É plenamente factível e está em pleno curso de poder acontecer. Durante o Governo Ba’ath, de Saddam Hussein se construiu uma represa às pressas. Os terrenos mesopotâmicos, na bacia do Tigre e Eufrates são, em grande parte, cársticos e formam grutas conforme a água percorre sua estrutura. Na região curda, ao norte, na proximidade de Mossul se encontrou algo mais adequado, mas não ideal. Após a guerra ao Irã, nos anos 80 e a invasão ao Kuwait, no início dos anos 90, o Iraque sofreu severas sanções da ONU e dos EUA durante o governo de Bill Clinton que solapou a renovação da infraestrutura nacional. A pá de cal como sabemos viria com a 2ª Guerra do Golfo, em 2003 com George W. Bush. Em que pese a moralidade duvidosa de salvar o país por suspeitas infundadas de Armas de Destruição em Massa (ADMs) nunca encontradas (ao passo que conseguiram encontrar Saddam escondido em um pequeno buraco…), o fato é o regime dominante era mesmo uma ditadura sangrenta baseada no terror, tortura e opressão contínua sobre todos, sejam seitas divergentes (xiitas) ou etnias separatistas (curdos) ou simples dissidentes do regime. Só que aí está o detalhe, como se tratava de um regime autoritário com estas características, a rapidez e falta de liberdade na construção das obras (se não fosse realizada em tempo hábil, cabeças rolariam), uma grande represa foi construída e após esse tempo todo e os ataques que se tornaram rotineiros, sua estrutura está ameaçada, seriamente ameaçada. Quando se fala ameaçada, imagine algo muito pior do que a série de ataques perpetrados pelo absurdo provocado pelos terroristas do Exército Islâmico… Mossul mesmo pode ficar 5 metros abaixo d’água após algumas horas e Bagdá, que tem seus 6 milhões de habitantes, abaixo de 18 metros após 4 dias. Mesmo que haja um sistema de aviso de rompimento (o que não existe), as pessoas migrarão para onde? Para o deserto? Para o inimigo Irã? Para a convulsionada Síria? A tromba d’água descendo a planície irá por estruturas abaixo, com tanques de combustível que provocarão incêndios e após 2/3 dos campos de trigo destruídos teremos a fome e as doenças, como a conhecida leptospirose transmitida pela urina de rato em meio líquido. Enfim, algo muito próximo do apocalipse.

Conferir a matéria que trata, pormenorizadamente, do assunto pormenorizadamente: A Bigger Problem Than ISIS? – The New Yorker

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O domínio do norte iraquiano é essencial para o controle das águas da planície mesopotâmica, isto é, do Iraque (imagem).

Agora vejam o tamanho do problema, a disputa pela região norte do Iraque entre forças do Exército Islâmico, Curdos e o próprio Iraque tinham que ocorrer sem danificar ainda mais a estrutura e, para tanto, quem estivesse no controle dela, como foi o caso do EI tinha que ser preservado para que a represa não viesse a pique. Por isso, os ataques ao EI não podiam ser totais. Enfim, um mosaico de fatores que tornava a guerra extremamente complexa, mas agora chegamos ao ponto que queremos… Guerrilha, terrorismo, estados interventores, ditaduras, seitas, etnias, tudo, tudo em jogo eram categorias coletivas, isto é, não individuais, sem agentes racionais de mercado que, por isso mesmo levaram a uma guerra sem precedentes na região que ainda hoje tem consequências trágicas e, possivelmente, catastróficas que ainda poderão sobrevir. Dezenas de milhares de mortos, milhões de desabrigados, de massas famélicas e refugiados… Para onde vocês acham que irão emigrar?

A pergunta simples, simplista até, porém necessária é, se não houvesse estas fronteiras limitadoras, mas o predomínio e hegemonia de grandes rotas comerciais, vocês acham que isto poderia ocorrer?

RL