não apenas no Brasil!), críticas de todas as tendências (direita, esquerda, de cima, de baixo, enviesada, no ponto morto e por aí vai!) são dirigidas às universidades, públicas e privadas, quanto às suas verdadeiras funções e, principalmente, aos seus resultados. As mais comuns são relativas à burocratização, ao mercantilismo e, principalmente, à mediocridade prática de seus produtos – e a despeito de paixões ou razões, em muitos específicos contextos (e dependendo do ângulo que se vê), essas críticas são válidas, porém, em outros, infundadas.

Universidade, como conceito, é algo que deriva do termo “universal”, ou seja, abrangendo o multidisciplinar na geração e transmissão de conhecimento, com sua origem enraizada na filosofia, arte e matemática, muito anterior ao que se conhece por ciência. Isso significa que, antes, a argumentação racional era o imperativo para gerar conhecimento e, neste sentido, o indivíduo (cogito ergo sum) e o empirismo (cogito ergo est) eram as fontes de inspiração no revelar as verdades sobre os fatos – e a ciência, posteriormente, ofereceu a sistemática à reprodutibilidade dos experimentos como forma de evitar os vieses do indivíduo e do “achismo”. É claro que, devido a ciência, as necessárias especializações foram se desdobrando de matérias gerais, das grandes áreas para subáreas e descendo ao nível de disciplinas isoladas; o abstrato vai dando lugar ao metódico e a figura do pensador substituída pelo ente objetivo, tanto mais quanto maior especialidade se torna necessária à ciência. A filosofia é, enfim, absorvida pela cientificidade do potencialmente utilitário, mas nem sempre prático.

É certo que deverá agora causar repulsa, protestos e reações do gênero, mas se percebe que as universidades têm resultados de muito conhecimento inócuo e descabido no cotidiano da sociedade. Bem verdade que, nas exceções, as pesquisas e o repasse de conhecimento aos seus discentes geram produtos que alavancam a sociedade, direta ou indiretamente, mas continuam sendo as ressalvas do modelo em que se privilegia essencialmente a especialização. No âmbito da prática diária, é um modelo que vai afastando os discentes (e também docentes!) do cogito ergo sum, tornando-os meros apertadores de botões das tecnologias impressas nos livros, numa infinita repetição geradora de autômatos com diplomas, apenas por cumprirem os requisitos de suas especializações.

Neste ponto do artigo, alguns rebaterão dizendo: o conhecimento nos últimos anos, em números, supera o obtido nos 20 séculos anteriores. É fato, inclusive com benefícios incomensuráveis à sociedade! E isso é devido especialmente às especializações, não se pode negar e, em muito, devido à máxima de pensar-se que “conhecimento é poder” (scientia potentia est), embora o poder das universidades se esvaia no próprio isolamento. Assim, é um conhecimento, na grande maioria, dormitando nas prateleiras das bibliotecas universitárias na espera de alguém que o descubra para ser utilizado ou, no máximo, desfilando em artigos de revistas especializadas em algum tema para possível citação dos autores, longe do cotidiano prático das pessoas. É um conhecimento de especialistas, e não de pensadores que possam antever a utilidade prática de suas pesquisas e aprendizados, pois, como herança da vida moderna, a especialização dos indivíduos leva essencialmente à operacionalização, e não ao foco estratégico.

Esse é o fosso que existe entre as universidades e a sociedade que se reflete, sem dúvida, no abismo entre o teórico e a prática. Muitas das críticas são mais do que procedentes, pela visão utilitarista. Urgem estrategistas e resgate da filosofia, não como teorização (muito comum!), mas de utilização!

 

P.S. 1: A sociedade, também, precisa de auto avaliação nas suas práticas, em relação às universidades.

P.S. 2: O mundo já não vive (ou não deveria viver) na Era das Cavernas!